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12 de jul. de 2010

EXERCÍCIO

Me surpreende com aquilo que eu não preveja. Me aponta aquilo que não vi. Me arrebata com um beijo que eu não queira, com um beijo que eu não saiba dar ainda. Um inimaginado. Me ‘prende’ sim, usando de toda a liberdade de não saber se voltas, se volto eu. Porque isso é sábio, apenas sábio. E, se voltares, mesmo que venhas vestida de voracidade, disfarça! Não deixa que eu saiba, não me deixa ver, nem ter tantas certezas. Evita, em tempo hábil, beber os últimos goles da taça. Deixa sempre alguma coisa pra depois. Mesmo que ainda não possas saber se haverá um.

Alguma saudade é bem vinda! Intensidade não é o mesmo que demasia. Uma diz respeito a sentir intensamente um instante que pode ser único, findado ali mesmo. Outra fala de excessos, de fastios.

Apaixonar-te é função que me compete. Por isso não te digo tudo, não te dôo tanto, não te mostro se há mais. Para que sempre paire uma incerteza de leve sobre teus cabelos. Como se qualquer movimento do vento te arrepiasse, te pusesse medo na menção das coisas que passam. Me poupa do pó da tua sala, das dores que te acometem, do quão humana és. Para que eu possa ter-te envolta em fantasia. Como se tem a adoração a algo nunca visto, sobre-humano, ilusório e, justamente por tanto, irresistível.

Te mantém assim, como alguém que nunca sinta fome, nunca se aborreça, jamais perca a luz. Porque se chegarmos ao Amor um dia, num futuro que pretendo distante, este que tira o véu do encantamento e nos submete a um exercício de extrema e excessiva doação, este de provas concretas, de auto-superação, quero ainda ter comigo, nítida e intacta, a imagem primeira, que te tornou desejável antes, neste início de tudo e quão belo tem sido!

Me mostra apenas o tanto que me mantenha querendo ver. E fica o bastante apenas para sugerir uma presença tua. Apaixonar-me é tarefa que cabe a ti! Tão somente. E terás de ser a cada dia mais jardineira daquilo que queiras ver germinar. Terás de descobrir em ti, de ti, as faces insuspeitas; manejá-las com destreza e pontualidade. Para tanto, terás de saber mais a teu respeito, muito mais. De quantas sejam as muitas que te habitam, de como sejam elas. Para que possas invocar cada uma a seu tempo, causando mais feitiço, mais contemplação.

Encantar-me é tarefa tua. E se queres que eu esteja por mais tempo enamorada de ti, apreende a este conhecimento pleno. Porque não pretendo enfim, ensinar-te a amar ao próximo. Embora a idéia disso também me fascine - e dela, com certeza, eu viveria ainda mais! Porque me bastam as idéias mais do que me saciam suas práticas. Toma cuidado aqui. Neste ponto! Sabes tão pouco sobre mim... Aquilo que foi dito anos atrás: coração, asa e cadeado. Serve ao vôo como serve à rendição. O amor talvez seja o único que sirva a dois senhores, de acordo com o exercício da fé do crente. O são, o lúcido, o lúdico, exercerá um amor libertário, protomutante, sorvendo o ar que a tudo ocupa e devolvendo-o ao ambiente que lhe serve de morada. O errante, o dependente, o coração parasitário, sofrerá de um amor que reside fora dele, entregue, rendido à própria necessidade de amor e não a ele. O solitário, diante da visão do amor, sucumbe a ele, não o sustenta. Porque não deixa que ele entre e saia de dentro, no inspirar e expirar, não respeitando sua natureza que diz da impertencência de todo sentimento.

Quando vieres, vem vazia! Vem sem bagagens, sem vestígios do que foste, sem resíduos de quem quiseste antes de mim. Quando eu for, irei do mesmo modo - sem máscaras, mesmo aquelas que, de tanto vestir, esteja habituada, como se já fizessem parte do que sou. Irei ver-te, irei ter contigo, somente eu, com esta face de mim também irrevelada ainda, talvez nascida por ti e, sendo assim, toda tua.

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