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26 de abr. de 2010

Passarela

Quando desci, o céu estava quase noitecido, ainda roseado por algum por-de-sol que perdi do avião. Estava só, mas estavas em tudo que eu sentia, via, deixava vir a mim, dentro de mim, por mim mesma e por ti. Nas primeiras horas não senti nada mais que a tua falta, o espaço vazio onde não estavas. Vim por nós, também, mas não vieste a não ser em mim. Ainda não.
Não houve desafios nas primeiras ruas. Mas depois, cedo da primeira manhã, abriu-se acima de mim uma passarela. Alta, verde, longa demais para meus passos medrosos das alturas. Gosto do chão firme, embora ame demais o que as asas de aviões permitem que se assista. Estavam ali degraus demais, ansiedade demais – o todo do novo. Eu, numa cidade estranha, desconhecida, num novo trabalho, numa nova rotina e só, embora estivesses comigo de tanto vazio que abriste. Sempre achei que o espaço vazio que uma ausência escava, é maior que o espaço preenchido de uma presença qualquer. Mas não és uma presença qualquer – és aquela que quero por mais tempo do que o tempo tem. Subi. Minhas mãos umedeceram de medo. Enquanto tentava mais um passo, as orações se confundiam e Deus se confundia entre as nuvens e o céu azul demais para ser daqui. Vento, carros muitos passando por baixo, mais vento, mais passos e mais medos. Ao descer senti o alívio de quem chega. Estava lá, do outro lado, finalmente. E, de novo, estavas ali, naquela pequena conquista, sorrindo teu sorriso perfeito, branco e aberto todo em boa-vontade.
Hoje senti de novo a presença daquele desafio. E porque sentia dor demais, atravessei de novo o que não mais atravessaria. Somou-se à dor da tua ida provisória, às lágrimas da manhã que acordamos antes de ser dia, à ausência de ti ao lado pelas ruas cujos nomes já sabemos. Atravessei a passarela e, desta vez, houve mais tristeza do que medo. Eu queria que estivesses ali, ao lado, segurando a coragem que me emprestas quando não a tenho. Te tenho. Estás dentro onde ninguém acessa, acesa, luzindo a luz da qual me perco às vezes. Hoje não sorri nenhuma vez.

26.04.2010

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