Eu não me despeço das coisas que sinto. Não posso fazê-lo, não há razão pra isso, nada que me convença a fazê-lo. Porque as coisas que sinto não precisam ter fim. Eu não aceito o fim das coisas. Não me desfaço de fotografias de pessoas que amei, nem delas. Tê-las amado, fez de mim algo melhor. Tê-las querido o bem, me fez mais do que eu tinha. Olho para elas, pessoas que tive, com as quais estive, pessoas que amei porque era inevitável, porque eram apaixonantes demais ou ternas demais...pessoas que vieram para ficar gravadas como que a ferro e fogo, nas coisas que se forjavam em mim. Pessoas que amei tanto quanto mais perdões nos concedemos, e mais despedidas, e mais adeuses, e mais compaixão. Não amputo de mim essas partes somadas, que tiveram vida, que se moveram, que me moveram. Algumas trazidas com suas marcas de cicatrizes; outras levadas na leveza de um adorno, enfeitando o que trago, o que tento ser, contagiada pela beleza delas, interna, eternizada; amigos, e foram muitos, são, com os quais vi estradas, mares, partilhei mesas, com alguns com quem sentei à beira de lagos, ao calor do fogo, às rodas de violão. Amores que senti e que continham também outras facetas, outras caras. Pessoas mais velhas que tive como mestres, às quais admirei com um amor de vida toda, ancestral; crianças que vi nascer de toda pureza e amei, imediatamente.
Não meço as coisas que senti, porque elas não acabaram ainda. E nunca o farão. Olho, observo as cenas vividas como se assistisse a um filme. Com aquela atmosfera de tempo, de trilha sonora ao fundo, que sempre rodou na minha cabeça. E mesmo quando senti dor tamanha que não mais cabia em mim querer sentir mais nada, ainda assim, posso olhar agora, de novo voltar meus olhos para essas também, porque não se guardam as dores – os risos persistem mais e o entendimento. Somos todos iguais, por dentro, por fora, nas horas em que amamos, nas que desistimos de exercer amor. Quando ferimos, são as mesmas mãos. Quando recolhemos lágrima, também. O tempo passa, consome os dias e leva com ele quaisquer ressentimentos. Hoje, posso olhar para tudo que sinto com o meu consentimento.
E ainda que minha boca tenha deixado de querer sorver ao que ia aos lábios de outras, minha boca profere palavras de nostalgia e doce recordação, pelos momentos em que lhe coube querer. E ainda que meu corpo esteja longe dos corpos de meus amigos, talvez para um ‘para sempre’ imprevisto, meu corpo relembra cada abraço como se estivesse lá, perto, novamente. Ainda que meu sangue tenha se afastado dos que levam nas veias o mesmo sangue, meu nome leva com ele a história, o dna, inscrito até o fim.
Olho para tudo, para todos, de longe agora. E sinto amor, apenas um amor embalado pelos braços quase recorrentes das lembranças. E não vejo por que não ser assim, uma soma imensa de coisas boas sentidas, vividas, minhas! Com orgulho de tê-las vivido, com orgulho de ter aceito à chegada de cada uma, tanto quando pediram coragem, como quando pediram para ficar pouco tempo. Olho para tudo, para trás. E sorrio para as coisas que sinto, mesmo as que não sinto mais. Sorrio para meu passado, como se sorri mais uma vez diante de uma roupa querida e antiga que não serve, mas que sabemos quanto foi usada e confortável sobre a pele. Não me desapego das coisas que sinto. Apenas sinto mais. Sigo indo assim, de peito aberto, a cada dia um tanto mais. E quanto mais coisas posso sentir quando outro dia nasce, mais caras e mais ricas se tornam as outras. Porque são como anfitriãs que recebem as novas – lhes abrindo espaços, oferecendo o assento melhor, fazendo parte do todo. O todo do que eu seja, fui e ainda serei.
Necka Ayala.17.04.09
“Sinto o abraço do tempo apertar e redesenhar minhas escolhas...” (Abril, Adriana Calcanhoto, por Leila Pinheiro)
Não meço as coisas que senti, porque elas não acabaram ainda. E nunca o farão. Olho, observo as cenas vividas como se assistisse a um filme. Com aquela atmosfera de tempo, de trilha sonora ao fundo, que sempre rodou na minha cabeça. E mesmo quando senti dor tamanha que não mais cabia em mim querer sentir mais nada, ainda assim, posso olhar agora, de novo voltar meus olhos para essas também, porque não se guardam as dores – os risos persistem mais e o entendimento. Somos todos iguais, por dentro, por fora, nas horas em que amamos, nas que desistimos de exercer amor. Quando ferimos, são as mesmas mãos. Quando recolhemos lágrima, também. O tempo passa, consome os dias e leva com ele quaisquer ressentimentos. Hoje, posso olhar para tudo que sinto com o meu consentimento.
E ainda que minha boca tenha deixado de querer sorver ao que ia aos lábios de outras, minha boca profere palavras de nostalgia e doce recordação, pelos momentos em que lhe coube querer. E ainda que meu corpo esteja longe dos corpos de meus amigos, talvez para um ‘para sempre’ imprevisto, meu corpo relembra cada abraço como se estivesse lá, perto, novamente. Ainda que meu sangue tenha se afastado dos que levam nas veias o mesmo sangue, meu nome leva com ele a história, o dna, inscrito até o fim.
Olho para tudo, para todos, de longe agora. E sinto amor, apenas um amor embalado pelos braços quase recorrentes das lembranças. E não vejo por que não ser assim, uma soma imensa de coisas boas sentidas, vividas, minhas! Com orgulho de tê-las vivido, com orgulho de ter aceito à chegada de cada uma, tanto quando pediram coragem, como quando pediram para ficar pouco tempo. Olho para tudo, para trás. E sorrio para as coisas que sinto, mesmo as que não sinto mais. Sorrio para meu passado, como se sorri mais uma vez diante de uma roupa querida e antiga que não serve, mas que sabemos quanto foi usada e confortável sobre a pele. Não me desapego das coisas que sinto. Apenas sinto mais. Sigo indo assim, de peito aberto, a cada dia um tanto mais. E quanto mais coisas posso sentir quando outro dia nasce, mais caras e mais ricas se tornam as outras. Porque são como anfitriãs que recebem as novas – lhes abrindo espaços, oferecendo o assento melhor, fazendo parte do todo. O todo do que eu seja, fui e ainda serei.
Necka Ayala.17.04.09
“Sinto o abraço do tempo apertar e redesenhar minhas escolhas...” (Abril, Adriana Calcanhoto, por Leila Pinheiro)
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