30/10/2009

Férias

“Dá-me o Vento, um vento!”.

Como contar apenas com o entendimento que vai dentro de cada um? Como mostrar a quem já recebeu do sol somente a sombra, que havia mais, que o sol talvez quisesse apenas falar de luz, de raios, da quentura da vida quando a vida tem alguma? Como dizer aos olhos escassos que chegam, buscam abrigo, identidade, espelho para o que sentem, que talvez ali, não encontrem àquilo, mas a outro reflexo, de outros olhos não seus? Palavras são plurais, levam consigo mais de uma direção, mais de um conceito. Não podem ser presas nem estar atadas; palavras são mais do que nossos ouvidos conseguem ouvir, do que nossos olhos conseguem ver, do que nossos corações conseguem sentir. Vento – é preciso arejar nosso entendimento. Ver poema como poema, e poeta como ser humano apenas, que sente sim, mas sente de todas as formas possíveis porque sentir nunca lhe contenta; nem sempre eu entendo um poema que leio. Às vezes o recebo de modo enviesado, torto, quando ele talvez tenha sido parido perfeito, reto, preciso. Nem sempre o alvo do que escrevo é um outro ser humano; às vezes, não se trata de nada nem de alguém em específico, mas de cenas, situações, recortes. Quisera que o que crio, fosse visto apenas como é: criação pura. Que não fosse levada em tanta consideração, a voz que canta a canção, mas ela sim, a canção! Que não fosse tão visível a mão que dedilha, mas o som do instrumento! Que não fosse visto o Artista, mas a Arte! Mas como contar apenas com o entendimento que vai dentro de cada um, se quem vem, já o faz buscando álibi, confidente, parceria, cúmplice? Quem vem, vem com a fome feita esperando alimento. Nem sempre encontra – há vezes em que só acha outros iguais com ainda mais fome e indagações. Vento, ele é necessário a tudo e a todos. Respiremos. Pois sempre este, pode ser o último suspiro exausto que desiste.
NA. 30.10.2009 – em Retiro por Um Tempo. Até Mais!

29/10/2009

Insone

Às vezes tudo é triste, como são tristes as coisas separadas de seus donos, como são tristes as flores arrancadas pelos ventos, longe de seus ramos, desenfeitando as ruas. Às vezes pende para o lado um braço exausto, desce pela face um sal inválido, vestes já não servem à pele nua. Às vezes, se rende ao exercício do tempo, um corpo antigo. E é triste, como o fim da estrada, como um filho ausente à festa, e as casas se rendendo às enxurradas. Às vezes simplesmente é tudo triste – um instante triste, contra o qual não há mais nada. Triste como a dor de quem se ama, como o fim que nada resta, como a morte anunciada. Às vezes, nem a fé por mais profunda, nem o amor por mais que insista, nem a saudade saciada, tudo junto, adiante nada. Às vezes os olhos apenas precisam derramar-se, sem descanso, sem sono, sem espelho. Precisam, simplesmente enquanto dure. Às vezes tudo é triste, indescritivelmente triste. Triste como o vir à vida ou o ir-se dela. Queria poder estar contigo, como se adiantasse alguma coisa juntar minha tristeza à tua. Queria que nada de mal te acontecesse, nunca mais, mais nada.

Para R.S.
29.10.2009

Pétala

Quisera que nenhuma outra mão desatenta tivesse tocado a pele fina dessa pétala. E que nenhum outro lábio tivesse visitado seus cantos, seus limites, a textura lisa que tem. Quisera que nenhum outro músculo tivesse ousado levantar o dorso branco, tomado de sinais, de três em três, que se estende depois, entregue. Olho e jamais acredito no que vejo. E quisera que nenhum outro olhar antes do meu, tivesse decorado a isso. Que nenhuma outra lágrima tivesse sido sorvida pela tua boca, que não essas, as minhas, quando, de novo, entendo amor. Sobre a camada de fios que passam à minha frente, as luzes todas se movem, as coisas todas se esquecem, o mundo todo se apaga. Quisera, também e em demasia, que nunca tivessem sido antes e de mais ninguém, esse teu riso mais largo – lindo, provocado na mais profunda pureza, um riso inevitável que tentas conter e é impossível. Eu passaria a vida toda assistindo a ele, quando ele chega e me deparo, de repente, com a beleza inteira que tem – olho, e custo a crer no que vejo. Quisera que teu desejo jamais tivesse brotado antes, para que ele fosse, somente hoje, como tem sido – revestido de alegria e nenhum medo. Que tuas mãos nunca tivessem vasculhado, que tuas pernas nunca tivessem se tramado, que tuas noites nunca tivessem acabado sós. Entre nós, é como se o resto todo antes precisasse ser descartado, removido, retirado de onde esteve e como foi. Quisera que teu corpo fosse como foi o meu, que tivesse esperado mais para poder ser inteiro. Olho e não acredito no que tenho.

NA. 29.10.2009

Nascida

Não, eu não sabia.
Meus olhos vinham ocupados de imagens, presenças, lembranças, vestígios, quase digitais. Vinham tentando dar alguma nitidez ao tudo que viam, confusos com tanto, imersos na profusão desvairada da multidão que não passava, não saía da vista, não dava descanso. Era muita gente que ali estava, que se auto-gravava na retina, que se perpetuava nos gestos, nas tentativas quase que indecentes de deixar seus rastros nas minhas calçadas. Não, eu não entendia. Minha cabeça estava acesa de uma luz intensa e sobre-humana – havia palavras demais, cartas, poemas, revelações, confissões quase que imprudentes. Eram corações demais em desvario, em solidão perpétua há tempos e mais tempos - sem confidentes. Eu os ouvia. E estava atenta, molhava os olhos de tristezas que nem eram minhas, como que comungasse com todos as dores de todos que eram quase iguais, que eram todas gêmeas e se mostravam nuas diante dos abismos imaginados que nunca vinham. Queriam jogar-se e não podiam – não havia nada ali, apenas suas vontades, suas ânsias por asas e ventos devastadores. Aqueles corações portavam impulsos, já tinham coragem, sentiam-se prontos. Mas faltava o motivo, uma outra mão estendida do outro lado, acenando ‘vem’. Não, eu não conseguia arrumar espaço pra tanta coisa que enxergava, que observava, sempre contemplando muito além do que me permitia o entendimento. Meus olhos vinham lotados, minha cabeça encharcada de lágrimas de amigos, de salivas inúteis e solteiras de beijos imaginados. Mas estava ali, me espreitando. Por um momento, em legítima defesa, eu tive de abrir a porta e atravessar com passos quase incandescentes. O chão abaixo de mim quase incendiava a cada metro vencido. Era um despedir-se e era, a um mesmo tempo, um novo parto de mim mesma, do qual eu era a mãe, desta vez. Desta vez não haveria a quem culpar nem a quem agradecer – só haveria a mim, num futuro, se ele viesse, se eu vingasse. Ali, naquele momento, sobre as asas que eu mesma esculpi de mim, quando vislumbrei o azul sobre outro azul, do mar aos pés das montanhas, foi ali que meus olhos começaram a soltar o que levavam. Foi ali que minha cabeça começou a desvestir as máscaras alheias que guardava. Naquela hora e meia, suficientemente longa, foi como se de dentro pudesse emergir um novo coração quase todo solteiro, beirando a virgindade tardia, querendo uma adolescência fora de hora, longe de casa, uma fugitiva. Meus olhos precisaram que assim fosse, para que te vissem. Talvez eles já soubessem. Eu?, não sabia. 9 meses mais tarde, devidamente parida, minha outra vida se anuncia pronta para a sua vida. Se exerce, se auto-fascina, se conhece. Observa-se em frente ao espelho e se espanta ao ver que viver é de fato, melhor que sonhar. Ainda cabem, em meus olhos, faces, cenas, imagens, fotografias. Ainda visitam a minha cabeça as histórias que me contaram, contam, ainda sim. Porém, aquela que fui hoje se acresce de mais do que conhecia. De coisas que não descreve porque é inútil descrever uma alegria, toda ela, nua e sem fantasia. É outro céu agora. É outro dia e amanhece, quase, eternamente.

NA. 29.10.2009
Eu amo porque amo. Tenho razões para tanto. Amo porque me é inevitável amar àquilo que seduz aos meus olhos, a tudo que me fascine, me roube o sono, perturbe o meu andar. Amo porque preciso, porque a vida reside nisso, amar, tão somente amar. E nada do que eu faça, e nenhum caminho que eu desvie, nenhum passo meu, por menos que pareça, ruma noutra direção que não a dele, do amor insano, intenso, louco, mundano, sagrado...é nele que mergulho, é dele que me embriago, é por ele que sorvo de cada taça, é no interior dele que me acho. Eu amo, porque amo.

