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27 de out. de 2008

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O que nos impede de ir?
Quando o que vivemos não dá mais, o que nos impede de ir? O que nos trava as pernas? O que nos mantém imóveis? O comodismo materialista, o conforto da casa, os objetos queridos que representam algo que não há mais? Adoro minha casa. Vim pra cá com roupas e 1 som. Nada mais. Cada garfo, prato, cada conquista foi uma. E todas especiais. As primeiras xícaras, dadas por ti, Gisele! Brancas com uma faixa amarela em volta. Tem uma aqui, agora, em cima da mesa enquanto chuto palavras com o dedinho. Coisas queridas porque eram nossas, da nossa história! Sim, vai doer torna-lás duas vezes três, quando foram seis. Mas isso é tão forte que nos impeça? O que nos impede de ir?
A acomodação com a qual nos casamos também, no abandono de nós em nome do outro? Das nossas mil desistências em função do amor? Lembras que eu dizia isso há 20 anos atrás? Que era errado tirar coisa por coisa de si e dar ao amor, porque ele cresceria, cresceria enquanto nos esvaziávamos e, se um dia ele findasse, não seríamos nada? É a acomodação que nos segura? Para não termos de começar de novo, trocar de emprego, de bairro, de rotina? Logo essa rotina que nos tirou o brilho, a força, a intensidade?
Como nos convencer disso? De que se estamos assim, infelizes, opacas, mudas, mãos atadas, guardando a 7 chaves segredos escondidos; se nem liberdade temos, se não podemos conversar ao telefone com amigos, se quando a chave da porta vira barulhenta, nosso astral desaba ao chão! Quantos argumentos são necessários para fazer um bom motivo? Um que baste, que abra a porta, que carregue as malas e vá!
Mas não é justamente porque a vida vinha morna que nos apaixonamos? Se ela segue morna, se assim tem sido há anos, se já vimos esse filme e sabemos que não vai haver outro final possível, se repetimos as mesmas escolhas sabendo que teríamos os mesmos resultados...por que? Por que a gente segue dentro daquilo que nos tira vida? E quando enxergamos a cara da vida, sem querer, pela janela, ela fascina, chama, imanta, atrai: mais irresistível do que nunca, parecendo mais linda ainda do que quando a vimos pela primeira vez! Olhamos a vida passar da nossa janela aberta e a simples menção dela, nos enche de calor, de tesão pelo dia! Sentimos, nos permitimos sentir essa paixão, pela vida, pelas muitas possibilidades, pelo prazer, pelo encantamento que a vida tem quando pulsa latejante nas veias! Viciamos na voz da vida quando ela canta! Desejamos a cara linda dela quando ela chega! Amamos ler as palavras da vida quando ela desenha poemas para os nossos olhos! Adoramos ser adoradas pela vida quando ela se declara! Mais ainda sermos Musa da vida quando ela compõe. Quase nem é mais possível ficar sem ela. Ela vem todos os dias, em aparições, sinais, coincidências. Mesmo que tenhamos saído um pouquinho da janela, a presença dela parece nos acompanhar, ou já estar sentada à mesa nos esperando quando descemos pro café. Pernas cruzadas, jeito sereno e sorrindo aberto pra nos encantar ainda mais. Se amamos à presença da vida perto de nós, ali, em tempo real, por que voltamos a fechar a janela, a evitar o café, a fechar os poemas? O que nos impede de ir? Por Deus, alguém responda!
Será o apego? O enraizamento de coisas que decidimos cedo, quando fizemos a nossa 1ª lista de “meu tipo”? Porque queria, aos 20, uma pessoa mais velha, sábia, com coisas a me mostrar: isso me causou um apego definitivo que não aceite a cara linda que a vida tem hoje, mais jovem? É apego que me impede? O apego ao gosto antigo? Mas, se essa imagem de agora me apaixonou, é porque mudei o gosto? Ou a cara da vida com essa nova cara, também tem uma beleza que apenas não conheço? É o medo de mudar que nos impede? De revermos conceitos, gostos, dicionários? Medo de mudarmos e ainda por cima sermos felizes? Medo de ser feliz? De dar certo e termos de reconhecer chavões como “ a vida é bela”, como corretos? Então é por ego? Para não termos de admitir que chavões são chavões por algum motivo e que nem toda a intelectualidade vingou? O que nos amarra?
E agora? Será possível desistir da vida depois de tê-la visto, ter beijado sua boca, ter sentido tudo, ter virado noites, ter perdido o senso, ter aceito e dado, ter amanhecido nova, ter ouvido sua voz cantando? Será re-carregável o peso que já havia e que já soltávamos vez em quando, para ter braços soltos dançando com a vida? Será suportável voltar para o lugar escuro, morno, conhecido, repetido: para o lado viúvo da cama? Até quando? Até que braços trêmulos de tanto carregar pesos nos convençam, quando quisermos abrir a janela e não der mais? E se então for tarde e a vida tiver mudado de roteiro, de rua, de destinatário!
Como ficar? Como ir?
O que nos impede de correr, o salto? O que nos pesa tanto ficar, a estrada? Será que é tudo uma simples questão de escolha: morrer de pressa ou de estagnação? Asfixiada na falta de vento ou queimada na fogueira do beijo? De Asa ou de Cadeado? Cruz ou Espada?
Eu acreditava que meus pés devessem despir-se, correr soltos e livres pela grama verde do jardim daquela casa. Devessem molhar-se na água-mais-que-azul da Pinheira e de novo secarem-se ao sol de Santa. Devessem servir para os passos na direção da vida, cedo da noite, logo que o sol de pusesse, depois andassem sorrateiros indo embora, de manhã, antes da vida acordar. Achava que o vôo para dentro do abismo seria lindo com dois pares de asas, dois pares de olhos quase da mesma cor. Supunha que o canto cantado por Anjos que abençoaram o instante, nos levaria adiante, paixão adentro. E creio. Crerei eternamente. Cheguei a despir os saltos. Cheguei a abrir as asas. Parei à beira do abismo e contemplei a vida, linda dali. Dobrei as pernas, estiquei todas as penas à sua máxima altura. Respirei fundo, fechei os olhos, pensei: é agora! E...........................................................

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Leio.