Não, eu não sabia.
Meus olhos vinham ocupados de imagens, presenças, lembranças, vestígios, quase digitais. Vinham tentando dar alguma nitidez ao tudo que viam, confusos com tanto, imersos na profusão desvairada da multidão que não passava, não saía da vista, não dava descanso. Era muita gente que ali estava, que se auto-gravava na retina, que se perpetuava nos gestos, nas tentativas quase que indecentes de deixar seus rastros nas minhas calçadas. Não, eu não entendia. Minha cabeça estava acesa de uma luz intensa e sobre-humana – havia palavras demais, cartas, poemas, revelações, confissões quase que imprudentes. Eram corações demais em desvario, em solidão perpétua há tempos e mais tempos - sem confidentes. Eu os ouvia. E estava atenta, molhava os olhos de tristezas que nem eram minhas, como que comungasse com todos as dores de todos que eram quase iguais, que eram todas gêmeas e se mostravam nuas diante dos abismos imaginados que nunca vinham. Queriam jogar-se e não podiam – não havia nada ali, apenas suas vontades, suas ânsias por asas e ventos devastadores. Aqueles corações portavam impulsos, já tinham coragem, sentiam-se prontos. Mas faltava o motivo, uma outra mão estendida do outro lado, acenando ‘vem’. Não, eu não conseguia arrumar espaço pra tanta coisa que enxergava, que observava, sempre contemplando muito além do que me permitia o entendimento. Meus olhos vinham lotados, minha cabeça encharcada de lágrimas de amigos, de salivas inúteis e solteiras de beijos imaginados. Mas estava ali, me espreitando. Por um momento, em legítima defesa, eu tive de abrir a porta e atravessar com passos quase incandescentes. O chão abaixo de mim quase incendiava a cada metro vencido. Era um despedir-se e era, a um mesmo tempo, um novo parto de mim mesma, do qual eu era a mãe, desta vez. Desta vez não haveria a quem culpar nem a quem agradecer – só haveria a mim, num futuro, se ele viesse, se eu vingasse. Ali, naquele momento, sobre as asas que eu mesma esculpi de mim, quando vislumbrei o azul sobre outro azul, do mar aos pés das montanhas, foi ali que meus olhos começaram a soltar o que levavam. Foi ali que minha cabeça começou a desvestir as máscaras alheias que guardava. Naquela hora e meia, suficientemente longa, foi como se de dentro pudesse emergir um novo coração quase todo solteiro, beirando a virgindade tardia, querendo uma adolescência fora de hora, longe de casa, uma fugitiva. Meus olhos precisaram que assim fosse, para que te vissem. Talvez eles já soubessem. Eu?, não sabia. 9 meses mais tarde, devidamente parida, minha outra vida se anuncia pronta para a sua vida. Se exerce, se auto-fascina, se conhece. Observa-se em frente ao espelho e se espanta ao ver que viver é de fato, melhor que sonhar. Ainda cabem, em meus olhos, faces, cenas, imagens, fotografias. Ainda visitam a minha cabeça as histórias que me contaram, contam, ainda sim. Porém, aquela que fui hoje se acresce de mais do que conhecia. De coisas que não descreve porque é inútil descrever uma alegria, toda ela, nua e sem fantasia. É outro céu agora. É outro dia e amanhece, quase, eternamente.
NA. 29.10.2009
Meus olhos vinham ocupados de imagens, presenças, lembranças, vestígios, quase digitais. Vinham tentando dar alguma nitidez ao tudo que viam, confusos com tanto, imersos na profusão desvairada da multidão que não passava, não saía da vista, não dava descanso. Era muita gente que ali estava, que se auto-gravava na retina, que se perpetuava nos gestos, nas tentativas quase que indecentes de deixar seus rastros nas minhas calçadas. Não, eu não entendia. Minha cabeça estava acesa de uma luz intensa e sobre-humana – havia palavras demais, cartas, poemas, revelações, confissões quase que imprudentes. Eram corações demais em desvario, em solidão perpétua há tempos e mais tempos - sem confidentes. Eu os ouvia. E estava atenta, molhava os olhos de tristezas que nem eram minhas, como que comungasse com todos as dores de todos que eram quase iguais, que eram todas gêmeas e se mostravam nuas diante dos abismos imaginados que nunca vinham. Queriam jogar-se e não podiam – não havia nada ali, apenas suas vontades, suas ânsias por asas e ventos devastadores. Aqueles corações portavam impulsos, já tinham coragem, sentiam-se prontos. Mas faltava o motivo, uma outra mão estendida do outro lado, acenando ‘vem’. Não, eu não conseguia arrumar espaço pra tanta coisa que enxergava, que observava, sempre contemplando muito além do que me permitia o entendimento. Meus olhos vinham lotados, minha cabeça encharcada de lágrimas de amigos, de salivas inúteis e solteiras de beijos imaginados. Mas estava ali, me espreitando. Por um momento, em legítima defesa, eu tive de abrir a porta e atravessar com passos quase incandescentes. O chão abaixo de mim quase incendiava a cada metro vencido. Era um despedir-se e era, a um mesmo tempo, um novo parto de mim mesma, do qual eu era a mãe, desta vez. Desta vez não haveria a quem culpar nem a quem agradecer – só haveria a mim, num futuro, se ele viesse, se eu vingasse. Ali, naquele momento, sobre as asas que eu mesma esculpi de mim, quando vislumbrei o azul sobre outro azul, do mar aos pés das montanhas, foi ali que meus olhos começaram a soltar o que levavam. Foi ali que minha cabeça começou a desvestir as máscaras alheias que guardava. Naquela hora e meia, suficientemente longa, foi como se de dentro pudesse emergir um novo coração quase todo solteiro, beirando a virgindade tardia, querendo uma adolescência fora de hora, longe de casa, uma fugitiva. Meus olhos precisaram que assim fosse, para que te vissem. Talvez eles já soubessem. Eu?, não sabia. 9 meses mais tarde, devidamente parida, minha outra vida se anuncia pronta para a sua vida. Se exerce, se auto-fascina, se conhece. Observa-se em frente ao espelho e se espanta ao ver que viver é de fato, melhor que sonhar. Ainda cabem, em meus olhos, faces, cenas, imagens, fotografias. Ainda visitam a minha cabeça as histórias que me contaram, contam, ainda sim. Porém, aquela que fui hoje se acresce de mais do que conhecia. De coisas que não descreve porque é inútil descrever uma alegria, toda ela, nua e sem fantasia. É outro céu agora. É outro dia e amanhece, quase, eternamente.
NA. 29.10.2009
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Leio.