NA 29.10.09
Porque tu exististe, Olinda, eu pude ser.
Porque Tu existes, Amado Judas, eu posso ter.
Porque tu estás, eu posso sentir.
Necka. 29.10.2009

28/10/2009

Kasamento...

Hoje, logo hoje, dia de SÃO JUDAS TADEU QUERIDÃO, o assunto foi ‘casamento’. Ca-ra-ca! Assuntinho complicado esse, não? Eis que pediram minha opinião sincera. Ora, sou sempre sincera, mesmo que procure poupar as pessoas dos meus ferozes comentários. Um colega que andou me testando recentemente* (já conto!), quis de fato saber o que eu penso sobre casamento. Resolvi pegar leve, conduzindo a coisa pro lúdico, porém revelando o que penso mesmo!
Uma das coisas que eu disse/digo: existem milhares de pessoas no mundo. Tu escolhes uma única com quem partilhar a tua vida. OK? Porque aquela te pareceu ou te parece ainda, a melhor pessoa, porque ela te fez sentir coisas únicas na vida, certo? Ele disse: certo! Então, caro colega, por que, justamente com a melhor pessoa, com aquela que escolheste dentre todas, o tratamento é sempre assim: para vir trabalhar tu vestes tua melhor camisa, teu sapato novo, compras sempre roupas boas com a justificativa que tens de vir pro trabalho e, em casa, junto da melhor pessoa, tu vestes teu pijama mais ralado, teu chinelo velho (e confortável, provavelmente)? Ele parou quieto e prestou mais atenção ainda. Continuei: em casa, as pessoas se largam, “ficam à vontade demais”...mas, se chegar uma visita, todo mundo corre pra dar um jeito na lata, certo? Por que? A gente deveria dar o nosso melhor para a pessoa que vive conosco.
Até que, de repente, larguei uma coisa chata de explicar: que parte da culpa dos casamentos acabarem indo pro brejo, era dos padres, pois eles usam um discurso poético/metafórico/subjetivo, em vez de darem a real duma vez. Ora...aquele texto de “na saúde e na doença”, por exemplo. Ah, na boa! Isso é muito subjetivo e romântico até. Se ele dissesse as coisas direitinho como são, a maioria sairia do altar em tempo hábil. Doença existe muita: uma coisa é o cara ter sinusite, por exemplo, o que não afeta diretamente a vida da parceira. Outra, é ele ter apnéia, roncar feito um trator. A criatura ao lado vai revirar na cama a noite toda, levantar de mau-humor e, depois, não adianta entupir os poros da cara de natura: enrugou, já era! Na tristeza e na alegria...também! Merrrrma coisa! Tristeza porque o peixe-beta saltou do aquário, tuuuudo bem. E quando chega aquela pilha de contas pra pagar, o cara não tem grana, a parceira torrou todas no shopping e a conversa engrossa? Hum? Eis que, com o tempo, o cara começa a ficar com preguiça de namorar, vive cansadão, etc. A cônjuge ali, sempre mudando o cabelo, perdendo uns 200 gramas de peso, investindo pesado em gosmética. Aí, ela passa a sair mais com as amigas, a se interessar mais pela internet, pronto!: vem o cara querer regular o Orkut da outra. E? Se o padre fosse logo dizendo a real, muito estrago seria evitado. Pois, na boa, a parte em que ele fala sério, é forte: é pra vida toda. O que Deus uniu, o homem não separa; bom, resguardando o fato de que não foi o tadinho de Deus, todo mundo está no altar porque quer, é pra vida toda sim! A gente depois tenta separar, tenta se reconstruir, mas não é tão simples. Quando a gente divide uma casa e alguns anos da vida da gente com alguém, também acontecem muitas coisas boas inesquecíveis. Se forja dentro um vínculo realmente legítimo de amor por outro ser humano. E esse vínculo não se corta assim, no mais. O desejo passa? Passa! (é muito pijama, tpm, ronco, conta, toalha molhada, espinha na cara, cortador de unha, vestidinho velho...passa sim! Ô se passa!). Mas o amor dentro, aquele que nos fez escolher a pessoa lá atrás, fica. A amizade permanece. O querer bem continua. E aí chega aquele momento em que a vida fica sem tesão de ser vivida, quando algo está faltando e a gente nem pode dividir essa questão com o parceiro, o melhor amigo, porque ele é, justamente, o foco da mesma. Aí, ou se passa o resto da vida morando com o melhor amigo (a) e se resignando, ou se separa dele para tentar abrir as portas para a nova vinda da paixão. (o que pode ser uma pessoa ainda mais encantadora, como pode ser uma pessoa que jamais supere o que o anterior tinha de bom)
Eu não sou contra o casamento. Mas o considero uma escolha demasiado séria pra se fazer sem embasamentos, sem a real dita na cara, sem disfarces nem delongas. Claro que, com o tempo, mesmo que o discurso do padreco tenha sido tri metafórico, a gente acaba descobrindo o que quer dizer de fato, na saúde e na doença. Só que aí a gente já casou, ora! Nesse caso, o lance é ficar amigão mesmo de São Judas Tadeu, porque, na boa, todo mundo vai precisar dum boooooom santo querido e paciente ao longo das bodas.

*O teste: um colega, a fim de me testar, sei lá pra que, me perguntou assim:

- Sandra, qual a diferença entre Troglodita e Poliglota?
- Olha, depende do uso que tu fizeres da boca.
- Como assim, Sandra?
- Por exemplo, colega, se tu MORDERES uma pessoa, tu serás um troglodita. Já, se tu ameaçares morder uma pessoa em outra língua, tu serás um Poliglota. Entendeu?

Necka. 28.10.2009

23/10/2009

As horas que começam agora... como serão - eu não sei dizer. Mas terão impressas, cada uma delas, o novo do novo, a fé no que virá, a certeza das escolhas e a surpresa. Que possamos todos, pousados sobre o todo da verdade, sentarmo-nos à mesa, olhando-nos nos olhos e reconhecendo, uns nos outros, a intenção pura de ser feliz. Nos resta abrir os corações e pedir ao Criador, a leveza e a extidão das palavras.
Tua.

Karnak

"Eu perdi tudo.
Achei você.
Eu tenho tudo.
Tenho você."
(O Mundo Muda, Karnak - minha banda favorita!)

“Em tudo que você me diz eu quero crer,
Mas loucos não crêem:
Se entregam, sem certezas, indo mais além:
Ao TODO da estrada.”

Madrugada/2008 ,

Necka Ayala – pro terceiro disco, que virá, um dia...

Nau

Às vezes me choca a crueza tamanha das tuas palavras. O quão longe pode ir tua entrega, assim, enlouquecida, nua, toda despida. Percebo então que, diante do que dizes, constranges as minhas, um tanto mais tímidas, reservadas a si mesmas. Teria sido um encontro e tanto, teus olhos desvairados, meus contempladores. Teria sido um achado e tanto se, na dança alucinada que nossas palavras fariam, houvesse um fio feito de acordes que despertassem um pouco da tua timidez, um pouco da minha loucura. Se o fogo da tua arte incendiasse o terreno sólido e previsível da minha; se a solidez do meu caminho tivesse te dado alguma certeza.

Não sei como eu seria se ousasse ser ainda mais livre. Não sei como serias se pudesses ser ainda mais de alguém, como tens sido da poesia. Sei que às vezes despes a todos quando te despes. E tudo se rende, aceita que assim seja – dizes a todos, nesse instante: amem!
Necka. 23.10.2009 – to shey.

Hard Working Mad

À poesia não importa
Aquilo que lhe causou.


Se me deixassem em paz, se me ofertassem um tempo no meio de outros tempos, eu aceitaria de bom grado e sorveria do silêncio, uma outra vez, sua mais fina essência. As horas aqui dentro pertencem às vozes que passam, aos passos percussivos e fora do tom. Transitam ao entorno como as palavras que não ouso tentar. Estão ali, mas não são minhas. O tempo delas e o meu não se entendem, não acham harmonia no meio da rotina, em frente ao dia a dia que se estende. Se me deixassem soltar o que me vai por dentro, no centro do dia, em meio à confusão de assuntos e de vontades todas contidas, talvez eu até dissesse delas também, além das minhas. Piso o chão – há tempos o terraço não me é possível. Transito entre todos, uma face a mais é ao que se resume meu semblante um pouco envelhecido. O ar daqui é seco, ainda que chova muito ultimamente. Pode-se escrever sobre a pele seca algum poema transgressor e urgente em demasia. E quanto duraria um poema caligrafado sobre a pele? Quanto permaneceriam as palavras que não podem ser escritas, vagando soltas e desencontradas dentro de uma mente aflita? À poesia nada importa. Ela quer vir. E isso lhe basta. A mim importa agora cada vez que coincide das vozes se calarem, dos passos não virem por esse caminho – o meu.
Necka. 23.10.09 – 9h22 na ANAC.

