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8 de fev. de 2010

ConfINamento

Ali jazia o meu confinamento. Eu não sabia, mas era um sim. Vivia de adorar às paredes, de ajeitar as horas de modo que coincidissem com o que esperava; esperava. E odiava ‘esperar’. Mas amanhecia de novo, porque assim era e vinham mais esperas, sempre mais. Vivia no colo invisível de um amor reverenciado, cuja lenda fora mais real do que seus feitos. Era bonito de ver tanta aparente perfeição, duas pessoas tão...! E eu via. E esperava que assim fosse, que acabasse sendo, talvez, um dia.
Viviam em confinamento minhas canções incantadas. Guardadas nas gavetas simétricas e organizadas. Estavam também postas à espera pelo dia que jamais viria dali, daquele ventre infértil de tão oculto que habitava. Viviam ali palavras precisas, exatas, lapidadas – jamais compreendidas, aceitas.
Proferia teorias, pronunciava meus tratados, minhas poucas certezas e alguns ouviam atentos, buscando achar sentido onde eu achava. Diziam que eu havia vindo para dar respostas. Eu tinha certezas, algumas, previstas por um olhar contemplador, futurista, adivinhador, não sei e não importa.Eu vivia repetindo: faz hoje, diz hoje, sê hoje ainda, porque o amanhã não chegou e o ontem já mudou-se de vez para o passado irrevisível. A pressa era toda minha. A tinha, porque sabia que a vida se esvai em um segundo. Porque experimentara a sensação devastadora de, de repente, não ter mais, não ver mais, não ouvir mais, nunca mais. Numa terça-feira qualquer tinha sido assim, um telefonema e, mais tarde, naquela noite, minha Olinda se fora dela mesma. Eu dizia a tudo e a todos: hoje, faz hoje, diz hoje! Mas vivam confinadas em mim essas certezas.
Vivem, confinados também, uns sentimentos que andei vendo pelas cidades que andei. Ele existem e eu sei. Mas residem dentro, trancafiados, condenados à espera eterna do primeiro gesto de alforria. Escravos das ilusões de seus Senhores, restritos a mirar pelas frestas à vida que se dá lá fora, aos que saíram. Vivem confinadas as palavras não-ditas, às línguas. E de que servem essas palavras? Para quê vivem ainda? Esperam? Devem odiar esperar.
Agora a certeza da necessidade da pressa, de novo, confirmou-se. Mais um se foi de si mesmo. Num segundo solitário e irreversível, deixou de ser, quedou-se rente ao meio-fio e fez viúvas todas as palavras não-ditas que lhe seriam destinadas, todos os sentimentos escravizados e os perdões que poderiam ter-lhe dado. Ele, que dispensava as palavras, que se recolhia ao seu próprio confinamento, se dirigiu ao todo do que tentou ser enquanto vivia: 1 só. Eu sinto muito. Porque não sei se teve tempo de olhar nos olhos dos seus e dizer com todas as palavras quanto lhe eram caros, os seus.
Estamos todos confinados ao que não podemos prever, ao que desconhecemos. Esperamos a hora certa, a cena ideal para dizermos “quero”, “vem”, “sim”! Odiamos esperar e provocamos esperas. Tememos a irreciprocidade e não dizemos o que nos corre às veias. Nos entregamos às algemas das situações cômodas pois a elas, conhecemos bem. E eu não quero a vida em confinamento algum. Quero que meus passos me levem a ter de abrir as gavetas que faltam, que meus olhos não se contentem em mirar por frestas às vidas que foram mais além da minha. Não quero confinadas as palavras que dançam sobre uma língua morta, em esperanto. Nem quero que minhas certezas se confirmem num observar ao longe das vidas dos que amo ainda. É hora de abrir novas asas, alçar novos vôos, perder o controle outra vez. Hoje ainda, digo aos quatro ventos: sim, vida, te quero, vem!

Necka. 08.02.2010

6 comentários:

  1. Tão belo texto, mas não fostes feliz na finalização, esperanto língua morta? De onde você tirou isso?
    www.kurso.com.br
    www.esperanto.org.br
    www.esperanto.com
    www.lernu.net

    Eu poderia encher várias páginas de vários link´s ou email´s de pessoas que usam o esperanto todos os dias.
    Conceito de língua morta é aquela que não é mais usada, veja bem nem o aramaico ainda é considerado língua morta.
    Sem mais...

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  2. Pietro von Herts,já que sabes tão bem sobre o fato de o Esperanto não ser uma língua morta, e te parabenizo por isso,deverias estar mais atento ao uso da Língua Portuguesa corretamente e não usar o pronome "tu" misturado com o "você", muito menos colocar o "s" na forma verbal da 2ª pessoa do singular, do pretérito perfeito do indicativo. Para isso, não são necessários links, a mais simples gramática da NOSSA LÍNGUA MARAVILHOSA informa a respeito. Ah1! não se escreve o plural de link ou de email assim, mas links e emails, sem apóstrofo (tu não estás fazendo supressão de letra, e sim acrescentando uma).
    Ah2! Quanto aos textos do blog da Necka ( e outros fora dele), todos são belos ( com isso concordo de fato!). Sem mais... Rosângela Saad da Costa.

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  3. Reli o texto e suguei cada palavra dita. Precisão e certeza de que era assim. Coisa linda e verdadeira cada palavra tua dita ali. É sempre assim, às vezes não temos tempo de revelar o que verdadeiramente somos e acabamos por sermos solitários no nosso pensar e no nosso fazer diário. Que pena, não? Há tanto mais a ser dito sobre o que escreveste ali. Queria falar sobre, muito mais, mas não há, no momento, esse tempo.
    Um beijo, Rô.

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  4. Perdoa-me, Pietro, mas, neste caso, língua morta quer mesmo dizer Língua, não o idioma. E digo mais ali: que não quero ter uma língua morta dentro da boca, eventualmente falando num IDIOMA que quase não se fala, desconhecido da grande maioria, ficando, assim, confinado a alguns poucos entendimentos. Valeu?? NECKA

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  5. Em tempo: Rosângela Saad da Costa, Pietro, é uma das pessoas no universo, capazes de avaliar um texto. Tive o privilégio de conviver por 23 anos ao lado dessa PHD em Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Gostaria que te sentisses, como eu, grato pela colocação dela. Cabe a ti receber ao comentário dela com gratidão pela oportunidade de aprender mais, ou não. Assim como podes traduzir a palavra 'língua' como melhor apetecer. Necka.

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  6. Sim, agradeço pela aula, amo a língua portuguesa, apenas agora tenho a possibilidade de estudá-la (mesma sabendo que isso não justifica meu erro).
    Entendi seu ponto de vista prezada Necka, e muito obrigado pela resposta.
    Sem mais, Pietro.´.

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Leio.