Não gosto de Dezembros. Não tenho boas recordações deles. Não gosto de Natal, nunca gostei, desde muito cedo, quando tive a primeira péssima lembrança dele. Foi uma briga de família, séria, muito séria. Lembro da Olinda chorando demais e eu ainda não sabia como fazer para dar consolo...ninguém sabe, na verdade, como consolar. Como se consola alguém que teve a vida tirada do prumo, alguém que não aceita e não se conforma com o furto desse prumo, de repente? Como se consola quem perdeu coisas demais e ainda não chorou tudo?
Eu gosto do que vivo e do que tenho hoje. E isso está posto, guardado num compartimento ao qual dedico toda minha capacidade de defender algo. Mas ficaram coisas inacabadas, num gerúndio eterno que não me liberta. Eu estava fazendo coisas, construindo, projetando, indo ao encontro do terceiro filho, gerando, quando...quando uma verdade inegável e, ali, inadiável, veio me tirar do sono. Diante dela, não poderia mais manter máscara sobre a cara, véu sobre as palavras duras, band-aids sobre os cortes. Ela veio toda e, ver, é irreversível. Deixei o que estava fazendo, gerando, construindo sobre o chão do quarto e me atirei para dentro das malas, querendo não olhar para trás, não ver. Hoje me deparo com outra verdade dessas. Não aceito o que me foi levado, não aceito que me tenham tirado o prumo. Porque fiquei sem.
E uma das últimas lembranças de outro dezembro, ainda naquela peça destruída, me confirma que esses meses não são bons. Dezembros não são bons, por mais que atitudes pontuais venham de bom grado, de mãos que nunca doaram nada; ainda que se façam sopas e se alimentem bocas famintas o ano todo. Ainda que se doem presentes baratos a quem perdeu, antes, a capacidade lúdica de si. Não são bons os presságios que se proferem nesse mês. Nem a previsão do tempo é boa o bastante. Eu não gosto de dezembros. Menos ainda depois do último deles. E, depois que eles passam, vem um marasmo quente, um mormaço mórbido, um “parado” no tempo que angustia. Uma necessidade de férias que nunca são tão boas quanto as lembranças que se tinha delas, muitos tempos atrás. Temos certa obrigação de ser felizes, de beirar praias de novo, de jogar vôlei com amigos que já partiram há tempos. Perseguimos uma felicidade deixada numa época irresgatável, de quando “sem aulas” era bom e brinquedos eram recém recebidos, cheirando a novinho. Pessimismo? Não sei. Apenas não gosto dessa fase do ano em que o ano não termina nunca e o próximo não começa nunca antes de março. Das obrigações disso tudo, de se pensar que “se eu não for poderá ser o último natal...” e da culpa disso. Quem inventou a culpa, deveria carrega-la para toda a eternidade, ela toda! Não sei se é culpa minha não ter chorado tudo ainda, não ter meios para tratar essa nova verdade, não ter feito faculdade, não ter um grande emprego agora...; não sei o que é minha culpa. Sei que não gosto de dezembros e isso, agora, me basta. Porém, até nos 31 dias que ele terá, de novo, chegará o fim do dia e voltarei ao sossego ao lado dela, que nunca nunca nunca nunca pára de ser leve.
Eu gosto do que vivo e do que tenho hoje. E isso está posto, guardado num compartimento ao qual dedico toda minha capacidade de defender algo. Mas ficaram coisas inacabadas, num gerúndio eterno que não me liberta. Eu estava fazendo coisas, construindo, projetando, indo ao encontro do terceiro filho, gerando, quando...quando uma verdade inegável e, ali, inadiável, veio me tirar do sono. Diante dela, não poderia mais manter máscara sobre a cara, véu sobre as palavras duras, band-aids sobre os cortes. Ela veio toda e, ver, é irreversível. Deixei o que estava fazendo, gerando, construindo sobre o chão do quarto e me atirei para dentro das malas, querendo não olhar para trás, não ver. Hoje me deparo com outra verdade dessas. Não aceito o que me foi levado, não aceito que me tenham tirado o prumo. Porque fiquei sem.
E uma das últimas lembranças de outro dezembro, ainda naquela peça destruída, me confirma que esses meses não são bons. Dezembros não são bons, por mais que atitudes pontuais venham de bom grado, de mãos que nunca doaram nada; ainda que se façam sopas e se alimentem bocas famintas o ano todo. Ainda que se doem presentes baratos a quem perdeu, antes, a capacidade lúdica de si. Não são bons os presságios que se proferem nesse mês. Nem a previsão do tempo é boa o bastante. Eu não gosto de dezembros. Menos ainda depois do último deles. E, depois que eles passam, vem um marasmo quente, um mormaço mórbido, um “parado” no tempo que angustia. Uma necessidade de férias que nunca são tão boas quanto as lembranças que se tinha delas, muitos tempos atrás. Temos certa obrigação de ser felizes, de beirar praias de novo, de jogar vôlei com amigos que já partiram há tempos. Perseguimos uma felicidade deixada numa época irresgatável, de quando “sem aulas” era bom e brinquedos eram recém recebidos, cheirando a novinho. Pessimismo? Não sei. Apenas não gosto dessa fase do ano em que o ano não termina nunca e o próximo não começa nunca antes de março. Das obrigações disso tudo, de se pensar que “se eu não for poderá ser o último natal...” e da culpa disso. Quem inventou a culpa, deveria carrega-la para toda a eternidade, ela toda! Não sei se é culpa minha não ter chorado tudo ainda, não ter meios para tratar essa nova verdade, não ter feito faculdade, não ter um grande emprego agora...; não sei o que é minha culpa. Sei que não gosto de dezembros e isso, agora, me basta. Porém, até nos 31 dias que ele terá, de novo, chegará o fim do dia e voltarei ao sossego ao lado dela, que nunca nunca nunca nunca pára de ser leve.
Não peço que te apaixones por este mês que é sim, muito chato. É um mês quente, e de temporais em São Paulo. Um mês corrido, durante o qual todos se apressam para terminar coisas que deixaram para depois durante os outros 11 meses do ano.
ResponderExcluirNão tenho a pretensão de mudar tua forma de ver Dezembros, o que eles já marcaram em ti não pode ser apagado, mas tenho sim a pretensão de torná-los mais leves, menos tristes, menos densos, mais alegres.
Quero apenas que de hoje em diante, todos os teus dias sejam felizes.
Te amo.