14/10/2009

Grata pelos Raios!

Ontem comecei o dia pedindo a São Judas Tadeu por uma graça. O dia correu rápido demais, cheio demais de coisas a fazer. Trabalho, Caixas em casa esperando...enfim, dia de semana, normal e previsível. O que eu não previa era o temporal que encerraria o dia à luz de velas, necessárias, depois de um raio imenso que caiu ali, à minha frente, deixando tudo em volta estremecido. Parecia a ira de Deus, a fúria das nuvens. Meu PC sofreu os danos, soube agora cedo, na manhã de hoje esperançosa. Já, no meio desta manhã, graça alcançada: Judas não falha nem tarda. Amado, muito obrigada de novo. Meu agradecimento público mais uma vez, na certeza de que Estás aqui, tanto no raio quanto na prece, tanto no que espero quanto no que não posso prever. Estremecimentos existem e são, igualmente, necesários, como são as velas às vezes. Servem para reafirmar a firmeza dos passos e a instabilidade da estrada.
NA. 14.10.2009
"Há dias em que meus olhos olham para o que possa ser reposto. E espera".
NA 14.10.09

29/09/2009


11/09/2009

Por que andamos de passos firmes,
cheios de certeza e convicção quando rumamos à dor?
Por que nos dirigimos à felicidade com passos hesitantes?
Por que?

NA. 11.09.09

Lua às 17h50.


"Estrela não tem luz própria,
quase ninguém sabe disso
e eu sinto muita saudade
do brilho dos meus amigos...
sinto tanta falta de você
se eu pudesse querer
queria você comigo...
muitas horas, muitas horas..."
Fátima Guedes, Eu.

Pôr do Sol

O Pôr-de-Sol de Porto Alegre é lindo. É fato. E famoso por isso, também. Porém, há outros. Em Brasília, o sol se põe num espetáculo de cores e de formas jamais visto. Todos os dias há um novo, um inédito, um desigual, ou, como diria uma das pessoas que mais amo no mundo, “sem comentários!”. O céu daqui amanhece como se fosse o sol se pondo, na mesma tonalidade avermelhada e intensa. Há, praticamente, dois ‘pores de sol’ por dia.
O que me faz pensar, depois de uma experiência um tanto quanto desagradável de hoje cedo, advinda de Porto Alegre, através de um e-mail de uma amiga (?), que, ...em se tratando de metáforas, eu tenho aqui dois espetáculos por dia, somente meus. Duas pessoas, duas almas lindas, duas mãos abertas, dois corações sem-fim, duas colunas de sustentação de desde o meu térreo, até o meu terraço. Essas colunas têm aberto meu mais largo riso, continuado meu mais longo abraço, meu mais vasto caminho. Com elas, todos os trechos do céu são possíveis, todas as ruas se abrem e todas as palavras visam clarear mais passos. Com elas, sorrir é mais freqüente que piscar os olhos, conversar pode ser a melhor coisa do mundo e sempre acabar bem e, até o gosto do vinho, pode ser uma boa pedida na sacada, olhando a lua e tocando uns acordes novos, meio tontos, por que não?
Eu vivia lá. Lá era o lugar que eu conhecia. Era meu mundo. O fiz. Cuidei dele, refiz quando se danificava, colei quando quebrava, mudei quando era preciso. Era meu. Ruas, pessoas, casa, rotinas, tudo era meu. Mas eu não era. Lá, havia peso demais por sobre os ombros, palavras ruins que me cortavam os pulsos, atos e cenas tão brutais, que já não achava lirismo em mim. Lá era linda a sala da casa e os objetos. Mas eu não era. Havia fealdade demais por sobre tudo, distância demais entre os caminhos, dificuldade demais entre as pessoas, o que as impedia de serem, de fato, amigos, no exercício de ouvir mais de uma parte e no posicionamento de ficar ao lado de quem merecia! Lá eu tinha tudo e não me tinha. E, de onde morava, nem via o sol de porto se pondo.
Me pergunto se quem me conhecia, me conhecia. Porque eu mesma não me conhecia. Não sabia que, uma vez estando em paz, sorriria tanto, diria tanta bobagem, viraria humana, encontraria tanto sossego, gostaria tanto da vida, acharia tantos caminhos, poderia dormir e, em vez de sonhar com a vida, a viveria!
Brasília tem dois espetáculos do sol e muitos outros da lua, que aparece de dia contra o céu azul clarinho. Tem ruas floridas e é plana, quase virginiana, simétrica, limpa! Aqui, embora sem todas as coisas que eu tinha, TVs, som, caixas, fotografias, CDs, filmes, casa-própria, violões mudos, lps, canetas e pincéis, talvez eu nunca tenha tido tanto: eu tenho meus dois maiores amores e, antes mesmo de tudo, tenho a mim! E, para completar a dupla perfeição, eu sou feliz.

Para FT e PB que me conhecem tanto e tão bem!

08/09/2009

08.09.09

É curioso ter dia certo para a lágrima, hora certa...
e é quando te despedes novamente.
O céu e eu, iguais neste instante vazio.
Nublamos.
Anunciamos chuva.

03/09/2009

...mas e se aquilo que esperas já tiver acontecido, tiver se dado, num cume qualquer, num topo de sentido, enquanto, embriagada, estavas lá e o sentias? E se, na imaginação e na sugestão autônoma das palavras mais latejantes, tiveres tido quem tanto querias? E se lá, naquelas tardes nem tão distantes assim, tiveres acontecido como ainda queres que aconteças e já tenhas visto? E se aquilo for teu todo, tua máxima e mais expressiva expressão de tato e de loucura? E então, como será que te sentiste tendo sido?

NA 030909
Era um caminho de pétalas até a tona branca, até o derramar de fios, cada um com sua cor própria. Um caminho sereno e silencioso, do qual se podia sentir o aroma fino que preenchia o ar de novos ares. Era uma luz difusa, velas acesas e vento calmo que movimentava as chamas. Era um caminho curto até a cama. Ali, um corpo claro envolto em mais branco ainda, aguardava. Sem palavra, dizia ele e a cena dizia...vem.

Necka. 03.09.09 (For 6x30)

“...e quando o amor vos chamar, segui-o!” (Khalil Gibran)

Não sei se segui ao amor, ou se ele, por vontade própria, seguiu-me vida afora, ao longo do tempo, se anunciando em outras formas, se apresentando com outros nomes, desfilando com vestes que também eram suas. Sei, que nas vezes em que adentrei sua morada, quando visitei seus cômodos e abri todas as portas com as quais me deparava, o provei e foram muitas as taças sobre as quais ele se derramava. Sei que em todas as chances que tive de tocar a pele fina do amor, toquei e tive, ali, alguma descoberta a respeito de mim mesma e dele. Sempre, depois de cada toque, eu me acrescia de mais. E em todos os beijos que o amor me fez dar em cada face, em cada respirar profundo de todo abraço dado forte em cada amigo, e a cada olhar direcionado e franco, houve mais de mim e mais dele. Às vezes, foram em pessoas cujos corações nem havia eu tentado cultivar. Mas houve! Houve olhares de compaixão e entendimento, houve instantes fugidios eternizados na compreensão e no entendimento. E ainda não sei se foi o amor que me veio acompanhando, ou se fui eu que vivi indo por ele. E nem importa. O que vi dele, preencheu os vazios que guardara nos olhos, enquanto mirava ao longe e sem motivos. O que senti dele, ocupou as horas que antes eram vazias. O que toquei dele, modificou meu tato. O que fui, depois dele, e sou ainda e mais a cada dia, esculpiu-me a alma. O que sei do amor? Eu não sei nada. Porque do amor nada se sabe: tudo se sente, e o que se sinta, jamais tem fim ou qualquer explicação.

