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17 de dez. de 2008

Sentidos

Há pessoas que nascem sem fala. Vêm quietas de dentro do ventre da mãe: não choram ao sair pro mundo. E outras que nascem com voz e vão se calando ao longo do tempo, emudecendo lentamente, palavras rareando até sumirem de vez.
Há pessoas que nascem sem ouvir. Envoltas num silêncio inteiro, saem de dentro do ventre da mãe sem ruídos, interferências, vozes alheias. E outras que vão ensurdecendo a medida que vivem – parecem buscar o silêncio: melhor e mais são do que são os sons das coisas e das outras pessoas.
Ainda há aqueles que chegam sem ver nada. Saem de dentro do ventre da mãe tateando o caminho. Não chegam a surpreender-se com a cena fora do útero, nem a assustar-se. Outras que nascem vendo e vão cegando aos poucos, como se não gostassem do que há para ser visto e pudessem viver tateando a vida e os novos caminhos.
Porém quase não há quem venha sem tato e sem paladar. Porque o toque, a carícia, o desejo, a certeza de estar tocando algo, tudo isso é parte da natureza: não se pode viver sem toque. Tanto quanto não há quase ninguém que venha sem paladar, porque talvez seja crucial sentir o gosto do alimento, provar, sorver, degustar. E ambos os sentidos têm a ver com a essência mais forte das coisas que somos. Bichos. Dentro do ventre da mãe, havia o toque e havia o gosto do alimento vindo dela. Havia o contato ancestral e o gosto de tudo que ela provasse, oferecendo por dentro ao filho que se formava.
Até sem poder mover-se, sem poder raciocinar e sem possibilidade de aprendizado, tem vindo gente. Mas quase nenhuma, se é que existe, que venha inapto a sentir gostos e a receber carinhos. Talvez porque nos tenham dito que somos bichos também, porém diferentes porque pensamos, seguimos crendo nisso quando, na verdade, está aí essa constatação clara: Deus nos fez assim, deixou à vista esse detalhe da criação perfeita de tudo quanto fez. Não nos privou do tato e do paladar – por que?
O pensamento, o raciocínio lógico, a inspiração poética valem tanto? Só porque podemos ser inventivos, criadores de máquinas, grandes pensadores, poetas, superprofissionais, será que o pensamento é tão valioso? Parece que as duas coisas sem as quais não se pode continuar, são o carinho e o alimento. Então, usando do pensamento somado ao que vejo, ao que ouço e usando da fala que me compete, concluo que ainda assim, manejando outras aptidões que vieram comigo do ventre, é preciso entender que na superfície dos dedos, na pele fina da língua e na sapiência infinita de Deus, é que somos o mínimo denominador comum: seres para os quais o toque e o gosto das coisas, é que é vital.
Não podemos ver Deus. Não nos compete conversar, ter fala com Ele. Nem ouvir sua voz nos nossos ouvidos. Mas quando a água nos envolve, na textura da folha, na comodidade da grama, no raio de sol que nos aquece a pele, podemos tocar Deus. No colher do fruto que nos preenche a boca, no gosto do vinho que nos embriaga e alimenta, no sabor das coisas sorvidas com gosto, podemos experimentar Deus. Há pessoas que saem do ventre por uma fresta mínima possível, sem crer em Deus. Ou nascem crendo, mas diante da chegada das coisas entristecedoras, na ameaça das coisas temíveis, na força dos vendavais e da solidão, vão descrendo, criando um outro útero onde se fechar para sempre: um sem carícia e sem alimento – sem sentido.
2006.

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