Por mim, podia chover hoje. O céu ameaça mas não se derrama, se nubla mas não goteja, mormaça mas não basta. Por mim, podia ser hoje, o dia em que nada mais segura nada. Sinto fome de soltura, feito folha na superfície lisa da água, caída ali, apenas isso. Indo ao sabor do vento, sem direção traçada, sem motivo aparente, sem companhia alguma. Por mim podia ser agora o instante vazio, aquele que vem antes da abertura do presente, aquele que passa, nunca fica: ou se vive, ou se vai. Por mim podia ser esta noite, toda palavra não-dita, saindo desavisada, chegando qual ventania. Por mim, podia entender hoje. Como se entende, assim, de repente, uma metáfora bem feita, um sinal do Criador, um gesto de delicadeza, um carinho de filho – do nada, sem esforço, sem tristeza, sem melancolia. Por mais que eu viva, há tanto que não entendo! Por mais que eu sinta, há tanto ainda por dentro! Por mais que esquente, não chove nunca nessa cidade plana, a despeito dos meus planos de aconchego e silêncio. Por mim eu pairaria caída como folha, no colo manso das palavras silenciadas – mais nada.
Necka. 08.07.09
Necka. 08.07.09
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Leio.