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21 de mai. de 2009

Planador

Quando parti buscava o vôo mais rápido, um jato qualquer de destino, para o qual fosse lançado meu corpo, minha cabeça pesada, assim, como quem se joga de repente, querendo mais, mais, muito mais. Buscava a velocidade da luz, que cortasse os dias, que fizesse diferença, que tornasse algo efetivo. Queria a mudança brusca de tudo, que virasse a mesa, que movesse coisas com a força da vontade. E veio, por algum tempo, esse turbilhão – durando dias. 15. E eu ia. Apenas ia, dentro daquilo tudo, daquele mar de construções, empilhadas verticalmente, umas por trás de outras e de mais muitas. Um olhar sem horizontes. Era como um labirinto e eu lá, tentando achar caminho onde os caminhos estão por baixo da terra, submersos em vagões lotados de outros como eu. Saíra do azul, estava no cinza. No Moinhos o céu todo se azulava de tal forma, que acabara crendo que a vida era assim mesmo, daquele tom, daquela possibilidade eterna de delicadeza. Mas ela não havia vindo mais. Não havia mais dela no meu entorno, nem mesmo dos gestos que eram meus. Parti para um vôo inadivinhável, ainda sem exercício o bastante de bater de asas. Mas queria e isso bastava. E o que fiz foi atravessar bairros sem vê-los, mergulhada ali, em meio a todo o mundo, gente do mundo todo, de todas as línguas brasileiras. Depois, foi como se uma vara de pescar gigante me tirasse dali, sem mais nem menos. Um seqüestro do tempo, uma fenda dele, por onde passei sem perceber. Tanto, que passar pela fenda acabou sendo o próprio vôo e rompeu, de verdade, a luz. Às cegas, deixei que fosse desse modo. Soltei as asas no vento, deixei assim, que fosse. Queria saber onde daria. E não é nem azul, nem cinza agora. É um espetáculo de cores o céu que se abre diante de mim todos os dias. O dia rompe às 5h40, colorindo o espaço como se deixassem cair pincéis e borrasem um tanto de cada cor, meio de qualquer jeito. É lindo. E plano. Há vôos ainda. Mas é como se agora eu planasse pelo céu inteiro que nunca vira antes de outro lugar. Asas abertas ao seu extremo, olhos abertos ao que posso suportar ver. Plano, sobrevôo o que fui e me despeço ainda que tardiamente. De cima, o passado parece ter sido menor do que foi e mais simples, delineado num sem-querer de escolhas igualmente às cegas. Foi sem querer também que acabei chegando aqui, a essa sensação de planador. Os planos eram outros, outros corpos e outros destinos. E a felicidade é quase tão plena quanto a existência de um Deus, que não se vê, se sente e se acredita, ainda puramente, ainda bem, porque ambos existem.

Necka 21.05.09

Um comentário:

  1. Nossa, estou simplesmente mergulhada em um mar de palavras nada banais... Sem comentários... Tudo de bom!!

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