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22 de out. de 2008

...eu queria ver essa luz que vocês vêem em mim...

Pára em frente ao espelho e olha para ti.
Olha o brilho do teu olho. Espera um pouco, fica atenta. Respira antes, com calma. Fundo. Fecha um pouco os olhos e depois abre devagar. Olha agora. Vê o brilho deles. Tem uma luz ali, brilhando intensa, querendo ir, ganhar a rua. Querendo sair encontrar outros que reflitam direito. Espelhos também. De almas que se vêem e se reconhecem.
Observa os traços do teu rosto. Firmes, diretos, sem rodeios. Feito linhas planejadas por um arquiteto. Visando a ser morada de carinhos muitos insuspeitos. Teu rosto foi torneado pra ser visto, decorado; esses sinais, feito pingos de tinta sobre a tela branca. Essa pele branca. Feito folha de papel em branco onde se possa escrever simplesmente tudo. A canção nova, tudo!
Teus lábios, o desenho da tua boca. Olha! Acompanha o movimento que eles dão, sugerem, afirmam às vezes quando não-tímidos, quando não temem. Quando falam meu nome, olha, como são donos. Lábios feitos para o beijo mais singelo, tanto quanto para o mais voraz, esfomeado, devastador. Dançantes com seu pares de outra cor.
Toca teu cabelo, sente a textura, a leveza que aparece bem daqui. A cor deles, cada fio. Tua natureza tecelã. Deixa que eles movam-se sobre os teus ombros, sente, olhos fechados, como eles perpassam a pele fina das tuas costas, causando o levantar dos pêlos que saem da tua pele, finos. Foram deixados assim, como que sem querer, para ocupar as mãos de quem merece tê-los nelas.
Contempla a tua imagem só. Diante de um espelho que mostre o bastante sobre ti. Contempla com calma, sem pressa. E questiona se tudo foi feito para ficar assim, para sair ileso, para não ter destino, não estar com ninguém que te veja, que esteja contigo naquilo que tu és. O que te faz passar assim impune, bem diante do amor?
Será que ainda achas, de alguma forma, por algum abuso da razão, que foste feita para negar que o amor te alcance? Para fugir dele, do teu por ti mesma? Será que ainda insistes em não vislumbrar luz quando tudo em ti quer brilho, raio, intensidade? Será que vais ficar assim, vivendo da sensação da fome em vez de ensinar tua boca a morder aquilo que lhe apetece? Vais virar os dias, as noites insone, te alimentando de cenas, palavras, passado, quando tudo que tua alma chama é pelo que já te veio, ali mesmo, do outro lado? Por que ainda teimas em usar as tuas mãos somente para o todo da entrega ao outro, justamente daquilo que mais te faz falta nelas: o calor, o fogo!? Ter tantos passos a dar, perfeitas pernas, para habitar um espaço limitado, um mundo pequeno conhecido, seguro, tendo a estrada inteira, um céu por si só, azulclareado, onde se curva a ti o Arco-Íris da bênção do teu Deus recém-chegado.
Por que te negas dessa porta a chave? Por que aproximas os dois pulsos às algemas? Por que designas ao teu corpo à cama estreita? Por que condenas aos teus olhos rios de pranto? Pára em frente ao espelho e olha para ti. Essa que está aí, é a tua luz própria te chamando.
NA.22.10.08

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