Necka. 03.09.09

03

Há outros, poemas, há. Que se inscrevem em vez de se escreverem, na superfície às vezes tênue da pele, nos arranhões e nas carícias; há aqueles que se aderem à superfície reflexa das retinas, e outros que se confundem nas tramas aleatórias dos pêlos; há outros sim, que tudo têm a ver com a fome, a sede, a espera e a ânsia mais legítima de quem viveu de um arremedo de vida. Mas poemas, às vezes, também são arremedos. Forjam sensações e as descrevem como se as conhecêssemos profunda, vastamente. Se as conhecêssemos, as estaríamos vivendo em vez de escrevendo. Poemas querem falar da vida que não vivemos.
Lá fora, agora, o céu se tinge de chumbo e anuncia a chuva. Lá longe, agora, um leito espera por mim e um outro corpo. Não sinto fome, ainda não, de nada. Nem dos poemas que fazia, nem das promessas de coisas que não deram em nada. Sinto, apenas, um gerúndio em vida, indo, indo, indo, sempre mais além e ao próximo instante possível, sem fome, mas inteiramente saboreado. Sem pressa – não a tenho mais. Dentro de mim, uma certeza de futuro que não havia. Uma lembrança do passado que já manteve meus olhos abertos, mas passou. Passou porque só há o dia de hoje e ele guarda parte de suas horas para o sabor que aguardo apenas, sem ânsia. O que te virá ainda, será a colheita simples, trivial de um fruto. E a ele, com certeza e com alegria, poderás dar o nome de merecimento. Se sabes amar assim como descreves em poesias, espera! Confia! Virá o dia em que tua língua se deleitará de encontros em vez de errâncias. E pousará suave sobre o sumo da vida em si, mais nada.

Necka. 03.09.2009
To Shey
Buscando em Mariana algo que te responda, te respondo:
tudo o que me resta
é dizer de um corpo
que chora
à margem de um rio
esperando a sede.
Mariana

30/08/2009

Quisera que amar fosse amar somente. Sem medições, sem limites, dimensões. Que fosse assim como acontece dentro de mim, onde nada tem precisão, onde cada coisa tem seu lugar sem afetar o espaço alheio de outra coisa. Ali, tudo se entende, dentro, e se estende afora do que sou. Quisera que amar não carecesse tantas explicações, tantas mãos, porém mais olhos. Que se visse mais do outro, se entendesse mais sobre o outro, como devia ser o amor em si. Quisera ter aprendido a amar ao sabor do vento, livre, solta, sem maiores esclarecimentos, sem tantas paradas pro descanso necessário. Amar porque amo e, assim, inevitavelmente. Mas erro, me equivoco, volto a ser coisas que era antes disso tudo, a ter os mesmos tropeços nos mesmos vãos das mesmas escadas. Eu não entendo que tanto tenha havido sem que eu tenha buscado a nada. E há. Há uma estrada que me trouxe que é irmã gêmea da que me levaria. E o tempo é pêndulo sobre meus ombros. Hoje estou só. E ainda não sei como amar simplesmente a essa que vejo no espelho. Ainda não.

26/08/2009

O Melhor Sanduiche do Mundo!

Há certas cenas ou histórias da vida da gente que, realmente, não têm preço! Algumas eu andei descrevendo aqui, contando do jeito que era possível, quando havia mais tempo e espaço silencioso à minha volta. Cenas como a do Jefferson ou a da Aury, já no DF. Ambas foram escritas num outro lugar, com horas livres e silêncio o bastante. Hoje, no trabalho, escrevo do jeito que posso, apenas para deixar registrada para sempre uma cena recém-acontecida.
Há duas ‘flores’, como as chamo, aqui na sala, cedo, todas as manhãs. Elas vêm lavar o chão, limpar as mesas, tirar o lixo, preparar nosso espaço de trabalho para mais um dia. A uma, chamo de Ro; à outra, de Flor, apenas – ela gosta. Ambas são gentis, sorridentes, queridas. Ambas gostariam de ter uma vida melhor. Sempre me senti muito próxima de pessoas que conhecem a vida por um ângulo mais estreito, digamos. Aquelas cujos bolsos lidam com o vazio, enquanto que seus corações estão sempre cheios. Prefiro a essas, que sabem o valor de um abraço forte, independente do crachá que se pendure no pescoço; enfim, são elas, minhas flores do dia.
Dia desses, ouviram uma conversa minha aqui dentro, sobre o atraso da vinda dos Vales-Alimentação. Comentava com meus colegas, que gostaria, no dia do meu aniversário, de ‘tipo comer um sanduba na rua com os amigos’, mas não havia recebido os Vales. Coisa de colega papeando, esperando o trabalho começar. Elas ouviram, quietas, as duas, enquanto secavam o chão.
Pois chegou o dia 26 de agosto. Meus 45. Depois de 2 meses de sol diário, calor de 30 graus e seca, esta semana, Judas Tadeu Queridão, mandou de presente, desde sexta-feira última, chuva todos os dias e frio, mais ainda hoje. Vim feliz, jurando que parecia Porto Alegre. Com casaco, com vento friozinho na cara, contente da vida.
No meio da manhã, enquanto atendia a um usuário no balcão, chegam as duas flores. Param diante do balcão com um sanduiche lindo, quente. E dizem: ó, Sandrinha, pra ti, de aniversário! Agora pode comer o teu sanduba...não é nenhum McDonalds, mas hoje tu não vais tomar Nescau no almoço!
Não preciso descrever o abraço que dei nas duas. Quem me conhece, sabe o meu abraço como é. Não preciso dizer que chorei direto. Saí pra rua, fumei um Free agradecendo a Deus e, depois, fui atrás delas pra dizer que esse, sem sombra de dúvida, foi o melhor sanduba da minha vida. Me fez sentir calor humano aqui, coisa de gente que tem coração cheio, a despeito do vazio dos bolsos.
Ganhei outros presentes, claro, em princípio, muito mais valiosos. Mas esta cena, juro!: não tem preço. Obrigada, Meu Deus, por traçares meus caminhos e sempre me levares precisamente para onde devo estar, nem 1 segundo a mais, nem 1 segundo a menos.
Necka, aos 45.

09/08/2009

Vilson para Sandra, 64, antes de mim.

Porto Alegre, 2 de maio de 1964

(Mensagem para minha esposa)

Há dois anos atrás também chovia a esta mesma hora. Foi sombria e triste a manhã do dia em que nos casamos. Deves lembrar como eu, a doce expectativa que a cerimônia da tarde nos impunha.
Estávamos alegres e descuidados, muito mais jovens do que hoje. Desconhecíamos então toda a pungente realidade imposta pelo casamento. E na nossa ingenuidade fomos experimentando o difícil aprendizado da dor e da alegria, da adversidade e do amor.
Não deciframos ainda o enigma cruel que encerra o indecifrável mistério da harmonia. Em dois anos, tenazmente vividos, não nos foi confiada a fórmula que deduz o sublime estado de paz.
Qual o caminho da paz inacessível que buscamos?
Será este mesmo cuja aspereza nos faz tombar a cada passo?
Será este em que extenuados e descrentes palmilhamos dolorosamente?
Permanece calada e ausente a lenitiva resposta.
Mas se realmente é a lei e o preço da felicidade quem nos traça a espinhosa trajetória que galgamos, é preciso prosseguir.
Talvez seja mais penoso por caminharmos separados.
Coloca tua mão sobre meu ombro quando sucumbires ao domínio do cansaço. Quando sentires que sangram teus pés, apóia o teu braço no meu braço e eu saberei que te sou necessário. Quando a exaustão prostrar a resistência dos meus passos, eu pousarei meu rosto em tuas mãos e tua carícia será meu bálsamo e meu repouso.
Procuremos a solidez indivisível do nosso amor, na unificação do nosso sofrimento.
Com o tempo, a dor nos fará mais sábios e muito mais humildes. E nosso caminho trôpego, se nos parecerá mais breve, menos infeliz.

Vilson



Pai, Olinda, Walmir e Tio. / Valéria, Necka, Pai e Olinda




Velho

Às quartas-feiras. Por volta das 8h da manhã. Ele estaciona o carro aqui em frente. Desce. Cabelos sempre molhados ainda, parecendo ter passado um gel qualquer que dome seus cachos - contorna o carro. Dentro, há dois meninos. Eles esperam. Então ele abre a porta, cheio de sorrisos e cuidados. Desce o garoto mais novo, que deve ter uns 7 anos. E o abraça apertado, na altura da cintura, forte, na força que podem ter aqueles braços-meninos. Ele abraça de volta, pousa a cabeça sobre a cabeça do filho. Abraça mais, ajeita os cabelos também molhados do mais novo. Daqui, se ouve um tchau pai. O outro, mais velho um pouco, talvez com nove, desce depois que o primeiro abraço se solta. Mais sério, esse, mostrando que já se sente mais homem que menino. Mas abraça o pai da mesma forma, sem tantos requintes. O pai olha, acena, olhar carinhoso aos dois e se despede. Toda quarta-feira essa cena se dá aqui em frente. E sempre me emociona assistir. Ele nem deve saber que os vimos, que os admiramos, que os temos como exemplos de amor. Mas sim.

