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22 de fev. de 2010

Short-Cut

Uma colega me contou que os presidiários esperavam ansiosamente pela chegada da novidade. Há muito privados de quaisquer festas gustativas, prazeres culinários, gestos infantis cuja maturidade condenada lhes furtara, esperavam no pátio do regime semi-aberto pela redenção! Era como aguardar a chegada de uma entidade, de uma aparição e, qual fossem todos crentes de nascença, esperavam com olhos brilhando e horas longas demais, cheios de fé. Viria, cedo ou tarde, viria! E minha colega também, ao mesmo tempo em que assistia, tornava-se cúmplice da cena, coadjuvante. Eis que chegou. Veio num caminhão, se não me engano, contado por ela. Alguns presos foram até lá, passos acelerados, braços prontos para conduzir a carga, finalmente. Seria possível imaginar que esperavam mais por ela, que pela data da toda liberdade. Chegara! E minha colega também assistiu a hora H. Contou-me ela, que foi lindo e ao mesmo tempo curioso, vê-los de novo experimentando atitudes de crianças, de inocentes, depois de tanto encarceramento e responsabilidade assumida. Vê-los festejar e levar nos braços, aqueles tonéis, com todo cuidado, com todo zelo...coisa que talvez não tenham tido pelas vidas alheias outrora. Vê-los conduzir em segurança a novidade tão aguardada, para que nada acontecesse de mal a ela, nenhum acidente, nenhum “tiro perdido”, nenhum atropelamento por embriaguez. Tampouco quereriam que algum furtivo reincidente tramasse de tirá-la de sua trajetória, como que seqüestrando deles, sua riqueza recém-adquirida por bons comportamentos. Enfim...chegara! Logo seria vendido ali, no refeitório dos presos. Fiquei ouvindo essa história e “filmando” dentro de mim...os detentos escoltando o sorvete...deve ter sido mesmo lindo de se ver.

Necka

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