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21 de nov. de 2008

Antônimo

Será um recém-nascido ou já estava ali?
Veio somente agora ou já estava ali?
E se for só um passageiro de vôo indefinido, apenas, passageiro, indefinitivo? E se for uma aparição, um susto, uma surpresa que chocou-se com a rotina previsível do dia e ficou, depois, por mais um tempo ainda estremecendo dentro as coisas desconhecidas? Vieram à tona agora, depois do abalo ou já estavam ali?
E se não for nada, for somente vontade de sentir o que não se sente mais, não se pôde sentir antes, não se provara noutro tempo quando fora permitido?
E se isso tudo for saudade daquilo que não foi vivido? Saudade de um futuro passional interrompido pela razão necessária? A razão já estava ali – nasce cedo como couraça, como escudo a ser usado logo, assim que se sentir o primeiro medo.
E se for simplesmente o inverso da decepção? Como se tivesse imaginado um amarelo e fosse enfim de um laranja intenso como o céu de Porto Alegre, quando do pôr-de-sol à beira do Guaíba? Apenas isso. O contrário de uma decepção. Um sentimento antônimo.
E se for tão menos que seja uma nostalgia, uma recordação de si mesmo sentindo algo que não se batiza, porque não vingará nem terá sido, sem crescimento – sem futuro do pretérito.
E se ao fim de tudo for brega, for nuvem passageira que nem vale o risco, não vale a confissão, não paga a pena? Dar tempo ao vento que ele vai passar...?
Mas se for Êxtase, se for depois da vírgula, se tiver escalado os muros, tiver subido à superfície, será o momento de guardar silêncio, fazer reverência, sentir a divindade da graça concedida por Deus. Aquele que nos permite sentir,para que se estenda uma capacidade dentro, qualquer, que se agiganta e ensina. Se for isso será o instante em que, raras vezes vida afora, se abre mão do barco e se fica para sempre na contemplação do próprio mar. É graça, de qualquer modo. Sentir é sempre uma graça, um milagre do abstrato gerando reações no concreto do que somos; sentir é bênção, é agrado de Deus para conosco, feitos filhos, tornados partes. E nem todos os filhos de Deus poderão sentir tanto, tanta diversidade de cores nas cores do céu. Nem todos os olhos dos filhos de Deus derramarão tantas lágrimas diversas por sentimentos diversos como os meus. Nem todos os humanos imperfeitos serão contemplados por tantas sensações adversas perfeitas como as que vêm agora e nunca sei, se são do agora ou já estavam ali.
21.11.08 – NA.

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