Meu pai tinha a pele morena como a minha, o mesmo sorriso que tenho, as mesmas mãos. Tocava piano, como eu, de ouvido. Compunha e não guardava direito, às vezes se esquecia das próprias canções. Às vezes se esquecia dos próprios filhos, porque amava demais e se perdia de si mesmo. Ele era um romântico, como eu. Escrevia cartas, como as que escrevo. Tinha um humor inteligente, por vezes irônico, por vezes simplesmente bobo. Também trago esse traço comigo. O nome dele no meu nome, o ayala que tanto pesa, quanto orgulha. Não sei se ele foi feliz. Se chegou a chorar de felicidade como choro, como tenho chorado agora, nos últimos tempos, de tanta paz que sinto e tenho. Ele me deu o nome de minha mãe, talvez porque a amasse acima de tudo. Mas depois conquistou outra mulher, uma guerreira que o acompanhou a vida toda e lhe deu outros 3 filhos. Somos 5. Todos sem ele agora. Nunca vivi com ele, perto o bastante para te-lo conhecido pelo lado de dentro. Quisera saber mais sobre ele, sua cor favorita, o que lhe metia medo, o que lhe enchia de coragem. Quisera ter tocado com ele no meu primeiro disco. Ouvir de novo o som que ele tirava do piano. Lembro que ele chorava muito quando eu mostrava uma canção recém composta. De alguma forma silenciosa e segredada, ele gostava do dom que me deixara. Mas herdei mais, pai. Herdei um coração que ama insanamente, que ama a despeito do que venha; herdei tua cor e teu sorriso, mas, antes disso, a cor de tudo que se sente demais. Tudo em mim é exagero, velho. Como contigo. Herdei a necessidade de sair de mim de vez em quando. Não bebo, como tu. Mas saio igual do chão quando toco. E me custa voltar. Não uso o nome que me deste, porque me deste a Olinda e ela me batizou, me fez, me moldou. Não toco como tu, por puro dom, porque me deste o Luiz Mauro e ele, me ensinou tanto! De tudo, um tanto! Mas herdei o respeito à música, como o respeito a Deus, o pai eterno a quem hoje, devo gratidão, dedico minha fé, temo e tento seguir. Lembro que me dizias sempre que, acontecesse o que acontecesse serias meu pai e meu amigo. E, na medida da distância possível, foste.

Espero, velho, que daí possas ver a todos nós, aos 5 que deixaste aqui, cada um com um tanto de ti e um tanto do que vivemos. Que consigas assistir aos meninos que crescem, às músicas que fazemos, aos abraços demorados que nos damos. Espero, pai, que eu possa te ver de novo. Te dizer que ta tudo bem agora, já não me dói a vida, já não me assusta a morte, já não importa mais como tudo se deu. Ta tudo bem, velho. Apenas sinto tua falta, quando, de repente, alguém me pergunta: ah, tu és filha do Ayala?, e sorri!

Necka. Dia dos Pais. 2009.

08/08/2009

23h22

A casa silencia comigo. A noite, o espaço, o entorno. As cordas soaram estranhas quando as toquei. Minhas mãos são tuas. Há essa luz nova, de abajur, sobre este canto de onde tento me situar, ainda que seja nas palavras soltas. Estou solta. Estás. Nossas asas se fecham agora – não há vôo algum possível para esta noite. Parece uma fenda no tempo por onde passamos sem querer passar. Parece um intervalo, um ato suspenso no tempo, no ar, no vento que veio. E há noite. Poderia ser longa e ser clara, se teus olhos iluminassem o que vejo. Nada vejo. Meus olhos são teus. Não há relógios agora. Não há palavras exatas, nem uma. Acaricio a pele fina de cada palavra e não as sinto. Adormeceram e ainda há uma noite a ser transcorrida, que me consumirá. A casca silencia comigo e a noite. Já não há sentido nela, na superfície. Ela flutua inútil beirando as vestes tecidas, ímpar. Minha pele é tua. Busco apreender cada pensamento que vem, solto, estamos todos soltos aqui e agora. Nada fica. Tento entender o que acontece e à noite, esta, que me põe solteira. Era para ser tua, todas as horas dela, cada temperatura, cada freada brusca da rua, cada nudez necessária de todas as nossas faces. Era para ser tua a dança sobre os lençóis perfumados, o canto sobre teu ouvido atento, o fôlego que falta às vezes. O todo silencia comigo e a noite...

Necka Ayala – 08.08.09, 23h22

07/08/2009

Cláu Romano - A voz!


In-Pares

Era uma vez uma certeza. Uma única, solteira, atenta, sempre ali, esperando que o rumo das coisas, pusesse as cartas e os corpos sobre a mesa. Uma certeza-Amazona, resistindo ao tempo e ficando, enquanto outras se rendiam. De vez em quando falava sobre ela, queria cúmplices. Me olhavam aquele olhar desconfiado, surpreso, meio duvidoso. E eu ia, levando minha certeza comigo, de novo só, ela, dentro de mim.
Eu tinha certeza de que minha Teoria não seria mais Teoria se eu chegasse a exercer cada linha escrita sobre ela. Mas não encontrava quem cresse, quem quisesse tanto quanto eu trazê-la para o real. Me diziam que não, não era possível, ninguém resistiria, era inútil continuar acreditando naquilo. Meus amigos, de mãos partilhadoras, meus álibis, fiéis e seguidores, ninguém dizia: sim, eu acredito!
Um dia, já cansada, meio que descrente de quase tudo, menos dela, acabei por contá-la de novo, para uma amizade nova. Desta vez, não por escrito, mas contando mesmo, ao vivo, olhos nos olhos. A expressão era minha conhecida. Um ar de seriedade, uma face imóvel, sem deixar transparecer nada, nenhuma reação. Porém...

Do azul nem sempre azul daqueles olhos, rompeu um raio. Um brilho, um acontecimento. Foi de relance, mas vi. Alguma coisa que eu tinha dito, alguma palavra mais forte, não sei, trouxe aquele facho de luz colorida, verde, azul, cinza, assim, de repente.
Guardei comigo que o tinha presenciado. E segui contando a história, até o fim. Conversamos sobre ela, fizemos comentários comuns, nada de mais grave, naquela madrugada, à minha mesa da sala, rodeada de incensos e velas coloridas, ainda em Porto Alegre.

........

