Não tenho mais guardado coisas. Nem diários escrevo mais. No dia em que fui embora do que chamara de meu a vida toda, algo me mim se rompeu, ganhou altitude, soltou os fios que levava. Não guardo mais embalagens de presentes, bilhetinhos de guardanapos, fotografias mal tiradas, sem foco. Entendi, a duras penas, que algumas coisas ditas, eram de fato para ficarem inúteis e sem validade até que quisessem entender por si mesmos, aqueles que ouviram. E não ouviram. Ficaram para trás as coisas que eu também esperava ouvir. E quando chegaram, encontraram meus ouvidos cansados das esperas, tantas...; chegaram tarde, perderam a viagem, me acharam mais só – mais minha. Eu era de tudo e nada era meu. Ouvia de todos e não dizia de mim, coisa alguma. Porque vinham no exercício de suas palavras, buscar o todo do meu silêncio e concordância. E quando partiam, esperavam que eu, em seguida traduzisse os fatos em poemas e letras de canção. Me dei conta de que vivia vidas alheias, que acompanhava, feito novela, o que se passava para além daquelas paredes. Escutava gritos de outras vozes, enxugava lágrimas de outros olhos – eu era de todos e ninguém era meu. Minhas, eram as palavras que caçava, por um tempo, até que eu as encontrasse e as usasse para vestir cenários de outros personagens, imaginados, muitas vezes. Mas não contava a minha história porque ela não vinha.
Quando parti, muitos me culparam. Quase ninguém disse, “vai!”. Ainda hoje, ouço quem me pergunte o que houve, cobre poemas e letras, queira que eu seja igual. Mas eu não escrevo mais diários nem trago lembranças de pessoas, quando pessoas não estão. Pessoas passam, como as paisagens vistas das asas e fotografias. Me encontro mais só, mais minha, de verdade. E ainda não sei como vestir palavras nas coisas que sinto agora.
N. 21.jun.2010
Quando parti, muitos me culparam. Quase ninguém disse, “vai!”. Ainda hoje, ouço quem me pergunte o que houve, cobre poemas e letras, queira que eu seja igual. Mas eu não escrevo mais diários nem trago lembranças de pessoas, quando pessoas não estão. Pessoas passam, como as paisagens vistas das asas e fotografias. Me encontro mais só, mais minha, de verdade. E ainda não sei como vestir palavras nas coisas que sinto agora.
N. 21.jun.2010
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