Pesquisar este blog

1 de out. de 2008

Primeiro de Outubro - Para Roberta. Betta Doe.

Será que foi ele quem nos trouxe até aqui? Pegou nossas mãos, vazias e foi nos conduzindo nesta jornada? Será que foi quando pensamos demais, medimos demais, nos apegamos de modo desesperado às nossas certezas? Talvez tenha sido naquele momento em que nos perguntamos: e se eu largar tudo e for, simplesmente for? O instante do arrepio na espinha, de medo, de hesitação. Nosso coração na corda-bamba, em cima do muro, dividido em 3? E ele ali, chamando, oferecendo alento. Ofertando a palavra desistência em vez da palavra paixão. Nosso coração trapezista, fazendo malabarismos para não cair no chão, que o atrai, enquanto fixa os olhos no céu, que o distrai!
Será que foi ele quem nos convenceu do contrário daquilo que mais nos imantava? Nos pôs algemas nos pés, como escravos atados ao porão dos navios negreiros; presos dentro da embarcação que mais nos enjaula que nos transporta ao próximo solo firme. Foi ele quem traduziu navio, viagem, mudança de país em cárcere? Nós o deixamos fazê-lo? Chamamos por ele, dissemos seu nome?
Terá sido esse algoz o responsável direto pelo caminho evitado, pela aventura não-tida, pelo vasto beijo roubado que, por ser roubado, era o maior dos infindos? Um único. Inesquecível. Gravado na lembrança boa que poderia nos ocupar agora. Terá sido ele quem nos cerrou lábios, secou águas, rasgou fantasias, pôs dívidas nas cômodas, nas mesas de cabeceira, para se pensar, em vez de deitarmos pensando em cenas proibidas.
Foi ele quem nos mostrou que não somos tanto a ponto de sermos independentes? Que não teríamos coragem, atitude, iniciativa, não seríamos guerreiras? Foi ele que nos batizou, por acaso, a ponto de nos sentirmos crentes demais para aventar a possibilidade do pecado? Justo nós, que tanto sabemos sobre sermos apenas e infinitamente humanas?!
Porque creio que tenha sido ele, que destampou todas as lágrimas, posteriormente. Quando lembro, quando penso, quando visito meus desejos mais segredados, ela vem no lugar da outra: lágrima em vez de saliva. Sal em vez da doçura dos lábios imaginados. Quando volta, quando isso me pega de novo, quando esbarro numa memória, num objeto que pertença àquela história mal-acabada, sem ponto final que situe...quando me deparo com aquele nome na ponta da minha língua, língua vã que não se deu àquela gota que queria tanto sorver...; quando me deito e não durmo; quando varo noites insone, quando uma imagem me assombra na presença virtual que vem e desaparece dali, tal como faz comigo dentro. Quando decido esquecer e não esqueço. Quando a lágrima derrama-se rosto abaixo...; e mesmo que um súbito sorriso interrompa seu caminho, ela salga e reafirma que veio para ser sentida - essa dor. Essa tristeza. Esse abrir-mão do que se queria tanto. Mesmo interrompida, é lágrima.
Será que repetiremos sempre a entrega a ele? Nos deitaremos ao lado dele para continuarmos cabendo na vida que temos, no espaço da cama destinada apenas ao descanso? Ele tem tanto poder assim sobre nós? Tem? Nos acostumamos a tê-lo como se tivéssemos a um capataz. Servis, submissas, não-nossas. Entregamos nosso amor-próprio a outrem? E este, que o detém, é justo merecedor? Sabe cuidar do nosso amor-próprio-vendido? É digno de nossa desistência? Este que nos conserva “santas”, reclusas, recatadas...ele é bom o bastante para que nos compense a paga?
E desde quando? Acima de tudo, desde quando? Quando foi a primeira vez que ele, o abandono, nos tomou a nós mesmas das mãos? Teríamos nós nos auto-abandonado primeiro, chamando-o assim de dentro, do fundo, para perto – um sentinela? Será que é ele que nos isenta de culpa? O abandono? Porque se o chamamos, o trouxemos das profundezas à superfície, se fomos nós a permitir sua vinda, é hora! Hora de o mandarmos de volta ao lugar de onde jamais deveria ter saído. Hora de sermos irmãs das outras de nós que nos habitam. Hora de lavarmos o espelho, olharmos fundo para o que somos. Quem somos. Quantas. Conhecer cada uma, como amantes umas das outras: profundamente conhecidas, íntimas. Talvez juntas, todas, perfaçamos uma, uma apenas. Livre!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Leio.