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3 de set. de 2009

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Há outros, poemas, há. Que se inscrevem em vez de se escreverem, na superfície às vezes tênue da pele, nos arranhões e nas carícias; há aqueles que se aderem à superfície reflexa das retinas, e outros que se confundem nas tramas aleatórias dos pêlos; há outros sim, que tudo têm a ver com a fome, a sede, a espera e a ânsia mais legítima de quem viveu de um arremedo de vida. Mas poemas, às vezes, também são arremedos. Forjam sensações e as descrevem como se as conhecêssemos profunda, vastamente. Se as conhecêssemos, as estaríamos vivendo em vez de escrevendo. Poemas querem falar da vida que não vivemos.
Lá fora, agora, o céu se tinge de chumbo e anuncia a chuva. Lá longe, agora, um leito espera por mim e um outro corpo. Não sinto fome, ainda não, de nada. Nem dos poemas que fazia, nem das promessas de coisas que não deram em nada. Sinto, apenas, um gerúndio em vida, indo, indo, indo, sempre mais além e ao próximo instante possível, sem fome, mas inteiramente saboreado. Sem pressa – não a tenho mais. Dentro de mim, uma certeza de futuro que não havia. Uma lembrança do passado que já manteve meus olhos abertos, mas passou. Passou porque só há o dia de hoje e ele guarda parte de suas horas para o sabor que aguardo apenas, sem ânsia. O que te virá ainda, será a colheita simples, trivial de um fruto. E a ele, com certeza e com alegria, poderás dar o nome de merecimento. Se sabes amar assim como descreves em poesias, espera! Confia! Virá o dia em que tua língua se deleitará de encontros em vez de errâncias. E pousará suave sobre o sumo da vida em si, mais nada.

Necka. 03.09.2009

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