Pesquisar este blog

3 de abr. de 2009

Para Shey

E este céu que agora se parece comigo, com o que me vai por dentro, parece espelhar, refletir, desenhar em si mesmo o que pareço. Pareço comigo, mas não sou eu. Quando vejo a imagem que passa, por acaso, diante de algum vidro, uma janela, uma vitrine, existem semelhanças, poucas, é verdade. Reconheço a veste, não mais o corpo que tem. A cabeça raspada, mas não é o mesmo traço desenhado por horas pelas mãos que caçavam perfeição. Passa alguém ali, que me lembra de mim, que já não sou aquela e ainda não cheguei a que serei. Disseste da inteireza...não a tenho ainda. E é como se houvesse mais de duas partes agora. Uma que ficou lá, outra que partiu e está aqui, mais uma que nem está lá, nem aqui. Chove muito. E se essa chuva lavasse os pecados que penso ter cometido, será que haveria redenção? Será que Deus, enquanto troveja, escuta algum pedido? E se essa água toda que jorra solta neste instante, lavasse-me os olhos, será que eu veria o que procuro? Onde está? Para que lado fica o ponto em que quero chegar? E se essa corrente que se forma às ruas levasse embora todas as dúvidas, será que eu descansaria em poder escolher? Não sei qual de mim é a que mais gosto, a mais querida, a mais confortável. E este céu agora se parece com parte de todas, onde todas se encontram chuvosas com uma fresta qualquer de azul aberto, algum laranja pode ser visto ainda, ao fundo.
Ninguém é inteiro se não pode expressar seu todo. Se algo confina, algema, limita espaços aos passos e contorna uma jaula imaginária, observando qualquer movimento libertário. Não, não me deixei enjaular por sentimentos, mas por escolhas feitas no passado. Escolhas de fé, de confiança no que viria, no que mereceria depois de tanta lágrima escorrida cara abaixo, quanto há de chuva agora escorrendo pela vidraça. Houve tanta tristeza e tanta dor, houve tantos banhos de sal no meu passado, que julguei inocentemente que mereceria que a vida, apenas, pudesse virar, de repente, para um curso corrigido, flutuando em água doce. Mas ser feliz não tem merecer. Talvez seja um acaso, um acontecimento feito notícia passageira. Nunca me iludi que felicidade durasse mais que seu instante de ignição. E só ele. Mas supus, baseada na fé que ainda tinha em Deus, que sempre que virasse a chave, digna e corretamente, haveria nova ignição. Nem sempre há. Agora, palavras e pessoas passam sem coerência, promessas e atitudes passam sem eficácia e eu me vejo dependendo do pouco que me resta em mim, insistente em querer vida – e se essa vida estiver somente ali, onde ainda a vejo, no colorido par de olhos que me fitam? E se eu ainda estiver trazendo sintomas crônicos de amores incurados e isso também passar, como passa a chuva? E se esse céu abrir, amanhã cedo e tudo for simplesmente diferente? Será que será a vida voltando ou mais um silêncio de Deus que eu nem sei direito se Ele é Ele ou se sou Eu’s?

Necka Ayala. 04.04.09

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Leio.