A nós cabe extrair. Sem pás. Cavar, sem mãos. Plantar e cultivar a terra, quando tudo em nós se estende deserto. E precisam que sejamos assim.
Somos nós que entendemos o perdão. Aquele que quase ninguém concede, mas declara dado. Aquele que sabemos ser preciso, antes, ir pedir ao Criador nos ensine a conquistá-lo, dentro, íntima e legitimamente, para depois poder dizê-lo, dá-lo. Somos nós que nos deitamos nuas ao lado do abandono, para sonhar nossos sonhos ensimesmados, rever os “se’s deixados no caminho, para sempre condicionados ao passado. E ainda assim, sentir ternura pelo que nunca foi visto, pelo que não foi tocado, como se nem tivesse doído a pêrda do presente cobiçado.
Somos nós que nos abrimos sempre mais ainda. Como se jamais fôssemos perder da delicadeza, a elasticidade. Como se viver fosse conosco, tão profundamente benfazejo, que nos tivesse apenas maleado e não secado. Como se o tempo não tivesse nos desidratado, como se as solidões muitas não tivessem feito dano!: seguimos com quereres e vontades, planos e desejos adiados.
Somos nós que nos mostramos com a alma nua em pêlo, quando escrevemos e cantamos mesmo que com mãos doentes e vozes engasgadas. Ali, naquele instante insuportavelmente indefeso, que nos deixamos ver inteiras. E é ao vivo, em tempo real, ali, na tela, que muitos acompanham nossas metamorfoses, nossas desistências, nossas tentativas de voltar a crer de novo.
Existem almas esfomeadas da loucura, carentes da insanidade vã do encantamento, que se nutrem de assistir ao nosso envenenamento; que querem compartilhar conosco o cambalear da embriaguez, o trôpego andar às cegas por ruas de cidades desconhecidas. Almas que nunca provaram a irreversibilidade de ter visto. Querem ver conosco, ter ímpetos de criar algo que lhes justifique também. Como fazemos. Almas habituadas à mesmice da vida sem fulgor, dominada fácil. Querem êxtase, descontrole sobre seus corpos, aceleração, pêrda do rumo, largar a direção ladeira abaixo. E nos assistem. Porque a elas não lhes foi permitido pulsar, apenas bater ritmadas.
Somos nós a deixar que nos vejam assim, enlouquecidas, procurando ávidas pela palavra certa, pela que responda, uma, uma só que ocorra!
Se soubessem quanto nos custa ser isso. Que fardo e que dádiva, que tarefa árdua e sem descanso, linda! Que asa e que cadeado. É na nossa carne que todos os desejos latejam abortados; é dos nossos olhos que oceanos inteiros se salgam e se alagam; é das nossas mãos cheias de nada que se descrevem todas as palavras – e elas têm se estar assim, vazias, para poderem conter todas as coisas que não têm. É dos nossos destinos o desfecho bom, só imaginado. Porque não é da nossa natureza tomar a nada! Nada que não queira vir sozinho. Se soubessem o quanto nos custa não querer morrer de sede em frente ao mar, mas mais ainda ter compaixão o bastante, para dar de beber da própria saliva no saciar a sede de outrem!
Assim nós somos. Nada podemos fazer senão aceitar resignadas a conviver com o todo da verdade do que sentimos e sabemos não poder vingar. Coisas que enxergamos, descrevemos mas não vão mudar. Destinadas a ocupar os palcos, as páginas, nuas, sempre nuas aos olhos do mundo que nos devora cada sensação, quando nos entende! Confortemo-nos. Umas às outras. É só o que realmente temos: essa impressão de já nos termos visto antes.
Somos nós que entendemos o perdão. Aquele que quase ninguém concede, mas declara dado. Aquele que sabemos ser preciso, antes, ir pedir ao Criador nos ensine a conquistá-lo, dentro, íntima e legitimamente, para depois poder dizê-lo, dá-lo. Somos nós que nos deitamos nuas ao lado do abandono, para sonhar nossos sonhos ensimesmados, rever os “se’s deixados no caminho, para sempre condicionados ao passado. E ainda assim, sentir ternura pelo que nunca foi visto, pelo que não foi tocado, como se nem tivesse doído a pêrda do presente cobiçado.
Somos nós que nos abrimos sempre mais ainda. Como se jamais fôssemos perder da delicadeza, a elasticidade. Como se viver fosse conosco, tão profundamente benfazejo, que nos tivesse apenas maleado e não secado. Como se o tempo não tivesse nos desidratado, como se as solidões muitas não tivessem feito dano!: seguimos com quereres e vontades, planos e desejos adiados.
Somos nós que nos mostramos com a alma nua em pêlo, quando escrevemos e cantamos mesmo que com mãos doentes e vozes engasgadas. Ali, naquele instante insuportavelmente indefeso, que nos deixamos ver inteiras. E é ao vivo, em tempo real, ali, na tela, que muitos acompanham nossas metamorfoses, nossas desistências, nossas tentativas de voltar a crer de novo.
Existem almas esfomeadas da loucura, carentes da insanidade vã do encantamento, que se nutrem de assistir ao nosso envenenamento; que querem compartilhar conosco o cambalear da embriaguez, o trôpego andar às cegas por ruas de cidades desconhecidas. Almas que nunca provaram a irreversibilidade de ter visto. Querem ver conosco, ter ímpetos de criar algo que lhes justifique também. Como fazemos. Almas habituadas à mesmice da vida sem fulgor, dominada fácil. Querem êxtase, descontrole sobre seus corpos, aceleração, pêrda do rumo, largar a direção ladeira abaixo. E nos assistem. Porque a elas não lhes foi permitido pulsar, apenas bater ritmadas.
Somos nós a deixar que nos vejam assim, enlouquecidas, procurando ávidas pela palavra certa, pela que responda, uma, uma só que ocorra!
Se soubessem quanto nos custa ser isso. Que fardo e que dádiva, que tarefa árdua e sem descanso, linda! Que asa e que cadeado. É na nossa carne que todos os desejos latejam abortados; é dos nossos olhos que oceanos inteiros se salgam e se alagam; é das nossas mãos cheias de nada que se descrevem todas as palavras – e elas têm se estar assim, vazias, para poderem conter todas as coisas que não têm. É dos nossos destinos o desfecho bom, só imaginado. Porque não é da nossa natureza tomar a nada! Nada que não queira vir sozinho. Se soubessem o quanto nos custa não querer morrer de sede em frente ao mar, mas mais ainda ter compaixão o bastante, para dar de beber da própria saliva no saciar a sede de outrem!
Assim nós somos. Nada podemos fazer senão aceitar resignadas a conviver com o todo da verdade do que sentimos e sabemos não poder vingar. Coisas que enxergamos, descrevemos mas não vão mudar. Destinadas a ocupar os palcos, as páginas, nuas, sempre nuas aos olhos do mundo que nos devora cada sensação, quando nos entende! Confortemo-nos. Umas às outras. É só o que realmente temos: essa impressão de já nos termos visto antes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Leio.