“A felicidade, aos olhos de um poeta, parece uma mulher sem curvas”.
Que antes de ser capaz de escrever uma canção eu era carne. Que antes de conduzir uma harmonia, já era feita de carne. Que antes, muito antes de compor uma delicada e sugestiva melodia eu respirava e ouvia, tocava e sorvia, como competia à minha carne. Inconsciente, eu já sabia. E, se não, eu suspeitava. Porque meu corpo se acometia de uma inquietação às vezes. De umas insônias inexplicáveis, de uns andares pela cidade em plena perdição. Eu tinha tantas horas tontas, de vagar sem rumo, consumindo passos sem direção alguma, sem função. E ali, também, eu já era feita de carne. A não-felicidade me consumia a carne, me tirava o peso do corpo. E engordava as palavras e as viagens, os sonhos e as vontades de partir. Quando eu era infeliz, era poeta. Farta, vasta, intensa, louca, insana, incandescente e errante, toda eu! Empilhava letras sobre as pernas, colecionava músicas mudas dentro das gavetas. E vinham mais e mais a cada noite sem promessa. Eram necessárias para ocupar o que outra carne não fazia. Eu abraçava as palavras, beijava as folhas brancas que esperavam por mim e elas eram as únicas a esperar por mim e a me querer como eu as queria. E a carne, minha primeira identidade, gritou um dia mais alto que todas as palavras, pela palavra vivida. E saiu dali. Abandonou a poetisa tardia, as canções inaudíveis, as vontades solteiras. Subiu apenas e foi ganhando densidade de novo, pressão sobre seus átomos, ruídos de fato em seus tímpanos surdos. E isso eu também sabia, ou adivinhava, ou intuía. Que depois de ser carne novamente, não há palavras nem poesias. Que enquanto a carne suga o sumo da vida que lhe cabe, não há canção, nem uma. Há uma satisfação apenas e o silêncio inteiro do fim do dia.
N.21.06.2010
Que antes de ser capaz de escrever uma canção eu era carne. Que antes de conduzir uma harmonia, já era feita de carne. Que antes, muito antes de compor uma delicada e sugestiva melodia eu respirava e ouvia, tocava e sorvia, como competia à minha carne. Inconsciente, eu já sabia. E, se não, eu suspeitava. Porque meu corpo se acometia de uma inquietação às vezes. De umas insônias inexplicáveis, de uns andares pela cidade em plena perdição. Eu tinha tantas horas tontas, de vagar sem rumo, consumindo passos sem direção alguma, sem função. E ali, também, eu já era feita de carne. A não-felicidade me consumia a carne, me tirava o peso do corpo. E engordava as palavras e as viagens, os sonhos e as vontades de partir. Quando eu era infeliz, era poeta. Farta, vasta, intensa, louca, insana, incandescente e errante, toda eu! Empilhava letras sobre as pernas, colecionava músicas mudas dentro das gavetas. E vinham mais e mais a cada noite sem promessa. Eram necessárias para ocupar o que outra carne não fazia. Eu abraçava as palavras, beijava as folhas brancas que esperavam por mim e elas eram as únicas a esperar por mim e a me querer como eu as queria. E a carne, minha primeira identidade, gritou um dia mais alto que todas as palavras, pela palavra vivida. E saiu dali. Abandonou a poetisa tardia, as canções inaudíveis, as vontades solteiras. Subiu apenas e foi ganhando densidade de novo, pressão sobre seus átomos, ruídos de fato em seus tímpanos surdos. E isso eu também sabia, ou adivinhava, ou intuía. Que depois de ser carne novamente, não há palavras nem poesias. Que enquanto a carne suga o sumo da vida que lhe cabe, não há canção, nem uma. Há uma satisfação apenas e o silêncio inteiro do fim do dia.
N.21.06.2010
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