11.12.09
Faz 15 anos que perdi meu pai. Eu, que nunca havia gostado das festas de final de ano, reafirmei minha contrariedade a elas. Não sei dizer direito o que senti naquele momento. Era um dia comum que, de repente, se verteu num marco triste. Tinha ido comprar estrelinhas de neon para prender ao teto da minha casa nova na 24. Quando voltamos, havia um bilhete preso ao porteiro eletrônico, avisando que ele já havia sido, inclusive, enterrado. Outra perda que não vi – e, sabemos, a imagem é a coisa mais forte que há. Nunca soube disso com tanta força e tamanha dor. A imagem. Esta que nos apresenta aos olhos do mundo, olhos sem muita bondade, que a nada pretendem ver a não ser o que conseguem, à superfície do que somos. Somos tão mais que isso! Não sei dizer se pessoas lembram, em algum momento, que ninguém tem ‘culpa’ da imagem que tem. Alguns, inutilmente ou não, conseguem alterar algumas coisas aqui e ali. Não vi a imagem necessária ao luto, da partida de meu pai.
Uma vez escrevi, dentro de uma letra, o seguinte: “tire as mãos de mim e ponha os olhos”. Queria dizer, naquele dia, para que tirassem a sensação de posse de cima de mim. Como se eu fosse, até ali, um objeto que as pessoas pudessem apenas “ter” pra si, levando de lá para cá, à sua vontade; queria dizer para colocarem os olhos, para me verem, verem ao que eu também pudesse querer. Tanta gente se diz capaz de amor incondicional, como mais pessoas ainda, preferem o amor à paixão. Ouço tanto isso! Que o amor sobrevive e a paixão acaba, que o amor leva longe e a paixão dura um tempo pré determinado...; mas quase já não encontro, como diria Taiguara, amor real, dado antes de se querer recebido. Pessoas colocam as mãos sobre aquilo que amam, esquecem de olhar para quem amam: e seria ali, onde a imagem ficaria em outro plano, que se veria o outro, com amor, mesmo! O outro que também sente, que também tem vontades, planos, sonhos a tentar realizar. O outro também tem sangue correndo nas veias, coração pulsando e sua essência a ser respeitada.
Não sei que amores teve meu pai. Nem como os exerceu, os cultivou, os perdeu ou os manteve até o fim. Sei dos que tentei viver, dos que procurei cultivar, dos que ouvi dizer e dos que constatei não-sólidos. Alguns, sem que eu percebesse, ficaram para sempre ou melhor, até aqui. Pessoas que nem são da família mesmo, do sangue, mas são de dentro, do lugar onde as mãos não podem se apropriar. O que sei hoje, é que imagem nenhuma deveria ter o peso que tem – nem as mãos deveriam. Se os olhos pudessem nos ver por dentro, talvez as mãos servissem para ajudar a acalentar nossos sonhos, nossas pequenas tristezas, nossas datas de luto, nossos dias de distância. Se eu pudesse escolher um presente de Deus de natal, pediria a Ele que me deixasse andar com alguém, vida afora, de mãos dadas.
Hoje, pai, eu usaria minhas mãos de violonista, para acariciar tua barba e acenar com ela o adeus que não te dei.
Necka
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