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22 de jan. de 2009

Meio

Metade desse caminho é tua. Metade dessa tua boca é minha. De metade das coisas que sou, parti. Metade do que sinto agora é noite agora é breu agora é silêncio e nunca estás. Metade de mim acredita e duvida, quer e se despede, mescladas estão todas as coisas dentro vivendo em harmonia dissonante melodicamente lembradas por trilhas de cenas imaginadas e canções que pertencem a outras vividas, poucas...destemidas, recentes, insuspeitas como tudo que vem de ti. Insuspeito, foi isso! Eu nem sabia que viria e veio. Assim, do nada, sem aviso, sem anunciação. Ninguém te anunciou. Minutos antes, eu quis um aroma que me fizesse sentir em casa. Um que comungo contigo o gosto, a textura. O fiz. E chegaste. Metade desse sabor é teu. Metade daquela noite. Coisas que ficaram pela metade em ti. E entre nós, pela metade, em mim não-iniciadas, não-permitidas. Metade de mim te deseja, a outra nada quer mais. Que fique assim, eternizada essa lembrança vaga...nem sei se tive, não tenho certezas. É como jardim – há vida ali. A espera. Há natureza ali. A espera da chuva legítima ou da mão que generosa venha trazendo água e regador. Metade dessa natureza está feita e me coube. Feito um caminho que andei minha metade, meu trecho, até aqui. A outra metade desse caminho é tua. Como a metade dessa tua boca foi minha, derramada sobre a minha, numa noite que nem sei se existiu. Já inventei a estrada e a percorri. Atravessei a porta, alcei um novo vôo abismo acima para fora dos teus olhos que me acertaram em cheio quando eu nem olhava mais. Metade do que vejo o tempo todo é a tua cara. Em tudo. Mas é só uma metade. Todas as demais estão contigo...e eu não estou. És livre agora. Esta nova porta te receberá quando quiseres. Eu sou, livre. Solta na metade dessa madrugada insone, podendo não fazer mais nada a não ser ser metade tua ainda sobre a chuva fina que cai sobre a cidade agora.

Necka Ayala. 22.01.09 – 4h55

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