Diante da visão do céu, estando nele, pela janela de um avião, tudo mais parece ser nada. Lá de cima, de onde se vê riscos no chão que são rios, pedaços de azul que são mares, relevos verdes que são florestas inteiras, tudo mais parece ser nada. Diante da morte também. Tudo que faça triste, tudo que cause dano, tudo que traga preocupação, tudo que remeta à dor, parece ser nada. Diante do céu e diante da morte, tudo mais se apequena. Há dias atrás estive dentro de outro avião. E o que me afligia, o que eu deixava para trás, lamentando ainda, parecia pequeno na vastidão daquele céu da noite, quando parece que tudo aquilo é um véu azul muito escuro a encobrir a terra toda. Olhava as nuvens de muito perto, passando dentro de algumas. Havia turbulência. Via trovões e clarões se abriam ali ao lado. E tudo que eu sentia parecia tão ínfimo, que não mais merecia tanta atenção. Porém chega a hora da aterrissagem. Quando se pisa novamente a realidade como é, de onde aquilo que vemos volta a parecer grande de repente. Quando desci, voltei a ver o cimento da rua onde pisava. A concretude dela. E meus passos voltaram a ter gravidade, peso, dimensão. Passos rumo a um futuro ainda incerto, sem CEP. Logo comecei a reconhecer o caminho já visto antes e o céu de Brasília visto do chão. Aqui, para se ver o céu não é preciso levantar a cabeça – basta olhar para frente, e isso, pra mim, quer dizer muito! A tal magia da qual falo sempre. As metáforas que vemos diante dos olhos, não são coisas da Língua Portuguesa, são sinais. E deve-se atenção a eles. Pisando o solo de novo, havia coisas a definir, a revelar e a vivenciar. Vim, o faço a cada dia. Só que hoje, diante da morte de pessoas que conheci, abracei, tive perto, tudo isso volta a parecer pequeno. Diante do céu e diante da morte, tudo parece nada. Os sustos dos últimos dias, as tristezas derramadas das últimas palavras, as saudades de casa e dos que deixei e Porto Alegre e São Paulo, tudo agora dói diferente, dói urgente, como se, de uma hora para outra, lembrássemos quanto a vida é frágil e delicada, podendo findar ainda hoje. É por isso que vivo somente o dia de hoje. Com tudo que ele traga, seja, signifique. Por isso repito sempre, vive! Vive o dia de hoje! Diz tudo que há pra dizer, sente tudo que há pra sentir, prova tudo que haja para provar, não adia, não esquece, não solta aquilo que te for vital para viver. Vive! Esta noite era para ter outro teor. Tem este, de despedida definitiva – Rodrigo, Renan...estejam no céu – de onde até nossa tristeza aqui embaixo, vai parecer a vocês, quase nada.
Necka. 12.02.09
Necka. 12.02.09
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