‘Filhos da ânsia da vida por si mesma’. (Khalil Gibran)
Primeiro és matéria. Antes de tudo. Física, movimento. Encontro de duas partes que se buscam atraídas, que se movem à custa da atração que as leva uma à outra. Fecundam-se, nasces tu. Matéria. Antes de qualquer sentimento, de qualquer pensamento, de qualquer informação. Um dia terás do coração os sentimentos e, da tua cabeça, a razão. Virão depois ocupar essa carne já amadurecida pelo tempo que a forja, a delineia, a desenha. E pela tua carne feita pelo tempo, nos traços que marcou, nos ossos que moldou, na cor dos teus cabelos, na textura da tua pele, nas cores que terá, é que se darão desejos, vontades, fomes, beijos. Do que virem em ti, na tua matéria, é que nascerão ou não, sentimentos, afetos; como da tua cabeça vivida, sairão filosofias, modos de pensar, bandeiras a defender. Antes de tudo, és matéria. És força vital, natureza, elemento! E serás sempre integrada assim, por ciclos, marés, luas, forças e estações. É no teu sangue que pulsará teu desejo por outra matéria humana. É nos teus pêlos que se verá a reação à presença de alguém que chega e modifica a atmosfera ao teu redor. É dos teus olhos que brotarão lágrimas de saudade ou de alegria. É da tua boca que virá à tona a saliva do beijo dado. Dos teus dentes a mordida noutro lábio. No teu corpo a inquietude da falta ou da fome de alguém. Matéria! Tentarás explicar o que sentes com pensamentos; buscarás respostas ao que não entendes, pelas filosofias; defenderás o que queres com argumentos empunhados de ser pensante à postos, orgulhosa de teres herdado de Deus, o dom do pensamento. Mas Ele te fez antes disso, carne, ossos, sangue, águas, tecidos, músculos, temperatura, gosto e cheiro – matéria! Deixarás teu coração querendo e tua cabeça gritando o contrário. E tua natureza vencerá sem discutir com eles. Alheia. Autônoma. Independente de todo resto que te distraia. Poderás te ater ao coração, sentindo, te permitindo fixar atenção sobre isso. Como poderás te deter em argumentações e te agarrarás a elas como salvação urgente. Ainda assim, da tua natureza brotará a verdade mais nua. E como vendaval, como maremoto, como tempestade, como verão intenso, como chuva farta, nada a deterá de ser o que é. Nenhum argumento detém o pêlo que se levanta; nenhum sentimento impede a vazão das águas. Porque mesmo depois de nascida, ainda és e sempre serás filha da ânsia da vida por si mesma. A vida quererá ser exercida em si mesma. E é na tua carne, física e movimento, que ela te dará o todo do que sejas tu, do que desejes tu, do que sintas tu e do que queiras contigo.
NA. 22.01.09
Primeiro és matéria. Antes de tudo. Física, movimento. Encontro de duas partes que se buscam atraídas, que se movem à custa da atração que as leva uma à outra. Fecundam-se, nasces tu. Matéria. Antes de qualquer sentimento, de qualquer pensamento, de qualquer informação. Um dia terás do coração os sentimentos e, da tua cabeça, a razão. Virão depois ocupar essa carne já amadurecida pelo tempo que a forja, a delineia, a desenha. E pela tua carne feita pelo tempo, nos traços que marcou, nos ossos que moldou, na cor dos teus cabelos, na textura da tua pele, nas cores que terá, é que se darão desejos, vontades, fomes, beijos. Do que virem em ti, na tua matéria, é que nascerão ou não, sentimentos, afetos; como da tua cabeça vivida, sairão filosofias, modos de pensar, bandeiras a defender. Antes de tudo, és matéria. És força vital, natureza, elemento! E serás sempre integrada assim, por ciclos, marés, luas, forças e estações. É no teu sangue que pulsará teu desejo por outra matéria humana. É nos teus pêlos que se verá a reação à presença de alguém que chega e modifica a atmosfera ao teu redor. É dos teus olhos que brotarão lágrimas de saudade ou de alegria. É da tua boca que virá à tona a saliva do beijo dado. Dos teus dentes a mordida noutro lábio. No teu corpo a inquietude da falta ou da fome de alguém. Matéria! Tentarás explicar o que sentes com pensamentos; buscarás respostas ao que não entendes, pelas filosofias; defenderás o que queres com argumentos empunhados de ser pensante à postos, orgulhosa de teres herdado de Deus, o dom do pensamento. Mas Ele te fez antes disso, carne, ossos, sangue, águas, tecidos, músculos, temperatura, gosto e cheiro – matéria! Deixarás teu coração querendo e tua cabeça gritando o contrário. E tua natureza vencerá sem discutir com eles. Alheia. Autônoma. Independente de todo resto que te distraia. Poderás te ater ao coração, sentindo, te permitindo fixar atenção sobre isso. Como poderás te deter em argumentações e te agarrarás a elas como salvação urgente. Ainda assim, da tua natureza brotará a verdade mais nua. E como vendaval, como maremoto, como tempestade, como verão intenso, como chuva farta, nada a deterá de ser o que é. Nenhum argumento detém o pêlo que se levanta; nenhum sentimento impede a vazão das águas. Porque mesmo depois de nascida, ainda és e sempre serás filha da ânsia da vida por si mesma. A vida quererá ser exercida em si mesma. E é na tua carne, física e movimento, que ela te dará o todo do que sejas tu, do que desejes tu, do que sintas tu e do que queiras contigo.
NA. 22.01.09
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