O tempo foi passando, eu não o vi passar tanto. Entre tormentas, guerras, notícias, ameaças, palavras duras, palavras boas, eu não vi o tempo passar. Ele levou o resto das certezas que tinha. Mudou o nome de coisas que julgava que sabia. Atribuiu outros valores para coisas que me foram caras, antes, num outro instante. Mas não o vi passar.
Um dia, de repente, sem que me desse conta do tamanho da porta pela qual eu adentrava, aterrissei numa cidade muuuuito grande. Lá, no meio daquele tumulto, iam comigo, ao lado, observando também ruas e tons de céu diferentes, os Olhos de Raio. Nem lembrava mais que havia lhe contado uma história, um dia. Aqueles olhos eram de um ser humano além do humano. De coração infinito, de gestos cuja generosidade não tem medida, de alma branda, leve, como quem passa feito aparição. Um coração, no entanto, só. Solteiro como a minha certeza. E ele andava, também, pela vida, sem ver o tempo passar, a espera de que uma outra certeza, a dele, um dia também saísse do imaginário, pousando no real. Aquele coração movia outros, unia outros, cuidava de tudo quanto não fosse seu. De seu, não tinha quase nada. Um Tecelão: usava de linhas e costurava pedaços de outros, juntava partes coloridas de caminhos, trazia para perto o que distava e sentia saudades demais. Mas pra si, não trazia nada. Não prendia, não alinhavava junto a si pedaço algum. Não abria mão da liberdade, por isso não a tirava de ninguém. Ia, vida afora, tempo adentro, com graça e alguma serenidade, sabendo que qualquer dia, o criador atenderia às preces que não fazia. Tinha medo de fazer, porque arriscaria a tudo. Se pedisse e não viesse o hóspede de seu leito, perderia a fé, definitivamente. E se viesse, o temor de ter, assim, de repente, talvez o fizesse perder, de tanto que queria. Um coração que portava aqueles olhos de raio, mas não os usava para alvejar a outros, ainda que pudesse. Andava comigo pelas ruas da cidade imensa, apenas isso. Ia. Me ouvia contar outras histórias em silêncio.
Confesso que olhava esperançosa de rever aquele facho de luz sair de novo. Não via. Uma primeira vez, nessa cidade, o que vi foi um brotar de lágrima, linda, caindo rosto abaixo, descendo feito a chuva que se via descer pelo vidro daquela janela.
Eu não conseguia ver a pessoa, porque era mais que uma pessoa ali. Tinha uma espécie de neblina em torno, uma aura, uma névoa encobrindo sua identidade. Eu já amava, sabia disso, e era amor construído com o tempo, desde a minha sala. Coisa de quem se encontra pelo lado de dentro, antes. Na verdade, íamos por esses novos caminhos, sem nos ver, sem nos enxergar. Iam, na verdade mesmo, nossas duas certezas sem dizer nada, sem revelar-se, ficando amigas, as duas, ímpares, silenciosas, sem acordos segredados. Um tipo de pacto sem palavras.
Uma noite estávamos numa roda de viola na cozinha. Eu precisava beber e tocar. Acabava de me dar conta de que, em dias, perderia aquela presença, aquele par de olhos de raio que há tanto me ladeavam. Havia uma tristeza dentro. Fiquei horas acompanhando uma voz de deusa que cantava comigo. Uma amiga linda que, quando canta, tudo no mundo parece estar certo. Não estava. Mas eu não sabia entender, juntar os pedaços, costurar com destreza as coisas soltas que me vinham. Não era meu dom, este. O meu é das cordas. O dom dos fios, não é meu.
Tarde da noite, subi, cansada demais para qualquer entendimento. Havia soltado tudo nas palavras que cantara, nos acordes que fizera. Era confuso, era coisa demais acontecendo num outro tempo que passava mais veloz ainda, sem que o acompanhasse.
Abri os olhos. Estava ali, diante de mim. Era uma noite fria, caía uma garoa fina e insistente. Estava tonta. Tentei abrir de novo, mais, meus olhos. E aconteceu! O raio veio e me acertou a retina, irreversivelmente. Como um clarão!
A noite encurtou as horas. A pele recebeu o calor do raio. Pelos meus olhos negros, passou luz suficiente e, de repente, minha certeza se viu nua. Quando ela despiu-se, quando largou suas vestes e se viu pela primeira vez como era, toda certeza, toda iluminada e toda nua, se surpreendeu e se refez. Levantou-se pronta para o enlace e se entregou. Foi encontrar-se com seu par, sua outra parte, a certeza dos olhos de raio que, antes, também era só. Uma era a certeza de que havia, a prática depois da teoria. A outra era a certeza de que viria quem não havia vindo ainda e poderia. As duas se olharam nuas, uma diante da outra e de si mesma. E se enamoraram.

Hoje minha certeza segue de mãos dadas pelas ruas de uma cidade onde não chove. Faz sol ininterruptamente. Vão as duas certezas somando tempos que agora, podem ver passar. Festejam, riem juntas, se gostam, se querem e se entendem como não poderia deixar de ser. E são felizes.

Isso tudo aconteceu porque, no meio-tempo, enquanto eu não olhava nem prestava atenção, uma outra certeza foi parida da minha primeira, virgem: a certeza de ter visto aquele raio, naquela sala, naquela noite de julho. Se eu não tivesse visto, não tivesse certeza de que aconteceu, talvez não tivesse acreditado quando ele rompeu uma segunda vez, certeiro, nos meus olhos. E, se daqueles olhos, não saísse também a convicção de que alguém chegaria, aquela outra certeza teria ficado só.

É preciso estar atenta aos raios e ser cúmplice de nossas certezas mais puras. A minha, filha da arte, encontrou a outra, filha da espera. É preciso ter olhos abertos para a possibilidade dos raios. É preciso ter o coração aberto para a possibilidade da música.
Agora, exerço, pratico, apreendo o que aquela Teoria descreveu. E a cada degrau, a cada instante não mais vazio, a cada presente aberto, o Criador sorri e concede mais, pois nada Lhe cheguei a pedir nesse sentido. Só tenho pedido para ser digna de tanto e é muito. É o Todo.

Necka Ayala. 06.08.09
Menção a cantora Cláudia Romano, com saudades de tocar para cantares! Tua voz e meu violão, são pares!

06/08/2009

Da Rodoviária, pela janela do Bus


Dia 2 - 18h13

Em Brasília,
só o Céu de Brasília é igual
pra todo mundo.
NA. 06.08.09

27x7

Quinta-feira.
Manhã - frio.
Eu já não vivo de miragem,
já não vivo de farol,
já não sonho com luares,
não me aquece mais o sol...
Toca minha pele a língua branca,
meus pés mageiam o mar,
à areia branca...
Eu hoje vivo de ver a paisagem:
está aqui, existe e faço parte.
Nós que não perdemos a viagem...

Necka Ayala. 06.08.09 - 00h24
“...mas acontece que me apaixonei pela felicidade
e não quero mais viver sem ela.”

2008.

MSN

...quando tu achares que cansou, muda!
corta uma franja,
guarda as palavras,
veste a camisa,
deita em silêncio.
quando achares que cansei,
despe outra face,
mostra outra tua,
prende o cabelo,
dorme ao meu lado...

Recortado, Copiado, Colado, Dito, Vivido, Com-partilhado.

Noite, tarde da noite. 05.08.09

Era

Era um mar qualquer e meu coração à deriva.
Era a vista do amplo do céu e meu olhar à deriva.
Era o flutuar a esmo, meu corpo de barco, feito pescador.
Era um ir infindo, mudança dos ventos,
A vida à deriva.
Eu ficava à margem das coisas que beiram a vida.
Eu não tinha à vida, como ela a mim.
Era um ar qualquer, um sopro, um suspiro,
Uma brisa pouca, direção nenhuma.
Eu me alimentava dos sinais mais vagos,
De esperanças rotas, de palavras gastas.
E morria à míngua, meu desejo puro,
Meu desejo casto, minha boca seca.
Eu ficava à margem do que faz sentido,
Do que tira o senso, do que rouba o sono.
Era um farol qualquer, distante e me bastava.
Era uma canoa de lugar solteiro e eu cabia.
Agora é luz que vem da fonte, teus olhos, a fonte...
Agora é correnteza, de águas doces muitas,
Águas claras mútuas.
Já não me servem sinais, vejo milagres,
Vozes, declarações de amor em teus gestos quietos.
Meu corpo de cais, meu desejo de almirante.
E, à margem, o medo que eu tinha
Do todo deste instante.

Necka Ayala. 06.08.09 – 00h12

05/08/2009

Mora comigo na minha casa
Um rapaz que eu amo
Aquilo que ele não me diz porque não sabe
Vai me dizendo com o seu corpo
Que dança pra mim
Ele me adora e eu vejo através de seus olhos
O menino que aperta o gatilho do coração
Sem saber o nome do que pratica
Ele me adora e eu me gratifico
Só com olhos que eu vejo
Corto todas as cebolas da casa
Arrasto os móveis, incenso
Ele tem um medo de dizer que me ama
E me aperta a mão
E me chama de amiga.

Texto de Luiz Carlos Lacerda
Extraído do Disco Drama 3°Ato - 1973 - Maria Bethânia

22h30

Teu amor é plantio.
Ele vem pra deixar arada uma terra,
Regada uma tarde, aberta uma flor.
Te amor é sadio,
Ele vem dar alívio à ferida,
Curado o passado, corado em rubor.
Teu amor é feitio,
E está pra fazer contorno,
E colorir tecidos,
E desfilar sem pudor.
Teu amor só é desvario,
Quando de susto, se atrasa,
Quando precisa ir deitar-se,
E é à menção do calor.

Teu desejo é insano.
Ele vem para deixar vazada a água,
Mergulhar na noite, arder em tremor.
Teu desejo é desalinho,
Ele chega para causar estragos,
Para perder a hora, e se mistura à dor.
Teu desejo é um dono
Que toma para si a carne,
O leite, a saliva, o suor,
o abandono da lágrima no breu...
o sangue em suspenso.
Teu desejo é errante
E toma e tem – inebriante,
O que brota do meu.

