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9 de dez. de 2008

O Céu, a Lua e a Estrela.

Era uma vez uma bola branca redondinha. Muito clara, bem limpinha, que sonhava em ser uma lua. Queria ser vista, adorada, inspirar a poetas e tornar as musas, namoradas. Ficava olhando o céu, querendo que ele a transformasse em lua posta, toda cheia, toda à mostra. Mas o céu, nesse planeta, era um zonzo. Meio atrapalhado, ora presente, ora distante, um tonto. Vinha, de fato, vez em quando, e ouvia aos pedidos da bola. Dizem que até tentou torná-la lua, mas acabou se esquecendo de tanto que mudava de rumo, assim, andando a esmo. Era céu claro aqui, céu escuro lá, do outro lado, quando ia. Bastava mover e já virava o que era noite, em dia. Quando virado, nem ouvia mais aos chamados da bola branca que o adorava e a ele, tinha certeza que pertencia. Ela ficava triste quando esquecida. Mas logo ele virava de novo e a via.
Um dia, a bola estava cansada mesmo. E entendeu que para tornar-se uma lua, precisava brilhar com “intensidade”. Algo que tivesse tanta, mas tanta magia, que pudesse mandá-la direto ao céu, fixando-a no alto, bem onde queria.
Nisso passava uma estrela sem céu, uma poetisa. Nem estava prestando atenção à terra, mas tinha ouvido bom e ouvia! Olhou pra lá e ouviu a bola chamando pelo que pretendia: intensidade...intensidade...! Estrela solidária e de coração grande, parou e perguntou: o que queres, me conta?! E a bola contou. A estrela pensou o que poderia fazer; enquanto pensava, percebeu a beleza da bola branca. Bem redonda, bem clarinha, uma beleza de bola, um desperdício estar sozinha. Então a bola perguntou: você pode me dar o que desejo, estrela minha? Então terá de se atirar à terra, abismo abaixo e vir aqui tornar-me lua! E a estrela, ainda que hesitasse, o fez. Jogou-se lá de cima. Chegou a pensar se isso daria certo...mas movida por um encantamento puro e verdadeiro, o fez. Mas o fez com toda franqueza. Disse à bola: olha, quem sabe se eu te tornasse Lua para sempre, na poesia? Porque o céu pode desabar um dia, mas a arte fica! Os astros mudam de lugar e passam, ora aqui, ora lá do outro lado do mundo. Os poemas ficam, como as canções. Se fores Lua na poesia, jamais serás esquecida! Todos repetirão teu nome, cantarão tua beleza e ela será sempre vista, eternamente, todo santo dia. A bola achou a idéia linda! Amou! Ficou toda envaidecida, imaginando...imaginando...! Aquilo sim, seria intenso! E disse sim! Eu quero ser a Lua da poesia. E a estrela o fez.
Foram meses de alegria. A estrela faceira porque só falava na Lua, em todo poema, em toda canção que fazia. E a Lua Branca mais ainda, sendo vista, adorada, invejada, a mais querida! Porém, volta e meia ela olhava pro céu. Não passava, no fundo não passava, a vontade de ser dele, de estar com ele e de querer que ele quisesse a ela como Lua. Quieta, em silêncio para não ferir a estrela, ela penssava: se ele me vir sendo assim tão adorada, talvez me queira lá com ele, talvez me leve para ser de fato a Lua que eu queria.
Mas a estrela ouvia até o silêncio. E compreendia. Então propôs a ela: queres tentar o céu mais uma vez? Podes ir! Não me adianta ficares se fores infeliz. E a bola tentou. Ficou parada enquanto a estrela preparava o chute. A estrela se encheu de fôlego, prendeu a respiração e usou a intensidade que tinha: chutou. A bola subiu, subiu e ficou um tempo lá em cima. A poetisa nem quis olhar. Saiu dali virando estrelinha, pra não sofrer tanto seu coração de artista.
A bola, rodando, viu que seria Lua se conseguisse ficar no ar; mas sentiu falta do que era na poesia. Havia uma tristeza qualquer que ela não entendia, mas sentia. Estava lá, rodando pelo céu, onde tanto desejava estar. O céu mudava e ela firme! Seguia indo para não parar nem cair. Lá de cima, continuava a olhar a estrela poetisa, para ver se ainda estava nela, se ela ainda a sentia. Tentou falar com ela algumas vezes, porque tinha um certo afeto pela estrela que tanto a descrevera, a adorara, tanto bem queria. Só que a Bola Branca sabia que gostava era do gostar da estrela por ela. Voltava a olhar, mas não a via. Só tinha olhos pro céu, não adiantava. Tentava deixar a estrela e também não conseguia. Ser adorada, depois que acontece, é difícil de perder.
A estrela seguiu embaixo, onde havia se atirado. Seguiu fazendo poemas, descobrindo outros pedidos, coisas que queriam também ser vistas. E entendeu que a ‘Lua’ só foi dela por um tempo. Enquanto o céu não via. Agora, ele estava de volta, sem andanças e a tinha.
A Lua Branca de Bola, a Bola Branca de Lua, tanto fez que continua dividida entre o céu e a poesia. Não pára de rodar - teme cair do céu, que ela ainda deseja. Não pára de olhar a estrela que tanto a queria. Tenta apaixonar ao céu, e não consegue soltar a paixão da estrela por ela.
Era uma vez que continua sendo, bem assim. O ceú segue sendo. A Bola tentando ser Lua, e sendo o que é na poesia. A estrela que nunca teve céu, segue não tendo. E segue sendo somente uma poetisa. Descobriu que a função dela é mesmo essa, seguir indo, sempre mais além, até que uma onda a leve e ela vire estrela-do-mar, ou qualquer coisa assim. Quem sabe encontre quem a queira de verdade! Às vezes é ela quem se deita um pouquinho no vento e repete a si mesma: intensidade...intensidade...e um poema sempre se faz nesse momento.

09.12.08 – Necka Ayala, 10h50

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