Eu sei como veio. Mas não me basta saber. Queria ter prestado atenção. Ter atentado a cada cena, a cada dia, a cada hora dessa vinda. Ter percebido que estava vindo. Não percebi. Deixei que pairasse a dúvida, que sobrevoasse meu espaço a incerteza do que seria aquilo. Permiti que passassem dias, que visse sinais através de um par de olhos já cansados e incertos de si mesmos. Meus olhos nunca têm certeza. Não sei se duvidam do que vêem ou da capacidade que têm de enxergar. Nos primeiros dias era assim, estava ali. Só que eu não queria achar nada. Não queria achar que estava achando. Esperava confirmação. Lia aquelas palavras postas ali, parecendo que não se destinavam a mim. As lia e respeitava o destino outro que julgava que tivessem. As seguia apenas, falando de outra coisa, mais antiga ainda recente. Misturava o que queria dizer agora com o que quisera ter dito antes a outrem. E deixava, assim, que as minhas palavras também imprimissem incertezas aos olhos de quem lesse. Como se meu olhar fosse capaz de contaminar outros e minhas palavras fossem todas duais. Mas era eu quem não queria enxergar nem ler. Era eu quem vinha incerta, recém redescoberta pelo lado avesso e desfeita de mim mesma. Era lágrima demais dentro deles, não obscuridade. Lia com olhos transbordando sal ainda, causado ainda pelo que ainda estava ali. Assim, não havia nitidez. Havia algo se dissipando e algo se formando. A um mesmo tempo. Um passado jovem se indo alinhavado a um futuro sendo fecundo. Estava no meio, no centro, no gerúndio. Indo. E havia decidido que isso eu não sentiria mais. Não queria, não sei se quero, se posso, se não está cedo demais. Sei que quando vejo as tuas mãos, teu anel no último dedo da mão esquerda, uma nitidez qualquer me assombra e me arrebata; me tira de onde estou e me imanta. Me faz ficar olhando...querendo ver, querendo ver mais, mais nítido, mais de perto como um astronauta lírico querendo ir, mais perto, até tocar a superfície de um astro com o qual não sabia, mas sempre sonhara.
Necka Ayala – 30.12.2008. 21h04.
Necka Ayala – 30.12.2008. 21h04.
(“Astronauta Lírico” - Vitor Ramil, Satolep Sambatown - cito)
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