E embora eu tenha querido deixar o Amor para mais tarde, ele não assentiu que assim fosse. Veio de onde eu não pousava os olhos, de um lugar que não fitava, num instante vazio que se fez novo. E foi quando eu abrira asas, quando eu ensaiava abrir vôo, saltar abismo adentro finalmente livre. E foi para causar espanto, para não ter conceitos, para desconstruir palavras gastas. Veio para reaver sua morada em mim, recém entregue a proprietário algum, que já nenhum a queria habitar e nem eu. E apesar de eu ter adiado a vinda do Amor, ele chegou de malas feitas, passagem comprada, destino assegurado e portas previamente abertas. Adentrou o espaço que ele mesmo tratara de preparar sem alardes, enfeitou as paredes e arejou os cantos onde eu guardara uns escombros, tratou de desfazer-se de vestígios, resíduos, lembranças do passado, do tempo em que ele não pudera ser quem era. E embora eu tenha evitado olhar-lhe os olhos, o Amor fixou-me como alvo. Sem dizer nada, sem gestos bruscos nem promessas feitas, ficou ali me vendo ser quem eu era sem ele. E num silêncio leve, como num rito, fez sua oferenda e me fez dele uma outra vez. Apesar de eu ter agendado o Amor para outra vida, porque nesta já não julgava mais possível exercê-lo, o Amor tinha hora marcada, depois das certezas das quais se munia. Veio, apenas veio. Como vem a morte, inevitável.
Necka Ayala. 28.04.09
Necka Ayala. 28.04.09
Cara colega,
ResponderExcluirseu blog é maravilhoso e tua escrita divina. Foi um prazer receber tua visita ao nosso blog. Sempre respondemos aos comentários por lá mesmo.
Seja sempre bem-vinda!
E viva o amor, querida Necka!
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