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22 de fev. de 2010

In-crédula

“Os deuses são deuses
Porque não se pensam. “

Ricardo Reis

É que precisamos de alguma divindade. De algum encantamento, ainda que no fundo, ao centro, saibamos que não passa de um encantamento. Precisamos crer, ainda que nossa razão nos submeta a enxergar a olhos nus à realidade pouca e rasa que todas as coisas acabarão por revelar. É que carecemos de heróis e princesas, de fadas e varinhas mágicas, de 3 pedidos e 7 pulos por sobre 7 ondas. É que nos fere a lâmina fina e tesa das notícias, nos violentam os olhos as feridas nos corpos de quem amamos mais; nos aterroriza a possibilidade do fim, a coincidência que pode-nos tirar tanto; nos assusta a constância da dor e sua provável permanência quando desistimos. Precisamos ver algum desenho formado por nuvens no céu. Porque seria suportar demais se víssemos as nuvens como nadas pairando sobre nossas cabeças desassossegadas. Precisamos ver a flor nascer depois da rega e ver ali, no nosso gesto de participação, um começo de vida qualquer ao qual causamos. Precisamos dos pequenos milagres que os anjos protetores nos enviam vez em quando. Precisamos crer que tenham vindo deles, dos anjos. Porque a ciência é fria e é triste, simplesmente triste. Precisamos crer que sentimentos nasçam de algum lugar dentro do peito, porque seria banal mapear o cérebro e atribuir tudo que somos a um órgão só, de inteligência lógica – o que sentimos não pode ser vinculado à lógica, não é, por Deus, não é. E precisamos sentir mais do que pensar, sentir melhor do que fazer, sentir o que sentimos para ter pelo que existir. Precisamos de verdade, de coração, de alguma celestialidade. Precisamos acreditar na beleza que vemos, crendo que, ela, perdurará. Na verdade que trará toda justiça à tona, no gesto de última hora, no pedido de perdão legítimo, precisamos esperar que voltem atrás, que se redimam do que julgaram; precisamos da chuva sagrada do sábado de Aleluia, da prece decorada que, de tão repetida, leva consigo uma força sobre a qual nada sabemos, mas a temos! Precisamos da beleza, porque é ela que nos aproxima e nos atrai no primeiro instante, à primeira visão. Das caras adoráveis dos filhotes, dos gestos trôpegos dos bebês, das esperanças mais puras, porque tudo que é lindo nos convida à vida e não ao esquecimento. Precisamos do segundo crucial do abrir do presente, antes de saber o que há dentro. E da surpresa quando adivinhamos e era o que queríamos tanto! Também carecemos de frases feitas para o afago à alma, do “desta vez vai dar certo!”, do “Deus é grande!”. Precisamos dos apelidos dados, das alcunhas, dos nomes com os quais batizamos as pessoas que esperamos que sejam mais que pessoas, possam mais, sintam de modo diferente das outras pessoas. Precisamos de pessoas que mereçam ser chamadas de Sol, de Lua, de Anjo, de Bicho, de Meu Amor! Porque as pessoas não podem ser tão parecidas, tão semelhantes, se fomos feitos cada um, único. Não podemos viver sem acreditar piamente, que um dia chegará A pessoa, aquela que não trará terceiros para dentro do lugar de duas. Aquela que deixará agrados, mimos e objetos encantados pelos seus caminhos. Uma que dirá das nuvens as formas que tiveram no dia, porque as viu e atribuiu o feito de se desenharem às pinceladas de um Deus. É que carecemos de deuses que nem se pensem deuses, mas sejam, nem que seja só para podermos crer mais uma vez e em paz.

Necka - para PBF.

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