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11 de dez. de 2008

Olinda

Era uma terça-feira. Eu estava no trabalho, nos Correios, naquela época. Já morava sozinha. Mas ligava pra ela sempre, de manhã, ao meio-dia e ao fim da tarde. Minha Olinda, amada. Tinha um amor por ela sobre-humano. De gratidão, de devoção, de paixão pela cara amada dela, cheirando a pó compacto. Pelas mãos dela. Lindas mãos, de gente vivida, com veias salientes, grossas, de gente que luta, que traz esculpida em si, no corpo, toda a vida de luta que viveu. Mãos que me pousavam sobre o rosto quando eu acordava de pesadelos recorrentes. Eram dois, os que me apavoravam. Sempre aqueles dois. Ela vinha, trazia um copo de água com açúcar, pousava as mãos sobre meu rosto e deixava ali, aquela sensação de abrigo, até que eu dormisse de novo, cantando Boi da Cara Preta.
Naquela terça, eu liguei no fim da tarde, antes de ir pra minha casa. Ela tinha deixado quebrar uma chave. Chamara o chaveiro. Mas era recente a troca de moeda, mais uma vez. E ela não se entendia direito com tantas mudanças. Falando comigo, disse: filha, a nota de cinco é essa que tem estampada a cara de um cara feio, toda azul? E eu disse: sim, mãe, essa mesmo! Foi a última coisa que eu disse a ela. Naquela terça ela teve o primeiro de vários derrames. Foram 6 anos entre aquela terça e outra que a levou definitivamente. Nunca mais a ouvi falando, nem movendo as mãos. Só via nos olhos dela a dor de estar presa à vida. Vida que não era mais vida. Ela que rezava o terço todo dia, jogou-o longe uma vez, contra a parede, com ira, com revolta – aquela que se sente quando algo que amávamos, nos abandona. Juntei. Deixei comigo. Eu precisava da fé. Entrava para vê-la fingindo riso, cantava pra ela dormir, e juro, nossa, eu juro por Deus que a ouvia cantar comigo Boi da Cara Preta. Precisava da fé pra levantar da calçada da rua quando saía e desabava ali mesmo.
Pressa...sempre a tive, ensinada por ela, de alguma forma. Pressa que me fez optar toda vez que pude, por amadurecer rápido, por saber logo. Ainda assim, isso me escapou. Eu era muito mais jovem. Saber que às vezes, uma palavra dita, evita que o outro parta sem saber. Uma palavra certa, revelada em tempo, detém no outro a vontade da desistência. Às vezes tem alguém por um fio! E a gente guarda dentro, aquilo que o faria voltar à tona, querer de novo, ficar mais tempo, sentir-se bem. Foi com a Minha Olinda que aprendi, que soube que poderia ter dito outra coisa, em vez de “essa mesmo”. Podia ter dito “mãe, eu te amo”. Talvez seja por isso que eu saiba tão bem e tenha, ainda comigo, todas as coisas que ela me deu: princípios, fibra, força interior, luta, garra, fé em Deus, iniciativa, caráter. Como tenho agora as mãos cobertas de veias salientes e uma pressa sobre-humana.

(Olinda Godinho Ayala: 28.10.1914 – 02.04.1992)

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