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25 de out. de 2008

Respondendo...

Sim, a letra de ‘Só (De Quatro)’ trata de paixão virtual. Te explico, já que perguntaste. Assunto que, aliás, vem a contribuir com a reflexão de outros que têm questionado a isso. Pessoas que analisam, avaliam e se questionam a respeito de si mesmas diante de tal experiência.
Confesso que não vislumbrava viver uma relação, fosse qual fosse, virtualmente. Não me via capaz. Não julgava possível ‘sentir’ pela internet. Sentir de fato como se sente de perto. Eis que entrei numa Comunidade em que pessoas se aproximaram e foram ficando ‘amigas’. Umas poucas com coisas afins. Arte, casamentos, filosofias. Formou-se um grupo pequeno, porém assíduo: marcando presença diária uns nas páginas dos outros. Fazendo parte, perguntando como estava a mãe de um, o emprego do outro, a situação de um terceiro, como havia sido um show meu...enfim, coisa de gente próxima, envolvida. Disso, passamos a nos importar uns com os outros. Acompanhando de longe os grilos e dramas, as vitórias e sonhos. Uma doença familiar gerava a prece coletiva; a vontade de que a música saísse da gaveta e ganhasse rua, gerou a cumplicidade dos demais que, além de pedirem cds, mostravam, passavam adiante, trazendo mais ouvintes; os poemas de uns, lidos por todos; o livro escrito de outro, sendo acompanhado à distância no seu lançamento na Bienal. Assim, a coisa toda foi vindo. E percebemos que sentíamos saudades uns dos outros, diariamente. Parecia que ficava algo faltando se não passássemos ali pra ver todo mundo. A troca foi se intensificando e ficando real mesmo.
Estava curtindo. Achando de certa forma brilhante! Caiu feito luva! Porque eu, sendo avessa a visitas inesperadas, gente demais, excesso de convívio, estava quando queria, saía quando cansava e estava protegida pela tela. E isso em muito me agradou. Mais ainda quando vi que, melhor: pessoas já com coisas em comum. Sem a necessidade longa e demorada de se fazer aos poucos as trocas em encontros escassos do dia-a-dia. Pessoas hoje não têm tempo e disposição pra se verem, conversar horas, fazer história. Ali, tudo estava pronto: o fato de pertencermos todos à mesma Comunidade, nos fazia já ter muito em comum. A velocidade da troca, o imediatismo da resposta, a possibilidade de variados horários que não requereriam idas e vindas, como acontece aqui: tempo para vir trocar de roupa, para sair, atravessar a cidade, chegar no lugar, voltar de táxi tarde da noite...enfim, a internet possibilita encontros velozes e pontuais!
Parceiros chegaram a questionar como podíamos sentir falta de quem nunca vimos! Coisa que viemos a discutir, claro! E quando vi, já estava dentro. Já sentia falta, vontade de ver, de ouvir, de saber se a prece havia resultado, se o livro tinha sido bem aceito,...assim! Eis que um dia recebo o primeiro telefonema. Nossa! Ouvir a voz é quase trazer a pessoa pro real! Demais! Surpreende, sempre! Lindo! Ótimo! Porque parece reafirmar o laço. Nesse instante, a pessoa que era só um “quadradinho”, como diz a amada Roberta, vira uma voz que se reconhece. Lindo!
No meio dessa coisa toda, veio a ‘Paixão Virtual’. Bom, ficou inevitável assustar-me. Aí também já era demais pra minha cabeça! Mas fazer o quê? Consultar as bases, lógico! Pessoas que viveram isso, tinham o que dizer, sabiam do assunto. Consultei a Amada Prima Carol: conheceu Marcus numa Comunidade, ele no Japão, ela aqui. Ele veio pra Taubaté meses depois, onde tem família. Ela foi conhecê-lo. Ele veio morar em Porto. Deu tudo certo. Hoje ela espera o Theo, terceiro Sementeiro. E são ultra-felizes!
