Pesquisar este blog

23 de jun. de 2010

Inevitável

É preciso ter uma coragem indescritível, uma força que forje a alma inteira e uma fome de conhecimento que vá além da fome que se imagina possível. É preciso ter consciência de que nada antes jamais fora tamanho. E é preciso entender o significado da palavra ‘irreversível’. Pois se for Amor, é irreversível.
Há uma passagem, um instante exato em que, ao atravessar, não há retorno mais. Simplesmente não há. E quase nunca é uma escolha, feita, acabada, decidida. É mais um caminho, uma corrente submersa, uma força superior. Tal como parir um filho e, com isso, alcançar ao exercício máximo de um outro tipo de amor, jamais suposto. Ele nasce e fim. Se está no amor, como se está na vida, vivo, apenas. Mas mesmo a vida é reversível. O amor, não! Se ama a ponto de deixar a própria vida ser vivida por alguém que já tem uma, a sua. Se ama ao extremo de não imaginar a vida sem aquela mãe, aquele pai, mas ainda assim pedir aos céus que leve, se estiver sofrendo demais. Se ama beirando à loucura, sorvendo da doença alheia, mesmo sendo são, para compartilhar uma fagulha qualquer de esperança que nunca, nunca vem, mas basta para ir 1 dia além. O amor não tem cura nem escapatória. E quando evitado, deixa seqüelas ainda maiores, vertidas solidão afora. Amar também é ser só. Porque ao amar, enxergamos menos espelhos e mais fotografias antigas; acariciamos mais a pele fina das vontades insatisfeitas do que entregamos a própria pele a uma carícia; quando amamos entendemos melhor as horas fugitivas do outro, do que defendemos as nossas poucas horas de liberdade; e ele vai, crescendo mais ainda, quanto mais nos rendemos aos exageros do amor.
Não posso me livrar dos amores que me acometeram. Vivi demais. Cada amor que senti, cultivado ou guardado em segredo e imobilidade, me fez quem sou agora. A soma deles me fez poder amar ao que amo agora. E se o amor não fosse como é, irreversível, não lecionaria tanto. Ele obriga, submete, invade, envolve e enaltece. E nos remete tanto ao futuro inacessível quanto ao passado irrecordável, estando incluso no presente pontual. Não posso reverter o amor que sinto por cada pessoa que o causa em mim, dentro, onde não há controle nem rota de fuga. Posso apenas alargar mais e mais meu coração falho, humano e ainda infantil. Até que o Criador me deixe sentar ao Seu lado infinito e me conte, página por página, por que Ele criou o amor assim e a mim.

N.23.06.2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Leio.