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29 de dez. de 2008

De repente

E de repente é isso. Não mais que de repente, não menos que isso. Essa falta de tempo, de sossego, de liberdade. Essa falta de posição, de lado na cama que não fira. De repente, sem que eu visse, estava tudo virado, transformado, outro, transtornado. Tudo mais. A casa, outros cheiros dentro dela que esquecera. Enfeites que não uso, não penduro. Vermelhos e verdes. Ficarão até dia 06. Dia de Reis. E isso ficará assim até o final de fevereiro. Olho pra frente e não há como sentir alívio. Tem cheiro de tinta no corredor. Dois celulares andam comigo o tempo todo. Há projetos e viagens, lugares que nunca fui e estão agendados. Estarei neles (?) e nem sei como fui parar dentro disso. Foi muito de repente. Eu estava agora mesmo tecendo calmamente uma colcha qualquer de não-retalhos. De pedaços criados em tons de verde e de azul. Estava agora mesmo contando outra história. Fechei os olhos num segundo só e, sem que sentisse nada, acordei noutra cena. E esta é toda vermelha. Marte, guerra, arpões e lampejos. Quem são essas? De onde vieram? Que caminhos dei? Eu os fiz? De quem é esse corpo todo decorado de tons na pele que nem combinam?! Por que dói? Por que volta o que quero que esteja ali na frente? Por que resta algo que pretendo que brote de outro lado, ali, logo adiante? Que são esses sentimentos todos coexistindo num mesmo coração que agora não dança, mas sobressalta a cada susto, a cada gesto desesperado que me acerta a cara? Por que resiste dentro de mim uma compaixão ainda? Que perdoa mais, por mais um dia, por mais um ano que daqui a dias se completa! Dia 12. Dia de rainhas, de proprietárias de um castelo desabado sobre si mesmo. Escombros. Eu e ele. A mão direita faltando pedaços. Não se entende mais com seus brinquedos de teclas e de cordas. Doem. A perna direita falseando o passo tão ensaiado num rumo novo qualquer. Que dia é esse sem sossego e cheio ainda de uma fé absurda num Deus quase surdo ao meu chamado? E onde estás agora? Assistindo a um pôr-de-sol beirando um mar enquanto chovo? Onde estás agora? Onde?
Necka Ayala. 29.12.2008

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