Estava lavando vidros. Esperando respostas de Deus. Contando com a fé que me fortalece e me renova a cada dia, a cada dia mais necessária, mais urgente, mais vital. Estava pensando no sonho que tive à noite, com minha irmã, Silvia. No sonho, chorava no colo dela, sempre próxima, sempre presente. Não vivemos assim, perto uma da outra. Não nos foi dado o convívio de irmãs, nem o acompanhamento dos gestos, o aprendizado da palavra ‘irmandade’. Mas de alguma forma, tentamos nos manter ligadas, teimosas que somos, a despeito das distâncias que nos tornaram ainda mais longe.
Estava lembrando do poema dela que me emociona e me derruba cada vez que leio. Tanto, que nunca mais quis lê-lo. “Te empresto agora mus brinquedos...”. Isso me lava a cara a cada vez que o vejo. Estava pensando nisso, no tempo e no efeito que ele faz, nas coisas que dissipa, nas transformações que provoca. Ela vai fazer 46 e eu, 1 mês depois, farei 45 anos. Nossas sobrancelhas são iguais, como nossos risos. Ela dança divinamente, e escreve e desenha e cria coisas para enfeitar a casa. Eu toco, escrevo troços, faço caixas para guardar coisas queridas. O tempo e a distância não nos desligaram. Nos fizeram identificar, apesar dos entraves, o que temos em comum pelo sangue, sim! Mas principalmente pela alma, pelo coração que nos guiou as escolhas.
Hoje partilhamos faltas, equívocos que assistimos diariamente, ausências e uma dose excessiva de desamor. Observamos a isso pasmas, enquanto trocamos verdades das quais jamais fugimos. Olhamos à nossa volta e entendemos que nunca houve ambiente para nossa irmandade abortada sem nosso consentimento. Ela não vingaria ali. Mas vingou de outra forma, escrita em outras línguas que desenvolvemos por nós mesmas. Uma silenciosa às vezes, de olhar apenas e, simplesmente, compreender.
Estava assim envolta quando tocou a campainha. Era uma caixa de sedex, pequena, na qual não reconheci a letra. Dentro dela, mimos muitos com a cara dela: 2 rosquinhas que só ela sabe fazer, 1 pastel, chocolates, um lenço preto (cor favorita dela) e uma carta escrita à mão. De repente, minha irmã estava aqui, perto. Na carta, ela diz sentir falta de nós, do que conseguimos ser uma com a outra, uma para a outra. E do café que dividíamos nas longas conversas. Estava olhando cada coisa que veio dentro da caixa. E havia uma menção de lágrima nos meus olhos. Eles já não são tão fartos como antes, choram menos, possuem menor apego. Molharam de saudades e de outro entendimento. De que o amor encontra por onde escoar livre, sabe como revelar-se mesmo que em sigilo, acha jeitos de acarinhar, mesmo que à distância. E eu espero, porque pedi a Deus ontem à noite na Missa, que logo eu tenha como rever aos que amo e que estão longe agora. Estava ajoelhada diante D’Ele, de olhos fechados, suplicando que Ele me ouvisse, quando senti que isso será feito – Ele me ouviu. Tanto, que agora, ao meu lado aqui, há uma caixa amarela e a presença clara de minha irmã.
Necka Ayala, para Vica. 06.05.09
Estava lembrando do poema dela que me emociona e me derruba cada vez que leio. Tanto, que nunca mais quis lê-lo. “Te empresto agora mus brinquedos...”. Isso me lava a cara a cada vez que o vejo. Estava pensando nisso, no tempo e no efeito que ele faz, nas coisas que dissipa, nas transformações que provoca. Ela vai fazer 46 e eu, 1 mês depois, farei 45 anos. Nossas sobrancelhas são iguais, como nossos risos. Ela dança divinamente, e escreve e desenha e cria coisas para enfeitar a casa. Eu toco, escrevo troços, faço caixas para guardar coisas queridas. O tempo e a distância não nos desligaram. Nos fizeram identificar, apesar dos entraves, o que temos em comum pelo sangue, sim! Mas principalmente pela alma, pelo coração que nos guiou as escolhas.
Hoje partilhamos faltas, equívocos que assistimos diariamente, ausências e uma dose excessiva de desamor. Observamos a isso pasmas, enquanto trocamos verdades das quais jamais fugimos. Olhamos à nossa volta e entendemos que nunca houve ambiente para nossa irmandade abortada sem nosso consentimento. Ela não vingaria ali. Mas vingou de outra forma, escrita em outras línguas que desenvolvemos por nós mesmas. Uma silenciosa às vezes, de olhar apenas e, simplesmente, compreender.
Estava assim envolta quando tocou a campainha. Era uma caixa de sedex, pequena, na qual não reconheci a letra. Dentro dela, mimos muitos com a cara dela: 2 rosquinhas que só ela sabe fazer, 1 pastel, chocolates, um lenço preto (cor favorita dela) e uma carta escrita à mão. De repente, minha irmã estava aqui, perto. Na carta, ela diz sentir falta de nós, do que conseguimos ser uma com a outra, uma para a outra. E do café que dividíamos nas longas conversas. Estava olhando cada coisa que veio dentro da caixa. E havia uma menção de lágrima nos meus olhos. Eles já não são tão fartos como antes, choram menos, possuem menor apego. Molharam de saudades e de outro entendimento. De que o amor encontra por onde escoar livre, sabe como revelar-se mesmo que em sigilo, acha jeitos de acarinhar, mesmo que à distância. E eu espero, porque pedi a Deus ontem à noite na Missa, que logo eu tenha como rever aos que amo e que estão longe agora. Estava ajoelhada diante D’Ele, de olhos fechados, suplicando que Ele me ouvisse, quando senti que isso será feito – Ele me ouviu. Tanto, que agora, ao meu lado aqui, há uma caixa amarela e a presença clara de minha irmã.
Necka Ayala, para Vica. 06.05.09
"Havia ali a presença toda sã de minha irmã e coisa mais que azul.
A lua lua lua lua lua lua sobre um pinheiro do Sul..."
Queda D'água - Caetano, cd MEL, Maria Bethânia.
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Leio.