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14 de abr. de 2009

Fim do Mundo

Vivem anunciando e isso, com certeza, já esgotou. Vivem marcando data, divulgando em sites que o mundo tem data para acabar. Já presenciei a minha família advertindo para que estocasse água potável, tamanho absurdo e convicção com que se falava nisso. E, sinceramente, descreio convictamente. Duvido muito que o criador, seja ELE quem seja e tenha ELE que nome tenha para cada pessoa, deixasse que o mundo se acabasse por conta dos desatinos humanos. Se eu fosse o criador, não daria tanto poder assim às minhas crias. Trataria de limitar os desvarios e resguardar o meu direito de acabar com o todo do criado. Porém...
Venho aqui especificamente sugerir que a gente faça um certo “fim do mundo” sim. O nosso! Que a gente possa, a partir de uma certa tomada de consciência, acabar com o nosso mundinho e começar outro. O fim do mundo de cada um. E que seja mais ou menos assim, guardadas as devidas proporções e conveniências, respeitadas as limitações e os apegos de cada um: que se fale menos e faça mais! Que se use de toda a verdade possível a cada minuto vivido. Que se tenha um mínimo de respeito pelo outro, legítimo, mesmo, de coração aberto. Que se pare de reclamar e, principalmente, de alimentar aos mesmos gastos problemas da vida toda. Que se possa mudar alguma coisa a cada etapa, fazendo com que a repetição se quebre e a quebra construa. Que se consiga sujeitar o outro apenas aos gestos de doçura que tenhamos. E que saibamos cometer algumas loucuras em nome do amor que sentimos. Que tenhamos sorrisos a dar aos que pedem moedas, também! E que paremos de julgar que aquele um, ali, perdido na vida e por ela, como um desocupado que não quer nada com nada: que não julguemos!!! Porque julgar, requer que cada julgador saiba tão mais do que de fato sabe! E tenho ouvido de pessoas que admirava, frases do tipo: vai procurar emprego! O que é isso? Se eu, com 45 anos, sem faculdade, cheia de talentos, de vontade, de condições, não consigo emprego...!? Tenhamos alguma compaixão por quem anda nas ruas. Nem todos estão ali por vontade própria, nem todos andam com destinos ou deixam de bater às portas dos amigos por querer. Alguns não têm amigos nem portas. Que se possa olhar diante do espelho e enxergar nossas limitações. Que se possa parar de exigir dos outros as atitudes que nós não tivemos coragem de tomar. Que poupemos o ar e a água fundamentais a todos os seres vivos! Porque não somos os únicos a precisar de modo vital de tudo. Que saibamos o valor que tem cada gota de água e cada respiração ainda possível. Que acabemos de uma vez com a falta de dignidade, com a acomodação, com a incoerência, com o desrespeito, com a mentira e com a violência cometida por nós, disfarçada de tantas vestes rotas. Somos violentos sim, quando olhamos para o mundo e jogamos sobre ele, a nossa incapacidade de sermos mais, melhores. Ser feliz exige trabalho, que saibamos disso e optemos por ela, pela felicidade de nos sabermos parte do todo, e não seres vindos a passeio. Que possamos ter orgulho e não vergonha da fé que levamos na alma. Que tenhamos coragem de declarar nossas falhas, entraves, para que vejamos quão comuns e plurais são. Que baixemos os narizes empinados que nos fazem supor uma superioridade que não existe: somos todos sangue, ossos, carne, tecidos, iguais – e precisamos das mesmas coisas para nos manter vivos! Que desatrelemos dos ombros as cargas enjoativas do passado, compreendendo o que cada coisa trouxe e ensinou, mas sabendo, antes de tudo, que o ontem já foi morar noutro tempo, inalcançável. Portanto, que possamos enxergar o dia de hoje como o único, pois de fato, é! Que voltemos ao ato simples da boa ação de todo dia, seja a mínima contemplação do que já temos, seja a simples constatação de “que bom, todos os que amo ainda estão vivos”. Sejamos gratos! Cônscios. Cientes. Façamos mais, façamos diferente: não deixemos que BBB’s nos convençam, nem Shows da Vida nos ditem opinião. Busquemos a arte, a magia, a fé e a vontade pela vida intensa e forte a que todos temos o mesmo direito. Sim, fim do mundo! O fim do mundo de cada um como ele tem sido, se vier sendo pouco. Façamos mais, refaçamos conceitos, troquemos de dicionários. Tenhamos a decência de fazer do nosso mundo, maior e menos envenenado. Limpemos nossas cabeças de velhas palavras: criemos novas. Troquemos idéias, façamos parte! Mudar de idéia é dádiva, como voltar atrás. Aprendamos a perdoar de fato, sem que precise ser dito, mas sentido. Registremos coisas boas por sobre as ruins e curemos nossas almas com amor próprio.
No fim do meu mundo, agradeci pelo meu nome, que poderia ser outro e eu não gostar dele. Agradeci por ser artista, pois me orgulha. Agradeci pelos medos que venci e venço de novo. Pelos passos que dei e as portas que abri ao que não conhecia. Pelas preces que fiz e não eram em meu nome. Pelas provas que dei nos gestos de amor que concedi sem dizer nada. Pelas coisas boas que recebi e foram inúmeras. Por cada acorde que pude e pelos muitos que criei e não têm nome. Por cada poema que li, cada música que cantei, cada filme que assisti e cada luar que vi surgir e pasmei, de novo. Pelas pessoas que me têm carinho e pelas muitas mais que ainda tentarei merecer. No fim do meu mundo ficaram os escombros e as coisas cansadas que levava comigo. Ficaram as perdas que ensinaram a ser grata pelas coisas que ainda estão. Ficaram os débitos e os créditos lá atrás. E trago comigo agora somente a palavra troca no lugar dessas duas. Meu mundo acaba quando adormeço e outro começa quando desperto. O que fui ontem já não me basta. O que serei amanhã será insuficiente. E eu não quero que marquem o dia do fim do meu mundo, por mim.

Necka Ayala. 14.04.09

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