Cada um escolheu o caminho que trilha agora. Cada par de passos dados por pares de pernas que desconheça ou saiba, anda, se move indo ao encontro do que escolheu para si, para outras, para o encontro com outras, com as suas – suas noites, suas esperas, suas esperanças, suas promessas. Cada um vislumbrou um rumo, uma direção, um ritmo para sua jornada. E foi. Cada par de olhos observou o que se mostrava diante deles e escolheu assim, por um, por nenhum outro, nenhuma outra. Cada boca teve nos lábios todos os gostos e só quis manter vivo sobre eles, pulsando, um único, um apenas – nenhum outro mais. Cada desejo sentido, cada par de mãos escolheu um destino, um corpo para exercê-lo e foi a ele. Mãos que desconheço ou sei, que imaginei ou tive – estão lá agora, indo ao encontro do que quiseram para si. E as minhas...as minhas escolheram este. Mudaram tudo, viraram a mesa, abriram os olhos, deixaram vir. Minhas pernas escolheram este curso torto, inesperado, tido no íntimo sem ter sido visto, contemplado. Meus olhos escolheram esta paisagem, estas fotografias que ainda fariam sem saber. Minha boca antecipou o gosto pelo qual se viciaria eterna e intensamente, cada vez mais. Meu desejo trouxe minhas mãos até aqui, para torná-las sãs, fazê-las tuas. Minha escolha, meu caminho, meu dia agora é todo teu. E estava certa. Eu estava e minha escolha. O todo do que me é agora alheio, assente. Todos os olhos concordam, todas as bocas confirmam, todas as mentes atestam a verdade e ninguém mente. Estava certa, estava certo e essas portas, todas tuas, todas abertas me convidam...vem, entra, fica à vontade. Estavas perto e eu não via claro, mas sentia e era. E toda profundidade do que tenho, toda a vastidão do que derramo agora te revela, te oferece vida depois da tua vida, depois da espera. Te chama à dança e te conduz os passos...danças, sem querer, comigo. Sobre meu corpo que segue indo na tua direção, te moves e te deixas livre, muito mais do que jamais foste. Não eras. Apenas ensaiavas, ensinavas ao teu corpo os prévios desacertos para que ele, antes, conhecesse o caminho inverso e soubesse de antemão como corrigir o curso e ser ele, o todo do que desconhecia e já queria. Escolheste este. Vieste ao meu. Tuas pernas te trouxeram até aqui e a mim, onde estás a cada noite mais perto, mais dentro, sempre mais. Abriste esta porta e adentraste ao que ela te sugeria. Agora andas, passos firmes, penetrando o desconhecido como quem tem certeza de cada milímetro do que terá. Tua boca entra contigo, tateando o espaço, provando gostos, sorvendo gotas que são tuas, que brotam a cada gesto teu, como se cavasses poços e, deles, te embebedasses a despeito do dia seguinte que virá. Feito vinho branco preenchendo a taça, transbordando a ela, solta, escorrendo por sobre o vidro claro que te contorna. Teus olhos mudam de cor a cada hora que muda o que são e o que vêem. Teu desejo te sustenta o corpo, o faz seguir sem sono e sem descanso, à procura de mais e é sempre mais além enquanto é noite. Tarde...madrugada adentro estamos ali...nesse rumo, nessa escolha, nessa direção com o céu imenso que nos sobrevoa. É quando nos vemos, de repente, em meio a uma cena qualquer desesperada, faminta, inesperada, linda. E, nesse instante, próximo do todo, é nele, precisamente nele, que temos nuas todas as certezas.
Necka Ayala. 11.03.09 - 9h
Necka Ayala. 11.03.09 - 9h
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