Depois que saíste ficou um silêncio inteiro e uma dualidade. Parte era o mesmo fogo aceso, a mesma vontade acrescida do dia de hoje. À menção das tuas palavras, aquilo que imagino ainda causando sensações que já têm a tua assinatura, tua letra bem feita. Dentro do silêncio, ficou comigo a impressão dos teus gestos, vistos mais nitidamente, com leveza, mais horas e mais clareza. Parte, a outra, se viu em silêncio ainda marejada, comovida pelo que conseguiste deixar claro. Tua insistência em me fazer ver o que vês, em me fazer acreditar no que vês, acabou vencendo minha teimosia e alguma imagem viciada dos meus espelhos. Depois que saíste, eu refletia e me deixava sentir o que tinha vindo com esta tarde. Era, a um mesmo tempo, pele e lágrima. Numa mesma tarde tuas palavras e teu olhar profundo, trouxeram à tona água doce e água salgada, numa mistura inédita de sensações aparentemente paralelas que nunca se encontrariam. O silêncio durou pouco, muito menos do que eu precisava. Mas as sensações foram comigo, quando decidi desligar o mundo, os aparelhos, a razão. Era final de tarde. Na janela que vês atrás e mim estava a árvore rendida ao vento, trazendo pra dentro do quarto pétalas amarelas. Fiquei ali alguns segundos. Menos do que gostaria. Deixaria o vento secar minha cara. Se pudesse escolher, teria continuado assim, acesa e encantada, ligada e comovida. Não pude. Ainda não dona do todo da minha liberdade. Desliguei tudo. Fechei os olhos e tentei lembrar apenas. Fazia frio. E eu estava assim, deixada por ti nesse estado duo, como nossas duas cidades, nossos dois monumentos, nossos dois climas. Parte de mim veio de rio, parte de mim maresia. Nesse instante, tu, já não estavas, mas eu era ainda mais, tua.
NA. 06.01.2009
NA. 06.01.2009
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