Bom: admiro demais a pessoa em questão! DEMAIS! Uma das primeiras coisas que eu questionei, foi: bem, como é possível, sentir coisas sem estar perto? E, surpreendendo-me, respondeu: a ânsia pelas coisas pode ser tão boa quanto as coisas em si. Eu, tonta, limitada, achava que para sentir era preciso estar junto. Para haver ‘química’. Não, não: estava enganada (ainda bem). Assim como se dera com amizades, igualmente foi ótimo ter a experiência do ‘encantamento virtual”.
Meses se passaram. Algumas amizades ficaram grandes. Muitos telefonemas, algumas pessoas já conhecidas pessoalmente, tudo ficando firme e forte. Inclusive a paixão. Porque admirar é a primeira base. Admiro. Muito! Cada coisa, cada percepção que vejo, me faz admirar mais. Sinto falta da ótica que tem das coisas; sinto necessidade da forma que tem de ver, de receber, de analisar, de discutir assuntos; da sensibilidade apurada, da entrega aos sentimentos, da leveza e da doçura, da forma ímpar que tem de mudar de jeito, assim, sem mais. Da risada franca, da lágrima franca; da honestidade e da transparência; tudo isso ainda virtualmente falando. Apesar de virtual. Nos ouvimos sempre. Presenciei por áudio, o choro, o riso, a alegria do presente recebido, a saudade dos dias longe, os sonhos em comum, as histórias de vida. E, a cada ‘encontro’, mais admiro. Quanto mais ouço, mais pasmo. E dentro desse convívio, guardadas as proporções, declaro que sim, é possível sentir! Hoje sinto respeito, admiração, carinho, saudade, sinto falta, sinto vontade de ver. Quero realmente que encontre felicidade, que descubra futuro, tenha saídas, seja mais, cresça, possa. A ponto de eu querer fazer mais por. Ajudar. Fazer parte de.
A música, voltando a ela, foi feita por 4 pessoas numa noite de roda de viola. E estava já determinado que partiria das palavras “só de pensar”. Me soou na hora uma coisa bossa-nova. Mas bastou acionar a paixão e veio a letra. Que é isso: só de pensar, só de não-ter...só imaginar e não-fazer...entendeste agora?
Então: admiro quem se permita ‘sentir seja como for’. Quem solte amarras, refaça conceitos, reveja dicionários, amplie termos, estenda capacidades, aprenda a despeito da idade, venha driblando obstáculos, faça embora não possa, cause emoção a quem já julgava ter sentido tudo. O grande tesouro da experiência em si, é a auto-descoberta através dos olhos do outro. Aprendi, descobri, experimentei, ousei, deixei o medo de lado, a desconfiança, os preceitos antigos e delimitados que sempre podem ser alterados pra melhor. E ter aceito a isso tudo, somou muito, mas muito ao que havia. Sou muito mais hoje do que era 3 meses atrás. Ouço outras coisas, leio, recebo, discuto, troco, ganho, apreendo, solto. Admiro justamente porque foi ela quem me tirou daquele mundo menor e me trouxe, via-paixão, a um novo: estéreo! Meu mundo era Mono. Admiro porque ela me ensinou a sentir presença, sentir mesmo!, estando longe. Mostrou quanto é possível estar perto de longe. Disse coisas que eu nunca tinha ouvido. Cometeu gestos que ninguém no mundo teve a idéia de ousar. Partilhou comigo experiências abençoadas por Deus, espirituais, nunca antes partilhadas – as minhas eram sós. Sintetizou idéias em 3 ou 4 palavras de modo a causar inveja aos melhores escritores que leio. Quebrou preconceitos meus. E, para completar a beleza toda, ainda me tornou alvo das minhas próprias canções! Num gesto ímpar e irrepetível, mandou-me a letra de Silêncio e Liberdade como sua declaração de amor a mim. Precisa mais? Ah, precisa? Então tá: tem mais! Com ela, eu exerço de novo a Teoria do Todo. Isso, hoje, virtual, vem a ser exatamente a ânsia, aquela ânsia da Teoria...lembras? Insuportavelmente Maravilhosa! Linda, perfeita! E, atenta para o detalhe: eu escrevi e Teoria. E ela, está me ensinando a vivê-la na Prática do Todo.

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