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19 de dez. de 2008

Duo

Um olho teu diz “eu te amo”. O outro grita “eu te quero”. Dois olhos sendo em paralelo. Emparelhados na tua cara. Cada um com uma imagem sempre estampada na tela. Duas fotografias. Dois signos alinhavados, duas cores na aquarela. Teus olhos não escondem, não mentem, não desfazem o que viram, o que querem. Teu olho esquerdo é esposo. Teu olho direito é amante. Um se enternece de afeto, outro brilha de desejo e os dois vão, colados ali, na cor de fundo. Dois olhos vendo em paralelo. Dos elos. Nenhum te basta. Cada um quer uma coisa, são dois futuros e os teus olhos, vão dançando em cima do muro. Numa corda-bamba cada vez mais fina e casta. Teus olhos têm à frente o todo da estrada e, detrás deles, a história escrita, começada lá atrás, interminada. Eles tonteiam enquanto miram e passeiam, observam, escaneiam os dois lados de si mesmos. Andam cansados. Muito, de rastrear uma fresta, cada vez mais estreita, que dê noutro momento, noutra cena, noutra paisagem, que tanto pode ser aliança, como liberdade. Teu coração atrelado, se segurando no amor, se assegurando que tenhas, mais, sempre mais, sempre! Teu coração encantado, se permitindo querer o que não podes, não podes ter. Teu corpo dormido ao relento, anda seguindo passos, acompanhando direções, amor-tecido. E volta e se depara e resiste, tenta, insiste, mas não esquece, não sai dele aquela presença, aquela loucura, aquela insônia. Teu corpo... de paixão-e noites-de-chuva enquanto sonhas, queres encontros, surpresas, um milagre qualquer da vida que te leve àquela frente. Paixão-vencida.
Uma mão tua, planta e cultiva uma esperança a cada dia, de novo. A outra tenta em vão conter e represar as águas que não desistem, nunca se vão. Andam cansadas, as duas. Tateando o espaço que virá em breve, às cegas, sem saber se vão tocar um astro ou uma estrela. Uma mão tua algemada à árvore, a outra beirando o abismo.
Um lado teu ainda acredita e se convence, travando batalhas quixotescas, empunhando armas imaginárias que pesam aos teus braços, confiantes. O outro lado teu se despe todo, se desarma e descansa à luz do sol, toda ela que ainda te alcança, te seqüestrando das lutas, te convidando à dança.
Um lábio pertence à taça. O outro, te abre espaço para o vinho. O céu da tua boca é o teto firme. E a tua língua se oferece à gota d’água-doce.
Tudo em ti tem vindo em pares. Tens dois amores definitivos. O que faz ímpares, os teus temores. És, ao mesmo tempo tu e mais dois seres, indo contigo onde quer que vás, um caminha ao teu lado na rua, outro corre por dentro de ti pelas veias. Tens estado cansada e, ao mesmo tempo, decidida. Amor-daçada na tua ida. Quando sentes que é quase hora de roubar do tempo algum descanso, deitar um pouco sobre algum silêncio e alguma solidão, a rua te chama, o amor te levanta dali – vais, num fôlego tirado do fundo, partilhar daquela vida que não é a tua, mas ainda a queres, assim mesmo. Mas chega a outra hora, uma fora do tempo, a vigésima quinta; então, por alguns segundos suspiras à menção do corpo relaxado, das pernas pesadas e soltas; lembras...te deixas sentir por um instante ainda o quase insuportável desejo que sentias, deixavas, curtias, vazavas. E era lindo. Tu és. A mais linda do mundo, do meu, ainda, és! Linda e louca. Mais uma que a outra. E, se observares o espelho, atentamente, verás que teu olho esquerdo é o maior. O amor, maior. Amor-primeiro, lindo. E o direito ainda tem luz!, ...acesa. Um foco, um facho, um raio colorido de arco-íris. Uma lembrança vaga, ficando cada vez mais longe no tempo, lembrança que te invade, lembrança que te afaga. Paixão-Certeira, louca...uma Arqueira mirando a lua pela seta alvejada, assim, perdida.


N.A. 19.12.08. 13h24.

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