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25 de nov. de 2008

Área de Instabilidade

A viagem de vinda não foi tão leve. Coisa de piloto. Balançou, tremeu muito, fechou meu ouvido mais ainda - ele segue surdo. O que me preocupa, já que toco de ouvido. (não, isso não foi um trocadilho n.a) Porém, havia um pôr-de-sol no Sul, lindo. Pude ver Porto de outro ângulo nunca visto. Minha terra, esta cidade. Nasci aqui. E gosto muito das ruas, da cor, do cheiro de árvore.
Em casa é que as coisas realmente tremeram. O que já tinha dito antes, como se fosse uma área de instabilidade. E é. Ainda é. Mas quando entrei de volta, sentindo a amplitude da casa, revendo os espaços, minhas coisas, objetos familiares, entrei com algo a mais. Uma certeza a mais. De que ser livre depende única e exclusivamente da gente. Livre 100% nunca se é. Claro, sei disso. Não existe liberdade inteira, toda. Sempre se dará satisfação a alguém, inclusive a nós mesmos. Sempre responderemos pelas escolhas. Falo da liberdade de escolha. Entrei ciente de que a porta abre. Não sinto prisão. Sinto abrigo ainda. Um, do qual, se eu quiser, me despeço amanhã.
Faz calor em Porto. Muito! Daqueles que eu não gosto. O prédio está em obras. Agora, a casa está quieta, graças a Deus. Observo a tudo. Aos poucos entendo o que cada coisa veio me dizer. Há coisas que já não sinto mais. Coisas que eu sentia, foram saindo de mim, me deixando. Foram sendo apagadas dia após dia, no silêncio delas, na inação. As coisas que sinto mudaram. Eu mudei. Tudo mudou. Não há mais uma web-cam sobre a mesa. Nem microfone. Não há mais um quartzo-rosa ali, nem a foto sobre a qual ele ficava. Não há mais uma corrente enfeitando meu pescoço nem a medalha de São Judas Tadeu que eu amava. Coisas “roubadas”. Sinto muito. Isso me dói. Porque sou daquelas pessoas apegadas às coisas queridas. Guardo, gravo, salvo, lembro. Trouxe um guardanapo do avião. Papeizinhos também, onde as gurias escreveram os dias da semana e sortearam 1 que seria o do meu retorno. Amadas! Trouxe adesivos colados no case do violão – “frágil”. Violão que sumiu no aeroporto, me dando um susto! Eu não sabia que os frágeis vinham bem depois. Trouxe o sorriso lindo da Fê gravado dentro. Os olhos da Patrícia enquanto tocava. A emoção da Roberta. O abraço do Flávio. A esperança da Flavinha no futuro e o beijo dela na minha medalha que se foi. O último beijo dado na prata da qual era feita a cara de Judas. Não sei o que deixei lá. O que ficou de mim. Sei o que trouxe. E foi muito. Sei o que sou. Sei o que sinto agora. E o que sinto mudou.
Não será noite de tocar apenas. Será de recomeço. Um novo. De doação. De puxar de dentro de mim as forças que não tenho, mas virão! Me sinto triste, profundamente triste. Porque vejo muito a ser feito por alguém que amei, amo e vou amar sempre. Alguém que perdeu a capacidade de crer, que é vital! Que não viu a asa nem o avião. Nem o céu azul de Brasília nem o rosado de Porto. Que não passeou rindo, não comeu junto, não cantou a segunda voz. E eu sinto muito, muito mesmo, juro que sim. Sinto pelas coisas que não tem, que foram roubadas dela antes, muito antes, pelos descaminhos e pelas escolhas mal-feitas. Pelos resultados. Sinto como se tivesse sido eu. Sinto muito pelas coisas que não sinto mais. Queria sentir, juro que queria. Poder reaver cada uma, colocar no lugar certo desta vez. Mas preciso ser fiel a mim. E o que sinto mudou. Era paixão, agora, é compaixão. Toda ela, toda dela. E que Judas, ainda que sem medalha, me permita estender essa compaixão por todo o tempo que for preciso. Nem 1 segundo a menos. Hora Dele provar que crê em mim.
N.A, 25.11.2008.

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