Já não assisto às novelas. Faz tempo. Mas, coincidentemente, ouço a novela das 18h. Chego em casa, passo café, fico em silêncio um tempo. Às vezes, ligo a tv para ouvir ao Sem Censura, da Leda Nagle. Depois, mais tarde, enquanto cozinho, ouço a novela. Nessa última segunda, em mais uma brilhante e comovente atuação da atriz Laura Cardoso, fui às lágrimas e explico o porquê. Creio que uma das enfermidades mais cruéis e tristes seja o Alzheimer. Já vi filmes sobre o assunto e todos me derrubaram. É uma doença que apaga da lembrança as pessoas que amamos, que deleta fatos, história, que faz com que se esqueça o amor da vida, o amigo mais precioso, enfim...; haveria algo mais doloroso do que ser esquecido, ou não reconhecer àquela face que amamos mais do que a todas as demais? Bom...na novela, depois de saber que a doença havia chegado, a personagem da divina Laura diz para os próximos: “antes que a doença leve tudo embora, quero agradecer, a ti...” e segue o texto. Quem quiser assistir, o bom youtube tem: Araguaia, 04/04 – parte 7. Depois ela diz: “quero envelhecer cercada dos amigos”. Bastou para que eu, mais uma vez, achasse resposta onde não estava procurando. Faz 7 dias que estou afastada do trabalho que detesto. Deveria estar contente, fazendo mil coisas. Mas estive quieta, sem saber ao certo o que me incomodava, se era a faixa quilométrica enrolada no joelho, o impedimento de alguns movimentos, sei lá. Não escrevi, não toquei; fiquei mais ouvindo a tvcom de Porto Alegre e aos discos do Nei Lisboa, coisa que me faz chorar, depois de velha! Assisti a todos os programas da Kátia Suman, ri muito dela, com uma nostalgia imensa do sotaque que só a gente tem. Bueno, como ela diria: faz falta. Faz falta e era isso. Tudo da minha terra me faz falta. E tudo que faz falta, dói. Também estou ficando velha. E querendo envelhecer cercada dos amigos que levei 46 anos para merecer. Perto da afilhada que vi oferecer à luz, seus lindos fios vermelhos ao sol na serra de São Chico. Perto das pessoas às quais não cheguei a agradecer por fazerem parte da minha vida. Perto do sorriso da Kiks, do abraço gostoso da Loly, do escândalo do Cesinha, do cheiro de mato na subida do Morro, do creminho da Vera, da bagunça desvairada da Carol e do Theo, das loucuras insanas da minha amada Neiva, das dicas do Mestre, dos papos longos do Manecko, do abraçinho rápido e ainda incerto da Vó, da bênção da Ieda, da Igreja São Pedro, dos encontros casuais e sempre únicos com a amada Cíntia Moscovich, do xis da Zefa, da torta do Max, tudo! Perto das velas do Eurico na porta da Igreja, perto das ruas da Olinda, perto da luz de Porto Alegre, do mercado, da Feira, do Brique. Quero ficar perto das coisas que, estando perto, me bastaram quando eu fui mais só. Hoje tenho uma vida plena de paz. Tenho uma pessoa sem descrições, que me ama e que amo igualmente, numa sintonia de dar medo! Tenho um trabalho que detesto, mas que me forja uma fibra a cada dia, da qual certamente irei precisar mais tarde. E, amadurecer, ensina isso, que cada coisa vem para providenciar o que precisaremos ter depois, ali adiante. Vivo numa cidade imensa, que vida alguma daria conta de percorrer inteira. Tenho sossego, uma casa linda, num bairro calmo. Muitos shows, amigos, brinquedos novos e muito bons! Mas falta ter com quem brincar disso. Falta a referência, a história, o tempo decorrido que já decorreu. Aos 46, não se pensa no que se há de vir a construir um dia quem sabe talvez ainda dê. Se pensa no que já se fez, está pronto para ser usado, curtido, provado, sorvido. E tudo que amo, está. É. E é longe de mim agora. Decidi não ir a Porto na páscoa. Porque amo Páscoa e amo Porto. Ir, seria feliz. Vir, não. Iria rindo, contando segundos. Viria triste. Graças a Laura Cardoso, que me fez ouvir duas vezes ao texto que citei, entendi por que ando assim, meio sem vontade de nada, meio “tanto faz”. É saudade. Mas como explicar essa saudade a quem não a tem? Como explicar que é como ter perdido um filho ao inverso: perdi o ventre onde habitava. Minha cidade de calor imenso e frio pior. As ruas amadas, onde tanto andei rindo de feliz, quanto tonta de tristeza. E essas ruas receberam tanto meus risos quanto meu sal. Essas ruas me entenderam, me deram rumo, me ensinaram, me receberam. Minhas paradas certas, meus lugares favoritos, minhas pessoas “melhores do mundo”, minhas mais sinceras canções, minha voz, minha saúde, minhas muitas famílias, Maerys, Olindas, Neivas, Celestes, Valerias, Iedas, Claras; meus muitos irmãos, Patrícia, Silvinho, Giovanna, Silvinha, Kiks, Claudia, Evânia, Inês, Glaci, tanta gente, tanta gente! E eu amo tanto cada coisa dessas, cada lembrança, cada aprendizado que me deram! Germano, Krug, Bobalhão, Mano, Deja, Nando, Zé Caradípia, Claudião, Péricles! Sinto tanta falta de mim mesma! Do que eu era quando eu era inteira dentro do que me refletia, me lapidava, me forjava. Então entendi que preciso usar esse tempo de hoje, de agora, para dizer a cada pessoa o que há para ser dito. Para Gisele que “No Vento” é uma conquista sim! Para o Maurinho que ele é meu exemplo de alegria e de bondade, além de tudo. Para a Carol que ela é o fio que mais me aproxima de mim mesma. Para a Silvia que São Paulo não é tudo isso, não: não tem rosquinha. Para a Gabi, que aniversaria hoje, que ambas sonhamos o mesmo! É gente demais e amor demais que recebi e dei. Recebo agora e dou. Arrependimento? Nenhum. Se sou feliz aqui? Sim. Mas jamais serei inteiramente feliz, longe de Porto Alegre. Nem serei eu, toda eu, tudo que poderia.
Eu ainda lembro que tu és, todas as manhãs e nas outras 24 horas do dia. E nunca vou esquecer isso, meu amor lindo, mesmo que me chames, carinhosamente, assim.
ResponderExcluirTe amo.