Tua paixão é encanto
E vem para deixar gravada uma cena,
Cantado um poema, descrita tua flor.
Tua paixão é proprietária,
E tem para cuidar do todo,
Da soma das partes, o avêsso do amor.
Tua paixão, destinatária,
Recebe o meu corpo,
o abre e o vasculha,
o tem e quer mais.
Tua paixão é clareza,
As cartas na mesa,
Certeza e temor.
E vem para se ver mais tesa,
Do mar, correnteza,
No ar, beija-flor.

Necka Ayala 05.08.09, 22h30.

21h29

Venta...
A cortina se move como se movem os fios do teu cabelo,
na rua, quando livres, contra o breu.
A casa engrandeceu, sobra espaço,
Faltam palavras, resta meu corpo e é sem o teu.
Passam
As muitas horas, como passam as cenas diante de mim,
Todas nuas, quando lembro, quem sou eu?
A cama se alastrou, sobram vestes,
Faltam gestos, resta meu corpo, longe do teu.

Necka Ayala – 05.08.09


16h27

“Meu Amor é sadio.
Meu Desejo, Insano”.

(FT – 04.08.09)

Era tarde.
Era Janeiro.
Eram partes,
É inteiro.
(NA - 05.08.09)

10h03

Pouco me importa agora se faz um dia aberto,
Se sobrevoam neste instante o espaço,
asas, pássaros, aços,
preces, passados, esperanças.
Pouco me importa o que entra nesta sala fria,
O que adentra, o que invade, o que se anuncia.
Pouco me dizem as palavras que leio,
Tanto quanto as que procuro
Inutilmente.
De nada me valem as notas agora,
A textura dos papéis, a pressa dos carros,
O cheiro dos incensos, as luzes da velas,
O claro da casa, a transparência do vidro.
Pouco me encanta o que vejo dali.
O tempo está suspenso, como as mãos que tenho
E de nada me servem agora.

Necka Ayala – 10h03
“...quando estás ausente o vazio me enlaça...”
(Instante Vazio)

9h52

As Horas...de novo as horas, de novo elas.
Fartas, improfícuas, longas, inimigas.
De novo aquelas.
As muitas, as incontáveis,
As tontas, as sentinelas.
As horas, de novo elas ao meu entorno.
E eu não as quero.
Não me permitem fazer com elas
O mesmo que fazem de mim.
As horas zonzas, surdas e imóveis
às quais basta serem o que são
Para ferirem.

Necka Ayala – 9h52

9h45

Hoje
O céu aberto à minha frente
Não me parece o mesmo.
Ele se abre a esmo,
hostil.
Rejeito o que ele oferece em espaço,
Em vôo,
Em distâncias.
Hoje não quero o céu
Quero o pouso
e sua mais legítima importância.

Necka Ayala – 05.08.09

9h15

“(...) Mas às vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste e quer morrer
assim (...)”.

Walmir Ayala
Saudades, Tio, da força das tuas palavras.

29/07/2009

Ai Se Sesse

Cordel Do Fogo Encantado
Composição: Zé Da Luz

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse
de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse
te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse
pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse
e as virgi toda fugisse

VALEU SHEY! ...Achasse, Muié, achasse!
Hoje eu queria escrever.
A Lua vai sair mais cedo.
O Céu atrasou mas é vero: a lua virá antes.
Queria escrever pra ela.
Lua....
29.07.09

28/07/2009

In-satisfeita

Eu tenho fome dos dias não vividos ainda, e não é pouca. Dias que se prometem mais fartos, mais intensos, mais febris do que antes haviam sido outros. Dias ainda não vindos, não amanhecidos, não paridos pelo tempo – o implacável deus que se alinha em si mesmo e a nada ouve, a nenhum pedido, nenhum.
Eu tenho sede dos gostos não provados e não é pouca. Gostos que se anunciam novos, jamais provados. Gostos ainda não dados, não oferecidos, ainda não temperados pelo mago eremita, isolado do mundo, a preparar poções inebriantes...deus da magia que se nutre do que cria.
Tenho ânsia pelas palavras não ditas, as guardadas a 7 chaves dentro de baús invisíveis, as palavras mais esperadas, as mais queridas, as desesperadas por encontrarem pronúncia. E não são poucas. Palavras que podem ser artefatos, podem ser artimanhas, podem verter-se em disfarces ou em nudez, de repente. Espero, porque tenho essa ânsia. As preciso.
E tenho certeza de que não sei de nada, de que não existem certezas e de que toda vida é nada. Às vezes ela passa inteira sem que tenha sido dado um único grito de loucura, ou sem que tenha sido concedido um único silêncio devastador. Outras, a vida toda é tida num instante só, como se justificasse o resto, as sobras, as rebarbas insuficientes dos outros dias, todos. Sinto saudade de tudo e não é fácil. Do que havia, do que virá, da mesma forma. Às vezes as coisas não têm forma, simplesmente. E, no entanto, são.
Eu tenho amor por coisas demais, por pessoas demais e não sou tanta. Às vezes nem tudo cabe em mim e, ainda assim, eu sinto. Sinto fome, sinto sede, sinto ânsia, sinto fastio, sinto saudades. As coisas que sinto não acabam. As coisas que sei pertencem à anti-eternidade. Eu busco. Eu sonho. Eu sinto. E sigo indo como se tudo ainda fosse achar resposta ainda hoje. Meus olhos querem mais e assim, procuram. Sabem que há, não sabem onde. Às vezes olhar é tudo que resta – olhar a linha onde céu e mar se encontram e se separam, olhar a linha onde pele com pele se encontram e não se têm, nem se misturam. Eu tenho fome de sentir de tudo o todo. E não é pouca.
Necka Ayala – 28.07.09

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Mariana...impressionantemente bom!!!
Grata pela qualidade de tudo que leio aí!
Necka.

Prece de um dia quase igual a todos

Deus dos delicados, não me abandone nessa guerra insana. Minha máquina de ser beira a pane enquanto o veludo da voz de Billie lambe as paredes do lusco-fusco. Abençoe, senhor, tudo que dói em nós, indispensável. As tardes despenteadas em Grumari, as lágrimas do homem que me amou e nunca disse, o negro agonizante sob o sol narcísico de Ipanema, as crianças que tão cedo me deixaram farta de lágrimas e leite, o eco esquivo de Frederico, sinais de musgo. Abençoe as escarpas da minha vida enquanto desenterro estas palavras — o carmim destas palavras — com as lascas afiadas da dor. Sonho piscinas, atraída pelas labaredas. Preciso dormir bem dentro das suas asas enormes, pai.
(Ledusha B. A. Spinardi)
Roubado do lindo blog de Mariana, Suave Coisa. Thanks a lot, dear!

No Meu Lugar

Vez que outra, quando menos esperares, a magia te visitará de novo. Poderás estar andando pela rua, sem aviso prévio, sem intenção alguma, sem rumo talvez. E, de repente, alguma coisa aparecerá diante de teus olhos, desavisados, quase que esquecidos dela, da magia que viste e que ficou no meu lugar. Poderá ser um Arco-Íris no Céu. Quem sabe numa manhã qualquer, enquanto preparas algum alimento, uma canção no rádio venha a surpreender novamente teus ouvidos, quase esquecidos dela, da magia da música que ficou no meu lugar. E poderá ser qualquer uma das muitas que te fizeram pensar num outro mundo possível, imaginar uma outra realidade tangível, esperar por um futuro viável, contar com uma sorte certeira e merecida, pontual! Quando menos adivinhares, vez que outra nos dias que passam, a magia das coisas intensas te atingirá de novo. E poderá ser no meio de uma noite de frio, enquanto envolta em panos e lençóis solteiros, sem sono o bastante, enquanto tentas, mais uma vez, esquecer. Talvez a janela se abra ao sabor do vento, talvez caia uma chuva, talvez o calor da cama derreta teus sonhos. Mas ali, subitamente, poderá aparecer uma lembrança vaga de algum gesto único, ou te acontecer uma vontade irresistível de ser vista de novo pela ótica revolucionária da luz da nobreza. Tua pele em flor quererá se abrir um tanto mais nesse momento. Uma reprise daquelas sensações a derramarem-se pelo corpo, quase esquecido dela, da magia do desejo que ficou no meu lugar.
Pois, uma vez que tenhas visto, desde que tenhas sentido, provado, sorvido, experimentado o todo daquilo que quiseste e a vida e Deus te permitiram, não mais verás sentido em grades, limites, cadeados; não mais entenderás como possível a via de mão única, o sentimento irrecíproco, a resposta não dita, o gesto apaixonado que não vem. Uma vez que tenhas presenciado ao nascer das coisas somente imaginadas, não mais te será aceitável que a vida volte a ser tão pouco, tão menos do que pode – desde que imagines, ela vem! Desde que tenhas degustado o sabor irreversível da liberdade, o gosto doce de outra língua que deseja a tua, não mais poderás carregar o peso insustentável do fastio da vida, quando a vida se restringe tanto e a tal ponto, que a mais nada se ouse desejar.
Vez que outra estará contigo o que a vida, sementeira, plantou no teu terreno fértil, tão cedo dado, tão antes descrito ilimitado. Verás, de vez em quando alguma flor nascida, algum raio de sol deitado sobre a pétala, listras de 7 cores enfeitando o céu depois da chuva. E tudo isso te parecerá um recado do criador, um lembrete enviado via-mágica, para que jamais esqueças não de quem fui, mas de quem poderias ser, ainda podes, ainda!
Necka Ayala. 28.07.09

