Pesquisar este blog

4 de ago. de 2011

Ela pensava que eu era santa. Que minha cabeça doida ocupava todos os cantos, todos os gestos, todas as coisas em mim. Me via inumana. Como se eu nunca tivesse tido um corpo, um par de pernas, uns braços, umas ausências. Me achava reta e correta demais para ter desejos, rompantes, impudores, conivências. Imaginava minha cabeça pirada, inspirada por poemas e esperas, como se fosse toda abstinência, toda casta minha coleção de frestas, minhas janelas. Ela me supunha atenta somente às palavras, às teorias, toda dedicada a descrever o que jamais saberia, como se somente ela tivesse somado experiência e pudesse contar suas façanhas. Listou uns nomes para mostrar-me...nomes de um tempo recém vivido, como se os meus poucos nomes nada somassem. E não somam. Ela achava que eu era fixa naquele ponto, sem passos ou partidas. Não sabia que, com cada não que eu recebia, construía um caminho, um rastro que se daria na hora certa, marcada por ela. Ela me sugeria ser solta, mas desacreditava que eu pudesse. Me dizia para olhar nos olhos dela e falar a verdade que nem ouvia. Mas eu já era feita de carne e presenças. A dela, crescendo em mim, semeada na noite fria de Porto Alegre, um quase-agosto. Uma orquídea branca como a pele dela me avisara. E minha cabeça doida havia entendido que o primeiro passo havia se formado. Ela pensava que eu era santa...mas eu já tinha um par de olhos, uns lábios querendo gosto dos lábios que meus olhos viam, uns braços vazios cheios de espaço para os espaços que ela tinha...

Um comentário:

Leio.