Quisera, na paixão ser assim, mesmo que ninguém entendesse do que trata meu desejo. Assim como o vento que move a pétala, por necessidade, nele, de seu próprio movimento e pelo gosto que ele mesmo sente, em tocá-la. Quisera exercer a paixão como a vejo quando ela se mostra, como o sol que deita sobre a superfície da folha, não para aparecer ou parecer tamanho: mas pelo deleite de cada raio seu em pousar sobre o verde que o contrasta e pelo sabor que ele sorve dali, enquanto se ocupa de senti-la. Quisera tornar possível que cressem, que meus lábios é que tinham razão de ser, quando pousados sobre outros. Que não estavam ali para conceder prazer a outros, mas para comungar contentamento em serem o que eram, estarem onde estavam, tendo ao que tinham. Quisera deixar claros seus motivos, sua entrega à beleza do instante, sua rendição ao irresistível daqueles, sua intenção em completar sua missão divina em ser, em estar, em partilhar e em conhecer. Que ficasse nítido o regozijo da pele em estar com outra, quando pêlos levantassem e, assim, revelassem sua presença denunciando a existência da vontade. Como as pétalas e as folhas se movem à presença do vento, que eles também se movessem ao ar quente do suspiro mais profundo, anunciando movimento, vida pulsando ali. Quisera que a paixão se assemelhasse sempre à devoção mais pura. E se nutrisse de assistir, encantada, à passagem do outro. Que se embebedasse do gosto dele, se enebriasse do cheiro que traz consigo, contaminando o ar que se respira. Mas que fosse sempre assim, um arrebatamento, um seqüestro da razão, uma queda abismo adentro, inevitável. E que se desenvolvesse a olhos abertos, à luz do dia, regada à verdade simples da admiração pelo que vê. Que não coubessem argumentos, mas sentidos e que não houvessem certezas, mas convencimentos. Para que estar ali, fosse simplesmente a única coisa a ser feita, a querer ser feita, a poder ser feita na hora mais urgente de todas, a hora da gota, na sincronicidade do encontro e toda. Quisera que a paixão fosse levada a sério, fosse crível, fosse visível como de fato é, mas lhe desdenham. Para que cada elemento conseguisse desenterrar seus talentos, exercitar sua essência, permitir sua vida sendo vivida. Que o fogo da vontade extremada acendesse quando iniciado, que o vento da falta de fôlego soprasse forte quando acelerado, que a água vertesse farta quando liberta, que a terra sob os pés tremesse quando provocada. Assim quisera que entendessem a paixão e a deixassem durar por muito tempo, na paciência de ter, de cada momento, seu todo. Um de cada vez, na medida e no tempo natural de cada um. Como se do verão, tirássemos todo entendimento sobre o fogo do sol; como se do outono, entendêssemos mais sobre a necessidade da nudez da terra; e do inverno conhecêssemos melhor a intenção do vento em movimentar a tudo para aconchegar de novo; e da primavera pudéssemos voltar as mãos ao regar das flores e dos frutos que nos brotam e colhê-los. Quisera deixar o amor para mais tarde...quando a paixão estivesse feita plena, toda concebida em comunhão e deleite das partes, para vir a verter-se num outro todo, do amor que lhe é conseqüência e destinação.
Necka Ayala. 17.02.09
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17 de fev. de 2009
Pretérito...Mais Que Perfeito, do Indicativo.
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Quisera eu poder ver poetas escreverem com tamanha beleza, arrebatada, erguida aos altos céus. Quisera que o mundo visse e percebesse o quanto são mágicas, estonteantes e redentoras as tuas palavras. Ao presente/pretérito mais-que-perfeito eu brindo! Sempreesempre.
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