20/07/2009

Mundo Delirante

“Mundo delirante,
Sou teu habitante
O mais frágil vôo – asas, colibri...
Mundo delirante,
Sou teu prisioneiro,
Vero cativeiro, ai de mim...!”
(Mundo Delirante, Suely Costa)


Minhas mãos não possuem a noção do que podem levar consigo. Não medem distâncias, não sabem do tempo, não lembram quem foram, quantos afagos passaram por elas, quantos não chegaram a vingar. Elas querem ser apenas mãos, somente elas o que são. E nada as basta, por mais que toquem, que explorem, que acariciem, que dedilhem, que desenhem, que refaçam – nada basta a elas, também. É como se nunca saciassem a fome do tato.
Meus olhos não têm reservas quanto ao que querem enxergar. Não mensuram paisagem, não entendem o tamanho dos espaços, nem sabem dos cansaços quando as noites vêm. Eles querem decorar cada canto, explorar cada centímetro, se deixar entregues ao que os encanta e cega, a um mesmo tempo. E nunca se enfastiam, nunca se cansam da beleza que conferem em tudo o que vêem. É como se ver não fosse o bastante, por mais que se repita o ocaso, por mais que se levante a onda, por mais que brote flor.
Minha boca não profere todas as palavras que poderia, porque se ocupa de vasculhar a tudo que toca, a tudo que prova com tamanha entrega, com tanta atenção a cada gota. Ela desconhece a origem do que absorve, o tempo de plantio e de colheita, a maturidade dos lábios dos quais sorve o sumo. Ela não mede passados, beijos outros, promessas e juras desfeitas. Se atém ao que lhe justifica, ao que lhe dá sentido, ao que lhe sustenta o viço e o desvario.
Habito a esse corpo louco e é só isso. E ele desconhece planos, decisões tomadas, desenganos. A ele tem cabido apenas o consumir das horas, quando longe do que lhe dá abrigo. A ele tem bastado apenas o partilhar das coisas indizíveis, sem descrição, sem precedentes ou visões de futuro. Seu mundo é aquilo que lhe compete agora. Uma morada definitiva, decidida desde antes dele ser, sentir, querer. E ele ignora ritos, teorias, cabimentos. Ele apenas sente o que sente, vive o que sente, é o que sente.

Necka, 20.07.09

In-tensa

“A Flor enfeita o próprio cativeiro”. (Necka Ayala, 20.07.09)

É como se eu quisesse que assim não fosse, mas é. Quisera ter um coração mais raso, que não transbordasse tanto, nem inundasse teus olhos, para além dos meus. O que sai de mim é sempre demais, é sempre excessivo, sempre! Intensidade! Não sei se é isso, se a palavra é essa. É como dizer do mar que tenha demasiadas águas. É mar, não é veio, não é sanga, não pode ser pouco – e, ao mar, não se estanca. Presa numa habitação não escolhida, esse corpo, essa morada, vivo aqui, com todas as conseqüências disso, inevitáveis. E às vezes é como a flor que adorna o próprio jazigo, que nada pode fazer a não ser ela mesma quem é.
Quisera ter dosagem, poder sentir homeopaticamente, aos poucos, como é aos poucos que se constrói toda solidez. E é como folha liberta, solta ao sabor da tempestade, indo sem saber que destino lhe dará pouso, se é que terá um. Não consigo sentir menos, querer pouco, fazer nada. Não há aflição nem tanta velocidade, mas há a urgência e a pontualidade do que sinto no que sinto.
Quisera ter a leveza que vejo, dia após dia, sair dos teus gestos, cada vez mais. Essa retidão, esse comedimento, essa ausência de arroubos que teu coração vivencia. Quisera não gastar horas sendo consumida pelas coisas que sinto. As horas me consomem e eu nada sei sobre nada nessas horas. As coisas que sinto me cegam, se alastram, me confessam, me mostram. Elas simplesmente chegam assim, como chega a ti qualquer vontade, no meio do dia, qualquer saudade. Quisera poder adornar o que existe para que a beleza que vejo, envolvesse também aos teus olhos claros. Mas a beleza não cabe a mim. Só me foi dada a dádiva de contemplá-la, seja no céu da cidade, um céu sempre desigual, seja nas muitas cores dos fios do teu cabelo, cedo, de manhã...

Necka, 20.07.09

14/07/2009

In Real.

A casa está limpa. Tem cheiro disso no ar. Deixei uma fresta da cortina para que vente aqui dentro. O céu já está escurecendo agora, azulando mais a cada hora. Há incensos acesos e outros esperando sua chama. A música de sempre por todas as horas que precisarmos, no cd que fora feito para outro fim e acabou sendo nosso, finalmente. As velas, deixo que tu acendas. Meus olhos, que tu feches, meus lábios que tu abras. E a noite, que venha...que venha. Vem.

Necka. 14.07.09

UMA

Entre todas as vozes, só ouvi um sim. Entre todos os chamados que fez meu coração inquieto, entre todos os caminhos que meus passos deram, entre todos os desvios que meu destino quis, só ouvi um sim. Uma resposta dada, um convite aceito, uma porta aberta, só houve um sim. Minhas mãos jogaram ao vento centenas de sementes, quiseram cultivar mais de corações, de gentes, julgaram poder mais do que de fato eram e só obtiveram, ao fim de tudo, um sim. Entre todas as palavras, entre todos os sentidos, entre todas as mensagens, cartas, fotos, paisagens, entre todas as intenções veladas, gestos segredados, noites solitárias à deriva, só escutei um sim. Meus olhos buscaram despejar lampejos, minhas canções tentaram alvejar, arqueiras, mil peitos alheios, minhas mãos ofereceram a força que tinham para segurar a outras e só acharam um sim. Entre todas as vozes que vinham de todos os lados, meu lado sozinho, meus dedos sozinhos, dedilhando cordas, entoando cantos minha voz solteira, entre as noites vazias e as cenas que passavam sorrateiras, entre todo aquele silêncio de tudo que não chegava a tempo, entre todas as cruzes, só ouvi um sim.

Necka. 14.07.09

The Wind Calls My Name....

Esta cidade tem a forma de um avião. Moramos fora de uma das suas asas, beiramos a asa-sul. Onde havia o medo de voar, foi morar a coragem de ir ver o que se desenhava no céu, naquela tarde de 13 de novembro. Um primeiro vôo, uma cena inesquecível de pôr-de-sol do Sul. Desde então, aviões e asas têm sido meu prumo. Agora começo a percorrer vias, ruas, eixos, enquanto me centro e me fixo naquilo que buscava e nem sabia: o todo. Mas não era o Todo da Paixão somente. Era o Todo do exercício do que sou, do que merecia e do que finalmente estava aqui, no Planalto Central. Voar é lindo. Mas pousar nos braços do Novo é ainda melhor. E o novo é apenas aquilo que ainda não dominamos...que bom! Porque nenhuma mudança é para pior. Mudar é poder ser outra coisa, ser mais do éramos, ser melhores do que pretendíamos. É poder deixar de vez as palavras gastas, os gestos inócuos, as noites inúteis. É zerar e começar uma outra contagem, muitas vezes sem números, fora de ordem e melhor assim! As coisas que querem ser deixadas pra trás, o serão. As que querem a imobilidade, pararão de vez. Mas as que ousam, as que tentam, as que querem vingar, ah...essas serão abençoadas por Deus e lindas por natureza.
Pelo horário de Brasília, são 13h22. O céu está azul, como tem estado há muitos e muitos dias. E hoje é meu último dia da fase antiga. Graças a Anjos e Magos, Amigos e Parceiros, Cúmplices e Crentes, amanhã começa outro instante, nada vazio, mas com Asa de Avião!

Necka. 14.07.09