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20 de ago. de 2012

Mudou


O que No Vento levou....
            Diferença entre o ontem e o agora...o que muda?
            Vir compondo desde os 6 anos...; dia desses encontrei a letra escrita à lápis aqui, entre as coisas trazidas para perto. ‘Adeus, Amor’ ...de uma infantilidade e de uma pureza que só aos 6 se tem. Nada que impedisse meu pai de reverenciá-la, afinal, ele havia me presenteado com o violão quando dos meus 1,5 anos! E segui compondo – pois só encontrei sentido em viver, enquanto compunha. Só que...a gente vai compondo, espera uns dias, toca de novo e se pergunta: será que essas letras e melodias, essas “crias” terão destinação? Haverá futuro para elas e são tantas...?; compus porque, acima e antes de tudo, precisava dizer o que estava dizendo ali. Às vezes sem me ater à forma, rima, outras sem mesmo considerar se seriam “entendíveis” aos olhares e interpretações alheias. Ficava ali, contemplando o berço, a recém-parida canção, ao mesmo tempo pendendo entre o contentamento e o vazio da conclusão.
            Uma vez, Cíntia Moscovich publicou uma carta minha para ela (post Carta para Cíntia). Depois, devidamente convocada para ir ter com ela, declara veementemente: tu achas que tu és compositora, Neckayala? Quantas vezes tu tocas violão por semana? E quantas tu escreves? E decretou: tu és es-cri-to-ra!  UAU! Saí dali zonza. Se, de amigos a gente perdoa muito, de quem a gente é fã e amiga, perdoa o dobro...mas aquilo me confundiu ao mesmo tempo em que me envaideceu. Tipo uma crisezinha mínima de cargo na vida...artesã? Compositora? Violonista? Calígrafa? Desenhista? Cozinheira? Es-cri-tooora, eeeeu? Ai...
            E sempre houve aqueles longos hiatos entre compor, parar e compor de novo, sempre questionando o Universo e duvidando um pouco se o dom, a despeito de resultados obtidos, é perene.
            Eis que, depois de um desses hiatos, a perda de um amigo resultou no “destampar da panela”...e veio música atrás de outra e mais uma. Foi o que deu origem à vontade de gravar o terceiro cd, que há de chamar-se Sementeiro. (projeto que tem seus cúmplices desde 2008, tempos da Comunidade da Leda Nagle) Aí sim, coisas realmente novas, adotei o pincel como instrumento de uso ao violão, enfim, muita novidade mesmo!
            De novo a contemplação e a pergunta: e....? O que fazer com essa filharada toda dormindo num único cômodo, debaixo das mesmas cobertas, enquanto o tempo passa? Tempo tempo tempo tempo...? Né Cíntia Moscovich? Bem feito!
            Calendários mudaram bem como CEPs e janelas. E ficaram todas adormecidas, esperando vez, fresta, sorte na vida. Parei total de compor. E aí já era questão pessoal entre mim e o Criador. Falei para Ele: seguinte, me deste o dom e serei eternamente grata. Mas não tô podendo acreditar mais, por hora, enquanto curam-se feridas e palavras duras; então, Querido, vou dar uma parada estratégica de auto-defesa. Fui trabalhar na Anac, abrimos a Vinte8, realidade à bessa, projetos corporativos, muita conquista memorável no âmbito nacional de eventos, tudo indo ultra bem. E a coleção de instrumentos de corda, parada, acumulando pó & poeira (vide Domésticas, o filme). Cordas secando no clima de Brasília, cordas oxidando na umidade de São Paulo... As filhas dormindo quietinhas. As letras empilhadas, escritas a mão, guardadas em lindas caixas feitas artesanalmente. E o sentido da vida adiado. Aquele Maior, sabem? Aquele que costumo chamar de Comunhão com Deus – criar!
            Mudou o que mesmo? Aí vem a Voz das Vozes, Zizi. E canta No Vento. Hoje acordei, normal...casa por arrumar, café, plantas por regar. Mas......
            Uma vontade de limpar as cordas, ouvir todos os cds de novo, no carro, na rua, debaixo do travesseiro (como fazia com o rádio de pilhas quando guria); vontade de tocar, de acompanhar minhas amigas cantantes, uma renovação inteira! Mudou isso: se o mundo vai vir buscar as outras filhas, não sei. Se essa fará eco? Não sei. Mas eu, a artesã, a cozinheira, a compositora, a escritora, a calígrafa...as partes todas de mim, hoje, renascem, se levantam e olham pela janela com a alma cheia de sons! E já sinto um certo vento trazendo notas novas, outras palavras, Sementes...sei lá...

Em tempo: eu dizia para a Fernanda quando ela queria me levar para passear na Teodoro: tá, mas...ficar mexendo com isso de novo, acender a coisa toda, depois não ter com quem brincar? Melhor não... E ela dizia: faz porque amas fazer apenas! Eu te ouço, mesmo não tendo ouvido! É...segui fazendo por ser vital fazer. Traduzir, criar. E a Cúmplice dos últimos quase 4 anos, ouvindo, esperando, esperando e, comigo, levando fé! E tornando meus aniversários coroados de brinquedos da Teodoro.... Zizi Possi, o presente deste ano e da vida toda, foi teu viu? 48 anos e os instrumentos todos limpinhos!

Necka Ayala.
20 de Agosto de 2012. 

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