É que fazia muito tempo que eu não sentia aquilo, aquela vontade de tocar com a maior leveza, a maior precisão, achando os acordes mais perfeitos e limpinhos. Fazia muito tempo que eu não lembrava quem era essa em mim, a que acompanha a voz de alguém com 6 cordas trançadas em duas mãos. São poucas as vozes que conseguem extrair da ponta dos meus dedos a delicadeza, a leveza devida, a harmonia mais exata. Fazia tempo, Clau, que eu não achava par, alma-gêmea na música. Que eu não era eu nisso, toda eu, podendo viajar nas notas, nos tempos. Já percebeste como é a única vez em que os deuses nos deixam brincar com o tempo, como se pudéssemos, ali, manejá-lo? Ali, amada, também podemos brincar de criar, como Deus. Fazia tempo que eu não virava uma noite dentro de uma cozinha, lembrando canções especiais, algumas bregas, outras líricas, outras ainda nem feitas. Contigo tive tudo isso, tive tua voz linda e intensa, tive a tua sacação e a tua inspiração desvairada – compusemos tanta coisa na loucura da noite, no ato voraz de fazer apenas mais uma. Contigo tive a mim de volta, como sou, solta e feliz por estar solta na música que nunca é de ninguém e é de todo mundo. Agora, sem querer, em pleno trabalho, achei uns CDs e, dentro deles, uns áudios da gente na tua cozinha, numa noite em que tomei um porre de Whisky, lembra? 6 copos cowboy. Lembro de tentar subis as escadas e elas parecem mover-se debaixo de mim. Lembro o que estava sentindo ali, naquele momento devastador: uma partida anunciada de alguém que eu já amava e não imaginava perder, nunca mais. Lembro que fizeste uma letra pra uma canção minha e eu fiz uma pra uma tua. Ambas eram pra mesma pessoa, nossa Fe. Lembro das tuas previsões e que eu não acreditei nelas. Subi as escadas trôpega, zonza, triste, feliz, bêbada de sentimentos muitos todos misturados, como nossas duas artes, tentando se re-compor. Lembro de ti sorrindo docemente como sempre. Ouço agora esses áudios e sinto uma saudade dilacerante – de ti, da cozinha, de Sampa, de nós todas ali, antes de tudo. Sinto saudade da tua voz, Clau Romano! Ela e meu violão exercido no instrumento da Loló. Saudades de um tempo vivido com tudo que eu não tinha mais. Eu fui mais ali do que jamais fora, porque fui livre. Saudades daquele momento, aquele instante vazio entre o passado e o futuro, do presente que foram os dias perto de ti, passando café e fazendo tua janta. Saudade é o peito dizendo pra onde a gente quer voltar. Saudade de ti, Clau! Te amo!
Necka; 04.02.2010
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Leio.