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6 de mai. de 2009

In-constância

Pessoas não sabem o que trago delas comigo. Se são sorrisos ou vozes, se são trejeitos, olhares, seus cheiros ou seus lugares em minha casa. Não sabem de que lembranças delas me alimento, nem quanto rio sozinha quando lembro ou choro. Não ouvem quando cito suas frases, quando conto passagens, nem vêem meu semblante quando os faço. Não imaginam quanto tempo gasto de ficar assim, perdida nelas, nas coisas que deixaram gravadas na história que traço, meu tempo, minha jornada, no ritmo dos meus passos. Nas ruas, quando ando, ouvindo trilhas sonoras de pedaços...
Pessoas não sabem quanto sorvo delas comigo. Quanto certos gestos delas me guiaram e me deram exemplo, tanto do que quero, quanto do que não. Não trago comigo nenhuma mágoa, não as guardo, ocupam demasiados espaços e eu os tenho precisado livres. Tenho me ocupado de manter ombros aliviados, sono tranqüilo, calma nas mãos. Não trago bagagens, fardos, pesos passados. Mas mantenho fotografias e pedaços de papéis sagrados. Suas caligrafias, suas cores favoritas, as músicas que faziam a dança, as letras que tocavam mais...as tiradas engraçadas pelas quais dei minhas mais largas risadas, as festas inesquecíveis, os encontros memoráveis de anos depois.
Pessoas não conhecem quanto delas perfaz o que eu seja agora. Estão longe e nada perguntam sobre isso. Mas eu tenho aqui comigo tanto! Tenho guardado num canto um Sol que já não brilha para fora, um M’Anjo Benfazejo que ainda emite graças quando sorri de verdade, um Marido Pisciano que ainda ameaça a todos que ousarem me ferir, um encontro perfeito que todos os sonhos haviam anunciado e se deu, uma Pessoa em Quatro que se desdobra mais a cada dia, uma Olinda que esquecia sempre a outra metade da piada que contava, um gosto de Café permanente que me abraçou os lábios da infância até aqui e muito mais ainda!
Quisera que de mim, tivesse ficado algo de bom nas pessoas que trago comigo. Porque a vida só faz sentido, quando comungada, partilhada, quando plural. Quisera ter deixado mais de bom de mim pelo caminho. E que fosse como o vento que passa, levanta os pêlos sobre os braços e parte, deixando apenas uma sensação boa e uma certeza de que nada é para sempre, nada.

Necka Ayala. 06.05.09

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