“Eu tenho a minha loucura e levanto-a como um facho a arder na noite escura e eu sinto espuma, sangue, cântico nos lábios!”
Não é mais.
Não pertences mais ao que pertencias.
Não são teus braços os braços que se estenderam rumo ao colo abrigador dos que te geraram. Não são teus lábios aqueles que sorveram sumo de mãe e que beijaram a face do pai, quando somente havia a eles em teu amor em sua maior expressão. Não são tuas pernas aquelas que deram os primeiros passos hesitantes na direção dos primeiros aprendizados. Nem são tuas escritas pueris brotando de tuas mãos agora. Já não pertences mais àquilo que conheces tanto.
Não és mais. Não és mais aquela mulher que pertencia e não tinha nada de seu em sua morada, em seus domínios. Não és mais aquela que esperava a quem não vinha ou, se chegava, já tinha hora de saída de ti e do que pretendias. Não és mais aquela que consumia as horas em asas de aviões, em caminhos indiferentes, em tempos livres, livres demais! Já não evitas os dias livres, mas os esperas ansiosa. És outra agora, um pouco mais tu.
Agora és aquela para a qual toda palavra tem plural.
És a esperada, a sonhada, a querida e a bem-amada. Mas ainda não vieste inteira ao seu encontro. Ainda não te despediste do colo quente, dos 16 nomes gravados, dos endereços e das cidades, dos aviões e das notícias. Ainda não entendeste o que existe e o que existe, é tudo que precisas para seres toda tu. Não há mais colos que te aqueçam, nem escolas que te desfaçam aprendiz; não há mais presentes para as crianças da casa que te fascinem. Porque o calor agora reside em outro sol e está sob o teto da tua casa, sob a pele que te acaricia a pele, sob o corpo no qual te encostas ao dormir. Aprendes em Exercício o que outrora se lecionava. Te fascinam as coisas que descobres poder sentir e não pacotes, embalagens, embrulhos temporários. Teus presentes se resumem a abrir somente os olhos e confirmar, sim, é verdade, está aqui.
Mas como te dizer que é chegada a hora da despedida do que foste, sem que te entristeça a simples pronúncia desse adeus à tua infância? E como fazer-te triste se te amo e tudo que mais quero é ver-te somente mais e mais e mais feliz? Como apressar o tempo que ainda não viveste quando eu, nesse exato momento, me despeço do contrário, indo inutilmente ao teu encontro, na redescoberta da minha juventude? Como tornar possível um ponto que diste igual de ambos os lados, para que não seja fardo e sim viagem, essa ida até ali, onde possamos nos encontrar e nos ter? Como faço para voltar de onde estou, como fazes para vir depressa até ali, onde possam chegar meus passos lentos de maturidade?
A vida não espera – a vida quer ser servida.
22.12.2009
Não é mais.
Não pertences mais ao que pertencias.
Não são teus braços os braços que se estenderam rumo ao colo abrigador dos que te geraram. Não são teus lábios aqueles que sorveram sumo de mãe e que beijaram a face do pai, quando somente havia a eles em teu amor em sua maior expressão. Não são tuas pernas aquelas que deram os primeiros passos hesitantes na direção dos primeiros aprendizados. Nem são tuas escritas pueris brotando de tuas mãos agora. Já não pertences mais àquilo que conheces tanto.
Não és mais. Não és mais aquela mulher que pertencia e não tinha nada de seu em sua morada, em seus domínios. Não és mais aquela que esperava a quem não vinha ou, se chegava, já tinha hora de saída de ti e do que pretendias. Não és mais aquela que consumia as horas em asas de aviões, em caminhos indiferentes, em tempos livres, livres demais! Já não evitas os dias livres, mas os esperas ansiosa. És outra agora, um pouco mais tu.
Agora és aquela para a qual toda palavra tem plural.
És a esperada, a sonhada, a querida e a bem-amada. Mas ainda não vieste inteira ao seu encontro. Ainda não te despediste do colo quente, dos 16 nomes gravados, dos endereços e das cidades, dos aviões e das notícias. Ainda não entendeste o que existe e o que existe, é tudo que precisas para seres toda tu. Não há mais colos que te aqueçam, nem escolas que te desfaçam aprendiz; não há mais presentes para as crianças da casa que te fascinem. Porque o calor agora reside em outro sol e está sob o teto da tua casa, sob a pele que te acaricia a pele, sob o corpo no qual te encostas ao dormir. Aprendes em Exercício o que outrora se lecionava. Te fascinam as coisas que descobres poder sentir e não pacotes, embalagens, embrulhos temporários. Teus presentes se resumem a abrir somente os olhos e confirmar, sim, é verdade, está aqui.
Mas como te dizer que é chegada a hora da despedida do que foste, sem que te entristeça a simples pronúncia desse adeus à tua infância? E como fazer-te triste se te amo e tudo que mais quero é ver-te somente mais e mais e mais feliz? Como apressar o tempo que ainda não viveste quando eu, nesse exato momento, me despeço do contrário, indo inutilmente ao teu encontro, na redescoberta da minha juventude? Como tornar possível um ponto que diste igual de ambos os lados, para que não seja fardo e sim viagem, essa ida até ali, onde possamos nos encontrar e nos ter? Como faço para voltar de onde estou, como fazes para vir depressa até ali, onde possam chegar meus passos lentos de maturidade?
A vida não espera – a vida quer ser servida.
22.12.2009
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