Existe sim, eu vi. E durou tempo o bastante pra me provar que sim. Vi cada detalhe nítido, presente. Eu sei o que vi. Pressentia antes, antes de tudo, nem sabia que seria do jeito como foi, mas sabia que chegaria essa hora em que não veria mais a leveza permanente, impossível! Não era possível que fosse sempre assim, desse jeito leve, simples, altruísta. Claro que não. Sim, era Bela antes a face que via. Nua sempre, sem máscaras, eu sei. Só que de algum modo eu sentia que aquela não seria sempre assim, tão solta, planando livre num céu azul sobre o mar, feito paisagem perfeita em demasia. Nem poderia. Seria postal para olhos de visitantes estrangeiros...foto feita, planejada...entendes? De alguma forma, dentro, sentia que viria uma outra cena, uma beleza legítima de maturidade, da idade que tens de fato, inscrita no desenho do tempo à tua face reta. Tinha de haver uns fios mais brancos misturados, uns traços, umas cicatrizes. Coisas que o teu tempo decorrido esculpiu em ti. Sentia isso! No teor das tuas palavras. Não seria possível escreveres como o fazes sem teor, sem o sabor do fel dos enganos percebido de leve, dentro do gole. Eu lia. E sentia haver qualquer coisa grave ali. Qualquer coisa a ver com uma ida de Dante ao próprio inferno. E a dor. Humana. Existe sim, eu vi! E é lindo! É lindo ver brotar de ti uma outra água, redentora! Entende a isso, redentora! É lindo ver a quietude te tomando, te rendendo também: entende a isso, o que te prendia, te rendeu. Se pôs à tona dos teus olhos caídos diante de mim. Foi comigo que isso se deu. E dos meus também brotaram lágrimas antigas comungando as tuas. Teu coração gasto, o meu exposto. E estava linda a tua cara assim, lavada; dada a um banho de sal, apoiada sobre tuas mãos que tiravam lágrima por lágrima numa calma acolhedora da mais pura redenção. Tu, aos pés do Redentor, imperdoada; eu envolta no monumento daqui, um Laçador. Tu, revelada às tuas partidas tantas; eu, revelando a ti meus abandonos. Foi lindo. Estavas linda assim, eu sei, eu vi. Não podes contestar aquilo que vejo. Não posso discutir aquilo que vês. Num outro dia três, olho no olho: será espelho e te mostrarei o que vejo, me mostrarás o que vês. Água do mar, água dos olhos, misturando tudo como temos feito. Menos um dia agora. Inteiro. O tempo parece não passar, no entanto não pára, como teus passos não param, como minhas palavras não param nem te esquecem. Estamos indo. Hoje dormiremos cedo. Mais leves do que ontem, mais próximas de um amanhã que vem vindo, calmo, paciente e otimista, vindo sempre, embora não pareça...como nos vêm os sonhos, os poemas, os perdões, os encontros e todos os esquecimentos que merecemos.
NA. 05.01.2009
NA. 05.01.2009
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