É que ando beirando o silêncio, como se beira às bordas de um abismo qualquer ali a frente. Como se espreita a canção ainda não feita, o poema ainda não escrito, o gesto ainda não cometido. É que há momentos em que nada há a ser dito, em que só o silêncio descreve o que a falta de palavras quer dizer. É que ando observando a noite que sempre se aproxima diferente, deitando o pano azul escuro sobre tudo, sobre todos, sobre cada coisa e todas elas. A noite se espalha sobre os montes, sobre os mares, sobre os corpos sós e os contentes. E eu ando beirando a quietude como o beijo beira os lábios antes de pertencê-los. E um instante-antes, um prenúncio do que virá. Ainda incerta de qual destino, venho beirando estradas e seus acostamentos. E é quando sopra um vento que deita a relva e a movimenta, é quando a chuva beira a nuvem que se escurece contra o claro do céu do dia, é ali...naquele instante em que me encontro. Me vejo, me percebo ainda beirando a hora, como se fosse o círculo dos relógios beirando ponteiros – o tempo...esse Deus portador de todas as respostas, que beira meu entendimento.
Necka Ayala. 19.02.09
Necka Ayala. 19.02.09
que lindo, necka!
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