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15 de abr. de 2009

Desordem

Nem tudo vem ordenado, na seqüência lógica que acostumamos a esperar, na cronologia prevista por nossos conceitos limítrofes. Às vezes as coisas vêm de modo inusitado, fora de ordem, por obra do destino - talvez para que aprendamos a lidar com isso, com o que nos faz aprendizes eternos, para nos lembrar que nada sabemos, do quanto não somos ainda tanto quanto gostaríamos.
Às vezes o amor chega antes. E se estabelece ali, como quem não quer nada. Vai percorrendo seus veios, arando o solo por debaixo dos pés, para um futuro que só ele sabe que virá. Vai deixando sementes de outros sentimentos e sentidos pra depois assistir, conosco, sentado ao nosso lado, cada broto – seu surgimento. Às vezes o amor vem primeiro como anfitrião de outras sensações, que virão visitar nossos recantos mais ocultos. Ele arruma a casa, prepara o alimento, põe para gelar o vinho, enfeita com flores a mesa, abre as janelas para ventilar os cômodos que serão usados depois. E observa. Fica como sentinela contemplando o coração afoito, muitas vezes gasto pelas esperas e pelas noites vazias. Mede. O amor sabe que corações são peregrinos e andam, vasculham estradas, tomam atalhos e passam errantes por onde não pretendiam ir. Mas vão, sem conseguir voltar às vezes, sem achar o caminho correto que lhes daria conforto de novo. O amor a tudo vê. E espera. Às vezes o amor chega para ser protetor, como anjo da guarda, que pretende defender um coração ferido de mais machucaduras. E o faz. Pensa consigo em levar embora toda dor guardada, em tratar daquilo como curandeiro. Nem sempre pode, mas gostaria, porque o amor é assim e tem mãos de afeto.
Às vezes depois dele vem um laço ainda mais altruísta, de amizade legítima, de querer bem. E isso também tem a ver com amor. Porque não se vê a si mesmo, não visa a obter nada. Querer bem apenas, como quem quer que o mundo dê certo, como quem se engrandece ao nascimento da flor. Querer ver sorrisos estampados e constantes nas bocas dos outros, querer ver danças se anunciando sobre as pernas e abraços sendo dados, cada vez mais longos. Querer o aconchego e a partilha, a solidez dos ouvidos atentos às palavras ditas, a resposta terna da cumplicidade. E cada coisa dessas tem a ver com amor. É como se fosse plantio dele, sua colheita – uma vez feita, não há mais volta, porque a amizade é como se dividíssemos em partes o que somos, e andássemos vida afora lado a lado com elas.
Às vezes, mesmo fora de ordem, ainda chega uma paixão. E nem sempre sua essência é de puro desejo, de pura matéria. Pode vir vestida da alegria do encontro, da beleza dele, em ser o que é apenas. De olhos que se fitam e nada dizem, sorriem. De mãos que se tocam e se acham em pleno descanso, apenas, porque encontraram outras. É como se, depois de tanto segurarem o nada, pudessem encontrar-se a si mesmas no reconhecimento do calor de outras, que também andavam sós. É como redenção. Pele que não acha sentido em ser somente ela, sem encostar em nada. Às vezes a paixão trata-se disso, de resgatar sentido nos sentidos. Se pousar saliva doce onde só descia o sal da lágrima, de lágrima também, mas de resgate, como se a paixão libertasse o corpo de algum cativeiro. E ela nem sempre é, nem sempre vem, nem sempre está como se imaginava que seria. Nem sempre comete arroubos, dramas e cenas insanas. Pode vir como brisa, devolvendo alívio; pode trazer consigo instantes cheios de silêncios e delicadezas; pode ser repleta de risos e ludicidade. E, ao contrário do que se pensa, justo porque se pensa sobre coisas impensáveis, ela pode ir além. Pode romper caminhos, reajustar cursos, corrigir rumos e desaguar em destinos sobre os quais não considerávamos nós, os percorrendo. E isso nos refaz a capacidade de andar, simplesmente.
Nem tudo vem numa ordem conhecida. E o que começa pela paixão, como sempre vimos acontecer, para chegar ao amor um dia, como esperamos acontecer, pode inverter a tudo, tirar as coisas de seus lugares, para deixar a tudo ainda mais certo. Nada que sentimos pode ser mensurado pela razão. Nunca sabemos tudo que pode sentir nosso peito imensamente largo. E o tempo trata de colocar nossas coisas todas em novos cantos, como fazemos com nossas casas, quando cansamos. Às vezes tudo que parece estar desalinhado, está somente se realinhando para um depois que nossa vista não alcança. Coisas que não sabíamos, vieram. Outras, julgadas perdas, podem ser refeitas, revestidas de outras roupagens, outras facetas, guardadas pelo próprio tempo, para ele mesmo, mais tarde. E tudo que nos acontece peito adentro, tudo que nos acomete pela superfície da pele, tudo que nosso coração espreita, tudo que nossa alma credita, está sempre certo, porque nos molda, nos forja, nos esculpe, nos prepara, nos enfeita.

Necka Ayala. 15.04.09

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