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22 de dez. de 2008

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Não, não foi proposital. Ainda estava ligada àquilo. Àquela presença, àquele fantasma, ainda cuidava, media, prestava atenção à quantidade de dias, à demora das horas em passar. Não foi planejado. Não sabia que tu virias. Não chamei, não projetei pro futuro, não procurava. Me ocupava em esquecer. Em deixar sair de mim. Nem havia elementos, fogo e terra, nem vaga-lumes, tardes. Estava lá, ainda estava, como quem amputa um membro e o sente ali, entendes? Nem havia sorrisos interrompendo aquela tristeza toda, inteira, aquela dor que não passava por mais que eu tentasse esquecer. Agora não, há lágrimas ainda, volta e meia há, te confesso. Mas elas são adiadas pela tua presença que entra e toma conta, me tira do instante triste, me devolve ao que quero de mim, para mim. Agora evito a tristeza, busco redenção. Não havia a intenção, foi natural e solta a vinda disso agora. De repente comecei a notar que não notava mais o tempo que havia passado. Tua velocidade é tanta, que não percebi ausências, coisas que costumava fazer e não estava mais fazendo ali. Tua presença é tão imensamente leve e forte ao mesmo tempo, que não vi, mas até coisas e pessoas das quais sentia falta, não fizeram falta. Nem os hábitos, nem as trocas, nem as manias velhas.
Não foi proposital. Mas não poderia ser mais bem-vindo, mais perfeito: esse “me segue”! Esse poema deixado ali para ser continuado ou respondido, tomado ou disparado, sentido ou sonhado. Sim, te sigo! Me segue! Aqui e lá, nas tardes e nas outras horas, em instrumentos alheios e teclas apagadas, nos nossos pontos de encontro segredados. Segue sendo, poetizando, porque a isso, eu realmente não esperava, com isso eu não contava: que viesse alguém que ultrapassasse o já feito, o já ousado, o gesto último de um acerto adivinhado numa declaração de amor via música minha. Não julgava possível que viesse alguém capaz de compor a sua, diversas vezes, todas novas e muitas...! Criar com quem cria. Andar com quem anda. Viajar com quem viaja. Viver com quem vive. É mais que troca, é comunhão: a palavra plural. Tua. Minha. Não foi proposital, eu apenas te achei. Ou me achaste, não sei. E não importa. Só importa ficar assim, deixar que sejas tu enquanto nenhuma lágrima vem. Que seja eu enquanto as tuas secam ao calor do fogo.

Necka Ayala. 21.12.2008. 24h09

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