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21 de nov. de 2008

A Outra Mão.

Sim, tens razão. São pinceladas, como aquelas, dez anos atrás nos cartões, nas caixas de mdf que fazíamos na mesa da Tê. Pinceladas dadas nas palavras, passando por todo mundo, sendo, na verdade, sobre ninguém. Sobre mim. Sobre tudo que senti, sinto, irei ainda me permitir sentir. São acordes dedilhados e palavras, improvisados, amadores. Tocando assuntos muitos, não dizendo nada que baste, que sirva, que caiba totalmente a ninguém. Cabem em mim. E talvez caiba a mim tocar neles, mastigá-los, digeri-los, tê-los vivos, soando soltos noite adentro, varados, virados pelos seus avessos, numa composição em parceria com o resto de lua que sobreviveu às tempestades e às distâncias. Notas que estão ali, fora de ordem como estão os sentimentos dentro de nós. Alinhavados, tecidos feito colchas de retalhos, recortes de tempo, instantes presentes e recordações. Sem nós. Talvez caiba a mim podê-los, justamente porque não tenho compromisso com nenhuma certeza. Não sou, não me considero assim, como diz na letra: “poema de amador que não faz de mim, dono e senhor do que sai assim, e não é à toa!”. Sai, apenas sai. Porque não são à toa as coisas que sinto. Tenho carinho extremado por elas, paixão desmedida por algumas e amor-são por duas. Sai, porque aquilo que está dentro, vivo, ainda busca sair, ser o que veio ser: palavra não dita, palavra imperfeita. Como rio que sempre acha caminho? Não, rio que não acha: o faz. O cria. O improvisa.
É assim porque assim o quero? Não: é assim porque Deus, no momento preciso, na hora pontual em que me competia vir, 17h em ponto, determinou que eu teria tudo a sentir. Mas estaria condenada às esperas e o que sentisse não vingaria, não seria fato, não contaria história, não geraria filhos mas, canções, poemas, troços. Deus brincalhão resolveu que sempre seria dessa forma: por alguém que já amasse alguém, por alguém que sentisse mais medo que vontade, ou por quem amasse mais a si mesmo e, portanto, só fizesse amar ao amor que sinto. Ele me permitiu sentir tudo, de todos os modos, como todos os gêneros que toco, e todos os estilos com que escrevo. Tudo plural, múltiplo e simultâneo. Me deu um coração tão perfeitamente defeituoso, que nele cabe mais sempre mais sempre mais. E não pára nunca! Teimoso. Insistente. Forte! Porém, sempre sozinho, como reza a maldição e a bênção que recai sobre todo artista. Nem sei se sou uma. Dizem. E não discuto. Crio porque preciso, porque amo mais às palavras do que a mim mesma, como prefiro tocar a comer. E elas, palavras e notas, embora as ame mais que a tudo, também não voltam, não vingam, não justificam a mim, não são minhas, nunca! Não fazem história comigo, são de quem as lê, as canta, as ouve no chão de suas salas tendo taças de vinho nas mãos.
Te vês ali, dentro, porque passo pelo que fomos. Pelo que nos ligou esse tempo todo. Que nunca teve fim. Agora sabes. Como agora também sabes que de nada adianta uma mão só. Ela não toca acorde sozinha. Ela não toca sozinha por mais inebriada que esteja. Agora sabes quanto é preciso estar ali. E o quanto é bom. Como é bom também 1 único passo adiante que dissipe o medo e transforme a tremedeira do medo, em contemplação de nuvem, janela e asa de avião. Porque creio, nossa, como eu creio! Mais do que nunca, creio nos desígnios de Deus, por mais que Ele siga permitindo as esperas que eu odeio. Eu entendo. Deus é como a outra mão. Para que Ele exista, é preciso que se creia Nele. Deus não toca sozinho.
Estás. És. Serás para sempre. E quanto mais te vejo os olhos agora mais te amo. Tu sempre serás esta. Que me fez listar as coisas pelas quais eu quereria esperar. Quanto mais lembro disso, mais te amo. Mais respeito tua alma infinitamente grande, teu coração infinitamente vasto, teu silêncio infinitamente revelador. É que sou humana. Agora sabes. E vês. Desmistificada, possível, nua, perto – no mesmo chão em que habitamos todos nós, humanos. Com a cabeça no mundo da Lua. Mas Aki. Onde nenhuma palavra que eu caçe, nenhuma canção que eu componha jamais poderá descrever o que tu significas, o que tu és: não páras de ser.
Espero que sempre encontres a parte dessa tela, onde a pincelada passou por ti. Que sempre sejas apaixonada pelo som das cordas e o pelo silêncio das palavras. Que sigas ligada como eu, não ao passado, mas ao futuro que se aproxima e promete nos trazer aquilo que nosso merecimento já assegura. Sem esperas. Mas, se possível viajando entre o Mundo da Lua e a Imensidão do Sol.

Sandra. 21.11.08

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